segunda-feira, 30 de julho de 2012

Kairós, tempo possível para arte e cultura

                                                                                                                                                                                  Junior Viegas/25°Inverno Cultural
Cortejo evoca Kairós, a cultura, a arte e o povo de São João del-Rei

Walquíria Domingues

Depois de promover 120 atrações envolvendo os mais diversos campos da arte e cultura, o 25º Inverno Cultural, maior programa de extensão da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que começou com um alegre cortejo pela cidade no dia 14 de Julho, despediu-se na noite do dia 28. As duas semanas que rechearam o cardápio cultural da cidade contaram com grandes nomes nacionais e internacionais de sete grandes áreas: Música, Literatura, Arte-Educação, Artes Cênicas, Artes Visuais, Artes Plásticas e Especiais. O festival também contou com 68 oficinas, grandes shows e novidades na programação.

O tema do festival foi bem oportuno. “Kairós, um tempo possível” remete a uma divindade grega, que representa o tempo propício, oportuno, ou o tempo de Deus. “Este tema homenageia o Festival de Inverno em si e também a UFSJ e o próprio efeito dessa efeméride na nossa história”, conta o ex-Reitor da UFSJ, Helvécio Reis. Kairós é filho de Kronos, e é um tempo que não é medido cronologicamente.

É um tempo que permite que o home seja, no sentido pleno do termo, segundo o Coordenador Geral do 25° Inverno Cultural e Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários Professor Marcos Vieira Silva. “Somos todos envolvidos por uma condição de tempo que nos cobra respostas imediatas, não nos permitindo um tempo para reflexão”, diz. O tema também mostra que os 25 anos da UFSJ e do festival não podem ser medidos cronologicamente, mas sim de forma reflexiva, proveitosa e possível.

Oficinas, shows, exposições, intervenções fotográficas, noite de poesia, espetáculos teatrais e de dança, corais, recitais, concertos. Com um orçamento que beirou 1,5 milhão de reais, segundo o ex-reitor Helvécio Reis, três vezes mais que há oito anos, o Inverno Cultural ganhou uma dimensão e uma credibilidade muito grandes.

Atrações, Colóquios e Mostras 
Algumas coisas na programação foram novidade. O Colóquio Interdisciplinar Tempos Possíveis e a I Mostra Ensaios de Arte e Cultura, levantaram e debateram questões importantes acerca do tempo, da arte e da cultura. E a Mostra Kairós de Audiovisual deu espaço para produções audiovisuais tanto de conceituados cinegrafistas, quanto dos que estão começando agora. Mais de dez vídeos ganharam projeção aberta ao público.

                                                                                                                                                                     Leandro Nunes/25°Inverno Cultural
Mostras e colóquios: exposição de pensamento, e não só de arte

Os destaques foram para dois curtas. O “Tempo de Fé” (2012, 7’), de direção de Thiago Morandi e co-direção de André N. P. Azevedo, foi realizado por um grupo de estudantes de jornalismo da UFSJ e de fotógrafos de SJDR, durante a Semana Santa de 2012. O filme foi feito com a técnica de Time-Lapse, uma sequência de imagens em alta velocidade. O trabalho durou cinco dias e foram captados aproximadamente 120GB de arquivos fotográficos.

O curta “Deus Esteja (2011, 30’), de direção de Mariana Fernandes, foi filmado na zona rural de Resende Costa (MG) e registra manifestações culturais do interior de Minas Gerais, acompanhando a devoção e a simplicidade de foliões, religiosos e violeiros. “O filme é uma realização independente, mas contei com o apoio do IRIS (Instituto Rio Santo Antônio; ONG de Resende Costa) na produção local, cuja parceria foi fundamental para realizar o trabalho. E, falando de parceria, o Inverno Cultural é um grande aliado do documentarista independente, pois abre espaço para exibir as produções regionais, na maioria das vezes caseiras”, diz Mariana Fernandes. “O evento possibilita visibilidade para o profissional que está iniciando sua carreira e experimentando novas linguagens. Ao mesmo tempo, a programação do evento exibe ao público as histórias da cidade e da região, valorizando a nossa cultura e tradições populares”.

O Colóquio Interdisciplinar Tempos Possíveis trouxe reflexões acerca da temática do tempo. Mesas redondas debateram duas temporalidades: entre o tempo histórico e o contemporâneo, e as permanências e efemeridades. Participaram convidados de diferentes campos do conhecimento e instituições. Três palestras também trouxeram para debate outros temas atuais, como as mídias sociais, o cinema brasileiro e os diálogos entre a poesia e as artes visuais.

Já a I Mostra Ensaios de Arte e Cultura foi uma espécie de oficina-evento, de caráter teórico-transdiciplinar, e promoveu 11 encontros, com profissionais do cenário artístico-cultural em âmbitos nacional e internacional. Foram abordados a arte e o ensino nas universidades, o jornalismo e crítica cultural, design gráfico e poesia visual, a acessibilidade em espaços culturais, a fotografia na arte contemporânea, a arte e tecnologia, dentre outros.

