quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Paixão por Harleys

Mayra Melo
Com uma vida guiada sobre duas rodas, Guilherme Berg passou a sua paixão para os filhos

Walquíria Domingues

“Quando eu aprendi a andar de moto, meu pai ia na garupa, por que eu não alcançava o chão. Minha paixão por motocicleta vem desde garotinho”, conta Guilherme Berg, são-joanense aposentado que durante toda a vida nunca abandonou a estrada e a Harley Davidson. A paixão pela marca também vem de cedo, afinal, segundo Berg, é um tipo de moto que tem um ótimo desempenho e a facilidade de personalização, duas características das quais ele gosta.

Em sua casa, com uma camisa estampando o frontal de uma Harley, da forma como gosta de se vestir, Guilherme volta ao passado, relembrando histórias e recordando os encontros e as motos, com a presença de dois dos seus quatro filhos. “Fiquei apaixonado pela Harley e desde que eu consegui comprar uma, não tive moto de outra marca”, explica. Quando tinha 18 anos, Berg comprou sua primeira moto, “uma Harley velhinha, que não estava nem funcionando”.

Berg levou a moto para casa numa carroça puxada por burros, e começou a luta para fazê-la funcionar. Adaptou pneu de fusca, bateria de carro e carburador de motor de polpa de barcos. E a moto funcionou. “Era uma moto da década de 40, uma flat head antigona. Ela funcionou e sai com ela. Era uma rua de terra, então na primeira curva que eu fiz, como a embreagem era de pé e eu não estava muito acostumado, me esparramei pelo chão, me ralei todo”, relembra. Mas a verdade é que, apesar do tombo, depois da primeira acelerada, essa Harley guiou Berg por todos os caminhos da sua vida.

Histórias, moto-clubes e grandes encontros
Guilherme é filiado a quatro moto-clubes, o “Águias de Aço”, de Belo Horizonte, que ajudou a fundar em 1980, aos “Vampiros”, de São João del-Rei, criado em 1998, aos “PHD’s” (Proprietários de Harley Davidson), de Blumenau, Santa Catarina, e ao “Wings of Gold”, da Flórida, EUA. “Quando eu vou lá aos Estados Unidos, gosto de passear, e eles me emprestam uma moto, é bem legal. Eu ia muito lá, umas quatro ou cinco vezes por ano, só pra participar de encontros de motos”, fala Berg. 

                                                                                      Mayra Melo
Uma verdadeira cirurgia: sucata ganha vida
Os PHD’s fazem um encontro anual, e neste ano, no dia 5 de agosto, Guilherme foi o homenageado da festa. “Foi uma surpresa muito grande. Quando cheguei à festa tinha uma foto minha do tamanho da parede”, conta. Com relação aos encontros, Berg criou seu próprio encontro de motociclistas, o famoso Encontro de Motos Clássicas de Tiradentes. “A gente se encontrava em Barbacena, num evento de carros antigos, que era tradicional por lá. Daí acabou e o pessoal que ia de moto pediu que eu fizesse um evento por aqui”, relembra.

Em 1991 Berg e seus amigos fizeram uma reunião, e todos gostaram da ideia de se fazer um encontro de Harley Davidson em Tiradentes. Em 1992 aconteceu o primeiro, com pouco mais de 30 motos. No segundo ano já tinham duzentas, e no terceiro ano Tiradentes já não comportou o pessoal. “Faltou hospedagem e alimentação, então o pessoal se hospedou em São João del-Rei”, conta Berg. Ele diz que o evento acaba beneficiando não só Tiradentes, como toda a região, já que ficam motociclistas hospedados em Caxambu, Barbacena, Barroso, Prados, Resende Costa, e outras cidades vizinhas.

