sábado, 18 de agosto de 2012

JP: paixão pela comunicação e por SJDR

                                                                               Arquivo pessoal
JP (esquerda) entrevistando o radialista
José Luiz Ferreira na TV Del Rei


Na pequena sala em que trabalha produzindo seus vídeos e outras ações, João Paulo Guimarães, o conhecido JP, concedeu-nos uma entrevista. Horas a fio voltando ao seu passado e ao de São João del-Rei, cidade escolhida para permanecer e amar. Passados, aliás, entrelaçados, já que JP sempre se envolveu muito com as mídias e a política da cidade, de forma crítica, observadora e atuante. Foi uma manhã enriquecedora, com alguém que, com o espírito jornalístico, dá um exemplo de cidadania e preocupação para com a cidade seus acontecimentos. Confira aqui um pouco de sua história, de sua trajetória e do seu amor pela comunicação e por São João.

OC - Sua grande paixão, pelo que parece, é a câmera, o audiovisual, a documentação imagética. Além disso, é visível seu amor por São João del-Rei, apesar de não ter nascido aqui. Conte-nos como chegou até aqui, e como começou sua história de amor com a comunicação audiovisual.

JP - Eu nasci em Uberlândia, sou filho de militar, então de lá fui pra Uberaba, e de lá para Brasília. Minha adolescência foi em Brasília, então eu tenho esse choque cultural que me influenciou muito. Brasília começou em 1960, e eu nasci em 60. E lá é uma cidade sem conteúdo cultural, porque a cidade estava se formando, era um canteiro de obras. De lá fui pra Belo Horizonte, onde fiquei por sete anos, e aí vim para São João, terminei de estudar e entrei pra faculdade. Comecei fazendo Economia. Fiz um ano, mas como não tinha muito conteúdo que me sustentasse, eu mudei para Administração. Faltando algumas matérias pra me formar eu larguei tudo, e entrei pra área da comunicação. Quando eu era aluno, eu era líder de turma, e tive a ideia de fazer um mural, algo muito prático, parecido com o Jornal do Poste. Às vezes eu postava uns artigos pequenos. O fato de eu ter feito o muralzinho mexeu comigo, me empolgou. Quando fui presidente do Diretório Acadêmico, também fiz um jornalzinho, que se chamava “Zum Zum Zum”. Eu também fazia uma boquinha na rádio São João. Com esse jornal, eu comecei a procurar entender esse processo de comunicação, porque você tinha um feedback. Aqui em São João tinha um jornal que se chamava Jornal de São João del-Rey, o primeiro rodado em gráfica na cidade. Ele era do Edson Paz, e eu fui convidado por ele pra trabalhar lá. Eu levei as ideias para a faculdade e montei o JE, O Jornal dos Estudantes. Inclusive ainda tem material dele lá na Biblioteca Municipal. Até hoje SJDR nunca teve nada igual, aquilo era um fenômeno. O Toninho Ávila, por exemplo, passou a ser referência depois que virou matéria no jornal. Falávamos da vida acadêmica, dos hobbies da cidade. Tínhamos uma coluna chamada Circuito Noturno, em que falávamos de restaurantes, etc. Era a sustentabilidade do jornal, que era em formato tablóide. Ele marcou uma época. Chegamos a ter uns mil assinantes. Se não me engano foi em 88, 87. Nosso jornal chegou a ser o destaque do ano e ganhamos o troféu Destaque Del-Rey, como melhor veículo de imprensa do ano. Ele chegou a expandir para Barbacena, inclusive.

                                                                                                                                                                                                      Arquivo Pessoal
JP na redação do JE - O Jornal dos Estudantes - em 1987.
OC- Além de sua tendência para a comunicação, assim como qualquer um desta área, você também se sente atraído pelas questões políticas, principalmente as locais. Como é sua relação com a política?

