segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Viajando no tempo

Walquíria Domingues
Vagão na estação de São João del-Rei leva turistas a uma viagem ao passado
Walquíria Domingues

“Eu comecei a trabalhar com fotografia em 1989, 1990. Comecei a fotografar com uma câmera soviética reflex”, relembra Luciano Marcos de Oliveira, fotógrafo há mais de 20 anos. Apaixonado por câmeras fotográficas antigas, sua coleção conta com mais de 40 máquinas. Algumas funcionam até hoje, inclusive uma ou outra ainda está em uso. Soviéticas, francesas, americanas, italianas. O conhecimento mundial da arte de fotografar fica reunido num pequeno e velho vagão de cartas, na Estação Ferroviária de São João del-Rei, local onde Luciano trabalha produzindo fotos de época para turistas.

Aprendizado
Com um curso de fotografia por correspondência, o seu aprendizado foi basicamente na prática. “Eu sou muito curioso, estudo muito fotografia, sou autodidata. Tenho livros, coleções sobre fotografia”, explica Luciano. Em 1992, quando ainda estudava na antiga Funrei (hoje Universidade Federal de São João del-Rei), ao pedirem os alunos para indicar livros para comprar para a biblioteca, Luciano indicou o “Tratado de Fotografia”, de Michael Langford, e eles compraram. “Agora que a universidade tem disciplinas de fotografia, com o curso de fotografia, eles devem ter bem mais livros sobre o tema, muito bom”, diz.

“As primeiras fotos que eu fiz e vendi foi dentro da fábrica em que eu trabalhava como metalúrgico”, recorda Luciano. Depois disso, ele foi trabalhar em laboratório, revelando fotografias em preto e branco, em Tiradentes (MG). “Lá em Tiradentes tem o ‘Traços de Época’, hoje do Cláudio Mesquista. Eu revelava fotos para os antigos donos, e depois fiz o laboratório do Cláudio, que me chamou pra ser sócio da ‘Máquina do Tempo’”, conta. Eles aproveitaram o antigo cenário da ferrovia, e deu muito certo.

Há oito anos, desde 2004, a Máquina do Tempo existe. “A ideia inicial era ter uma sala com porta pra rua, mas a ferrovia não tinha uma sala disponível, e então sugeriu o vagão”, explica Luciano. Eles pagaram a reforma do vagão, e mensalmente pagam o aluguel. Ele afirma que existem certas vantagens e desvantagens. “No verão é muito quente e o espaço é pequeno. Mas se for olhar pela originalidade do negócio, ficou até mais interessante. É uma pena que não conseguimos atender o público externo”, diz.

                                                     Walquíria Domingues
Luciano dá vida a câmeras antigas
Mirando o Passado
A sinalização é humilde, e indica um pequeno vagão inoperante de cartas, dentro da estação ferroviária. Fechado, ele é praticamente invisível aos olhos dos turistas que passam por ali, maravilhados com as máquinas, os vagões de luxo e o ambiente retrô. Mas, quando Luciano chega e abre as portas e janelinhas, quem percebe e chega perto é transportado para séculos atrás. Uma arara de roupas antigas, incluindo vestidos, ternos, anáguas e saias longas, divide o espaço com cabideiros de chapéus e boinas. No chão, alguns sapatos se apertam entre antigas malas de viagem. Um porta-jóias aberto derrama sobre a mesa alguns colares, anéis, brincos, luvas e outros adereços. E é na frente de um espelho comprido que as pessoas se transformam em verdadeiros personagens de época.

Denise Antero, 27, produtora, e sua mãe Adriana Antero, 47, pedagoga, de Fortaleza, vieram passear em Minas Gerais. Visitaram algumas cidades vizinhas e São João del-Rei, e depois de passearem na Maria Fumaça, resolveram tirar as fotos antigas da Máquina do Tempo. Denise conta que uma pessoa indicou as fotos enquanto estavam dentro do trem. “Resolvemos voltar aqui para fazer as fotos de época, ficamos muito interessadas”, conta. Com vestidos do século passado, sombrinhas e malas de viagem, mãe e filha viajaram no tempo e se divertiram fazendo encenações da época de suas gerações anteriores. “Amei a experiência”, fala Adriana.

Luciano explica que a ideia é interessante por que a atividade proporciona ao turista uma viagem no tempo. “É como você voltar ao passado, e sentir um pouco como era. É uma fantasia, uma diversão. A fotografia é uma grande diversão”, diz. Ele faz oito fotos, em quatro situações diferentes. “Quando está tranqüilo e a pessoa pede mais fotos, eu não me importo de fazer mais”, diz. O turista escolhe o que quer levar, a foto impressa ou o arquivo digital.

Paixão por câmeras
 
Luciano sempre gostou de objetos antigos, principalmente câmeras fotográficas. “Como eu já disse, a minha primeira câmera fotográfica reflex era uma câmera soviética, uma Zenit 11. Naquela época, final da década de 80, o Brasil não tinha muita abertura pra importação. Então era muito difícil comprar câmeras importadas, elas eram muito caras. A minha era mais barata, a gente podia comprar com mais facilidade”, explica.
 
Walquíria Domigues
Tudo para uma caracterização 
de época perfeita
Ele tem um conhecimento aprofundado em sistemas de fotografia tridimensional e estereoscopia. “É um assunto que no Brasil é carente de informação. Até a estereofotografia é desconhecida por muitos fotógrafos profissionais. E as pessoas se surpreendem quando sabem que no século XIX, já tinha fotografia tridimensional”, fala.

A sua coleção começou quando Luciano tinha um estúdio. As câmeras chegavam com facilidade. “As pessoas me ofereciam câmeras que eram de seus avôs, por exemplo. E quando eu gostava, eu comprava”. “Eu gosto de ter as câmeras pra uso. Muitas delas eu recebo em condições bem precárias, e eu acabo dando um jeito de colocá-las em uso”, diz. Câmeras com mais de 100 anos, e com mais de 60 anos inoperantes voltam a funcionar novamente.

Mirando o futuro
 Luciano está preparando um livro sobre estereoscopia, e também quer fazer uma exposição com as câmeras e com as fotografias que faz com elas. Talvez ele precise repensar seus planos, transportar a Máquina do Tempo para outro local. “Eu estou com ordem de despejo do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]. Em 2007 a união repassou as ferrovias de valor histórico cultural, como a de São João del-Rei, para o Iphan. “Eles querem que retirem tudo quanto é forma de comércio daqui de dentro”, reclama Luciano. “Já recebi convites para ir para Petrópolis, São Lourenço e para Olinda. Mas eu não gostaria de me afastar de Minas”, lamenta.
 

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