A razão pela qual o encontro é em Tiradentes é por questão de espaço, e por que Tiradentes oferece uma estrutura melhor que São João. “Lá tem muito espaço, e por causa dos barzinhos nas praças o pessoal fica no evento e não dispersa”, explica. E, de certa forma, o evento contribuiu e ainda contribui muito para a expansão do nome da cidade. “O Bike Fest foi o primeiro evento grande que teve em Tiradentes, tirando a festa da Santíssima Trindade”, diz Berg, que realizou a vigésima edição neste ano. “Hoje não fazemos mais inscrições de moto-clubes e nem damos troféus. O número cresceu muito e foi ficando inviável. Da última vez que fizemos inscrições, em 2007, foram mais de mil moto-clubes”, conta.

Seu filho, Jordano Berg, hoje responsável pelo Grupo Berg, que realiza o Bike Fest, explica que durante os 20 anos de evento aconteceram muitas transformações. “Tivemos que transformar o evento numa empresa e captar recursos. Conseguimos a Lei de Incentivo à Cultura, e fizemos o festival de Jazz no evento. Também realizamos plantios de árvores, numa parceria com o Banco da Árvore. Não é em Tiradentes, mas uma parte vem pra cá. Reflorestamos parte da Serra de São José”, explica. O plantio das árvores minimiza a quantidade de poluentes emitida pelas motos. Eles também promovem palestras para as crianças nas escolas, sobre direção defensiva, leis de trânsito, etc. “É importante pra gente, porque não é todo mundo que tem uma visão boa de moto e de motociclistas’, explica.

Família unida numa só paixão

Formado em Engenharia Mecânica e Administração, tudo o que precisava pra trabalhar com sua paixão, a moto, abriu uma importadora de peças da Harley, por que tinha muita dificuldade de adquirir peças. “Era uma luta a gente conseguir peças. Resolvi fazer isso pra mim e pros amigos. Antes era aqui em casa a loja. O pessoal vinha, ficava hospedado, consertava as motos. A casa vivia cheia de motos, que tempo bom”, relembra.

Mayra Melo
Mais de 20 amores (HD) um grande enamorado
Então, o filho mais velho, Guilherme, que mora nos Estados Unidos e é piloto de moto-velocidade, assumiu a importadora do pai. “Ele resolveu transferir a sede da empresa para os EUA, lá tem uma exportadora e também uma revenda da Ducati. Mas o hobby dele mesmo é correr de moto”, diz o pai, de certa forma orgulhoso. “Além do meu filho Guilherme, tem o Jordano, que coordena o Bike Fest hoje, e o mais novo, Bernardo, anda de moto desde pequeno. Fabrício trabalha com informática”, conta Berg. Todos os filhos, até mesmo Fabrício, estão vinculados à moto, de alguma forma, profissionalmente ou não.

“Já nasci no evento, então desde pequeno vivi no meio de moto. Meu irmão, que corre moto-velocidade nos EUA me influenciou muito, tanto que já disputei campeonato brasileiro de motocross”, fala Bernardo. Seu pai está restaurando uma Harley Davidson de 1951 para presenteá-lo. Nada mal o presente. “É um sonho eu ter uma Harley, ainda mais meu pai fazendo uma pra mim”, fala Bernardo, que vai prestar vestibular pra Engenharia Mecânica, como o pai.

Hoje, aliás, Guilherme Berg fica só por conta disso. Restaurar motos. “Agora fico só na oficina, o dia todo. Pra me tirar dali tem que ser um motivo muito forte”, brinca. Ele reforma, restaura, customiza. “Eu sempre compro uma moto antiga e restauro. Estou fazendo uma agora para o meu filho, estou trabalhando nela. Estou desmontando uma também de 1946, pra restaurar”, diz. Ele explica que a Harley, desde 1903, com tantos modelos, ainda hoje se compromete a te entregar qualquer peça de qualquer moto, de qualquer ano, até mesmo de um modelo de 1920, por exemplo. “Por isso que essa marca desperta paixão. A que estou fazendo pro Bernardo é de 1951, e eu tenho importado peças originais pra ela”, diz. Pra quem já teve mais de 20 Harleys, com boas recordações de todas elas, há quem diga que Guilherme Berg é maluco. “Somos só apaixonados, mas a verdade é que toda Harley tem uma alma. A Harley é uma obra de arte”, diz.

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