JP - Ingressei num partido político, o PJ, Partido da Juventude. Foi a partir da comunicação que ingressei na política. Mas eu era cru de tudo, era mais empolgado com a ideia da comunicação. Comecei a trabalhar na assessoria de comunicação da prefeitura de São João. Eu fui cuidar do jornal informativo do PMDB Jovem. O primeiro jornal que lançou o Aécio Neves como candidato fui eu que fiz. Quando o Tancredo morreu, eu também estava com um programa na rádio. Ninguém foi trabalhar na Rádio São João, então eu fiquei lá com a rádio tocando música o dia inteiro, e dando o aviso de óbito. Eu tive que segurar a peteca pra ela não cair.

OC – E dos jornais e rádio, você começou a se interessar pelo jornalismo televisivo? Como você descobriu a câmera filmadora e o poder dos documentários e demais materiais que veio fazendo no decorrer do tempo?

JP - Eu comprei uma filmadora, com a ideia de filmar pegadinha. A primeira ideia foi essa, só que eu peguei a câmera e comecei a andar pela cidade, filmando tudo. Fui me empolgando, e pensei em fazer diferente. Pensei em fazer uma mídia. Daí eu criei a “Vídeo Revista”. Foi outro fenômeno na época, por que aqui não tinha TV, só rádio. Haviam outras experiências parecidas, como a do João Ramalho, que fazia reportagens e colocava na rodoviária e em alguns pontos, e ficava passando aquela fita direto, numa televisão.

OC – Conte-nos mais sobre a Vídeo Revista.

JP - Eu tinha que buscar o conteúdo, fazer a matriz, e duplicar a matriz. Isso foi na década de 90. Coloquei as cópias das fitas e colocava em locadoras e padarias dos bairros. Fazíamos uma média de 30 a 40 cópias e esparramávamos pela cidade. O negócio foi ganhando uma importância que eu fiquei impressionado. As pessoas me cobravam o que iria sair na próxima edição. Eu tinha que vencer o tempo, o furo jornalístico não tinha vez. A primeira revista que fiz foi “O dia em que a cobra fumou”, com uma reportagem sobre a Segunda Guerra Mundial. Foi numa época que estavam vindo pra cá os pracinhas. Pensei que era a chance de eu fazer um documentário, até porque São João del-Rei tem muito a ver com essa história. Fizemos uma mesa redonda e começamos a conversar, e eu fui filmando. Esse documentário foi feito com uma VHS, editada em vídeo cassete de quatro cabeças, era difícil demais. Só sei que ele ficou muito legal e eu me envolvi demais com ele. Há alguns meses coloquei ele no YouTube, e ele passou de mais de 100 mil exibições. Sobre a Vídeo Revista, eu vi que as pessoas queriam ficar com os exemplares. Então pensei em vender cópias. Aquilo vendia tanto que eu ficava uns três meses vivendo daquilo. A Agência foi o principal ponto de venda. Foi dela que começaram a surgir os documentários sobre a História da cidade.

OC – Sobre esses documentários sobre São João del-Rei, que até hoje já são mais de 50, um que chama a atenção é o vídeo “Nós éramos assim”. Como foi sua produção?


JP - Eu ia à casa do Toninho Ávila, e tinha um monte de foto da época do Kibom, e eu propus a ele de fazer um vídeo sobre isso, contar a história do Kibom em vídeo. Corremos atrás dos colegas todos, pegando fotos da época, depoimentos, o que eles faziam o que eles curtiam... Foi uma época de mudança de comportamento muito forte, então tinham muitas histórias. Eu também cheguei a freqüentar muito a Esquina. Quando passavam as fotos, entrava a música dos Beatles, tudo instrumental, e depois mais depoimentos. Isso bombou de um jeito, que fiquei um ano vivendo disso. O pessoal falava assim, João, ficou incrível, a fita não sai do meu videocassete. O pessoal fazia reunião em casa e chamava o pessoal pra assistir o vídeo. Foi o vídeo de uma época, de uma geração, e estava tudo ali, os amigos, os momentos vividos, as músicas da época, então mexeu muito com todos. E algumas pessoas começaram a reclamar que tinha foto que não tinha entrado, e nós acabamos fazendo outro vídeo, com mais material. O primeiro vídeo se chamou “Nós éramos assim”, e depois fizemos o “Nós éramos assim II”. 
                                                                                     Arquivo Pessoal
Destaque Del Rei, melhor veículo de comunicação
de SJDR
em 1997, para O Jornal dos Estudantes
OC – E assim você abandonou de vez os jornais impressos e a rádio, e focou em documentários. Grande parte da história de SJDR está neles.

Fui virando documentarista, fui me especializando no documentário. E acho que ele é o último nível do jornalismo. O documentário é uma coisa mais consolidada, uma verdade mais cristalizada, mais sólida. Fiz um documentário sobre o soldado brasileiro em Angola. Foi o primeiro vídeo internacional que eu fiz, sem sair daqui. Teve um contingente daqui que se reuniu com o pessoal da ONU e o pessoal foi com filmadora, e filmavam pra mandar pra família, só que eles registraram tudo. Quando chegaram aqui, eles queriam passar tudo pra uma fita só, pra todos terem uma cópia, só que eram 30 fitas e tinham mais de 60 horas de imagem. Ninguém quis pegar, mas eu disse que me interessava pelo material. Assisti tudo, e resolvi fazer entrevistas com o pessoal que foi lá, pra poder enriquecer o vídeo. Ele se chamou “Angola, uma missão de paz”. Eu aprendi muita coisa, foi uma experiência tão rica pra mim. Era como se eu estivesse lá, olhando com o olho do soldado. Lembro que na época comprei um carro com o dinheiro que ganhei. Este foi o meu documentário predileto. Afinal eu consegui me sentir em Angola, e entendi a importância e o valor histórico desse material.

OC - Outro trabalho seu, muito interessante, é a TV Del-Rei. Como surgiu essa ideia de levar a TV para a internet?

JP - Eu ajudei a fazer uma TV com sinal aberto aqui em São João. Coloquei meu acervo à disposição, e bombou. Mas, por questões políticas, tiraram o sinal aqui de são João e deixaram só em Tiradentes. Daí pensei que, voltar com a Vídeo Revista não dava mais. Um amigo me deu a idéia de fazer um jornal na internet. Eu nunca tinha entrado na internet, mas daí montei o JP Notícias, um site com notícias de São João del-Rei. Foi algo que marcou muita presença, além de ter dado uma pontuada legal no contexto político. Um dia meu filho me apresentou o Youtube, e eu decidi mandar meu material pra lá. Fiquei empolgado com aquele negócio. Só que ali você não faz algo pra localidade, você faz pro mundo inteiro ver, e poucas pessoas daqui que viam. Pensei também em como bancar aquilo. Pra publicidade a internet ainda é um negócio complicado. Descobri uma forma de compartilhar meus vídeos ao vivo, daí eu resolvi criar a minha TV. Assim criei o site WWW.tvdelrei.com.br. Mas há uma grande diferença entre esse tipo de TV para a TV aberta. Na TV aberta, o produtor é o sujeito, já na internet, o sujeito é o usuário, e o produtor se torna objeto. Eu descobri o Facebook, e vi que lá era possível assistir aos vídeos. Está todo mundo lá, e rapidamente consegui muitos amigos. Eu tinha um público que poderia chegar nele mais fácil. Eu tenho muitos amigos também que tem blog, e então pedi que eles colocassem o link da TV del-Rei lá. Assim, os vídeos estavam tendo uma audiência diária legal. A TV Del-Rei é um talk show, onde as pessoas têm a oportunidade de se colocar, contar sua história.

OC - As pessoas hoje não têm mais a capacidade de assistir coisas longas até o final. A internet é muito rápida e coisas interessantes disputam o seu tempo com milhares de informações. Como você lida com essa necessidade de fazer vídeos cada vez mais rápidos, já que seus documentários são bem elaborados e alguns duram mais de uma hora?


JP - Eu tenho uma surpresa agradável. O meu vídeo da Segunda Guerra Mundial está com mais de 100 mil visualizações. O vídeo tem mais de uma hora e teve boa repercussão. A internet me abriu novos caminhos.

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