Lançamentos de livros
Nesta edição do festival foram lançados 18 livros. Três merecem destaque, tanto por serem de autores da cidade e região, quanto por retratarem um cenário também regional. “Causos em Crônicas de Humor”, de José Antônio Oliveira de Resende e Ramiro José Gregório, reúne contos e crônicas estruturadas em torno do cotidiano e do humor, dos Encontros Culturais realizados semestralmente no Memorial Cardeal Dom Lucas Moreira Neves. “É disso que o torcedor gosta”, de Rodrigo de Castro Resende, conta a história das transmissões radiofônicas de futebol em SJDR, a partir de depoimentos como o do pioneiro Antônio Fraga. Por último, “Impasses e perspectivas da Imprensa em Minas Gerais”, de organização de Guilherme Rezende, reúne as primeiras pesquisas na área de jornalismo político, regional, do curso de Jornalismo da UFSJ. 
                                                   Leandro Nunes/25°Inverno Cultural
Lançamentos e autógrafos no festival
Grandes shows
O mais esperado do festival, como sempre, é a programação dos shows. A 25ª edição trouxe para o Palco Kairós a sambista Leci Brandão, o grupo musical Mawaca, Jorge Aragão (em Barroso) e, talvez, o mais esperado, Pato Fu, com participação especial do grupo Giramundo. A novidade este ano foi o local de realização dos shows. Devido à lei municipal que proíbe alguns eventos nas principais ruas da cidade, o Palco Kairós foi montado na Av. Leite de Castro, ao lado do Posto Viannini.

Em entrevista à Revista VIVA, Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, disse que São João del-Rei é uma cidade muito acolhedora. “Já estivemos em São João Del Rei em outras oportunidades, seja como artistas ou turistas. É um lugar muito acolhedor, com um público muito interessado em conhecer novas propostas”, disse. Ela explicou que o novo álbum da banda, “Música de Brinquedo”, é um trabalho para todas as idades. “Depois que fomos pais, percebemos que às vezes algo que é muito direcionado a só um tipo de público, acaba ficando enfadonho pro outro. Tentamos fazer algo híbrido que pudesse ser desfrutado por todo mundo”.

No palco, além dos integrantes do Pato Fu, também havia personagens infantis, do grupo Giramundo. “O Giramundo é nosso parceiro há muito tempo, desde o primeiro disco. Já tinham participado de shows antes, mas nunca de um jeito integral. Eles são incríveis e juntamos as duas linguagens num mesmo espetáculo: bonecos e música”, explicou Fernanda Takai.
                                                                                                                                                                      Leandro Nunes/25°Inverno Cultural
Pato Fu, Giramundo e um tempo possível para todas as idades


Ao perguntar por que “Os Muppets” foram inspiração do novo trabalho, Fernanda diz que eles têm a mágica de serem queridos por crianças e adultos. “Só que a faísca criativa foi mesmo um disco da turma do Snoopy cantando Beatles com instrumentos de brinquedo. Compramos esse disco em 1995 e ficamos com essa ideia rodando na cabeça até 2009, quando começamos a produzir o nosso álbum”, disse.

Espetáculos e tempos possíveis
O Teatro Municipal de São João del-Rei lotou em todos os espetáculos teatrais, musicais e de dança. O Largo São Francisco e outros locais da cidade também foram palco das atrações. As pessoas sentiam que o momento era de cultura e arte, e que era preciso parar um pouco o tempo, o dia a dia, o cotidiano rotineiro e automático, para sentir, ver, ouvir, pensar.

Uma proposta muito interessante foi a Exposição Rotativa, itinerante e interativa de ensaios fotográficos do curso de Comunicação Social – Jornalismo, juntamente com o fotógrafo Paulo Filho, e as intervenções fotográficas do Estendal, coletivo criado no Rio de Janeiro. A Exposição Rotativa levou imagens que refletiam os tempos possíveis e o cotidiano da cidade e região para bares e para os ônibus coletivos municipais.

“Pensamos em atingir outro público, que é quem geralmente não vai pro Inverno Cultural. O cara que senta aqui no Bar do Carioca, ou o trabalhador que pega o ônibus todo dia, que não vai para os eventos, terá a oportunidade de ‘ir a uma exposição’”, afirma Thiago Morandi, curador da exposição rotativa. Já o grupo Estendal pensa no mesmo: levar para as ruas e praças públicas imagens pensantes ou pensamentos imagéticos.

Os espetáculos teatrais, infantis ou não, fizeram com que a fila para entrada dobrasse a esquina. E, quando feitos na rua, atraíam as pessoas para perto. Ao assistir o espetáculo “Oxigênio”, da Cia Brasileira de Teatro, de Curitiba, o estudante do curso de Teatro da UFSJ, Douglas Silva Laura, disse que a qualidade das peças que o Inverno Cultural trouxe para a 25ª edição está interessante. “Este espetáculo é atual porque está dentro das discussões que hoje pautam as nossas instituições, de uma maneira mais abrangente. Ele está dando conta de praticar o que teoricamente a gente está na especulação”, diz.

A dançarina Letícia Carneiro, do grupo mineiro Quik Cia de dança, que apresentou um espetáculo no Largo São Francisco, aprovou o festival. “A ideia do Kairós a gente tem que puxar para o nosso cotidiano de alguma maneira, parar pra ver uma palmeira, parar pra ver a beleza da cidade”, diz Letícia.

Universidade e comunidade
São João del-Rei nunca esteve tão envolvido com o festival como agora. Vários grupos da comunidade artística local fizeram parte da programação, de alguma forma. O Inverno Cultural fechou com chave de ouro, no dia 28, no Teatro Municipal, com o concerto da Banda são-joanense Theodoro de Faria, que completa em 2012 110 anos. Logo mais, no Palco Kairós, o grupo Mawaca finalizou o festival.

O Coordenador Geral do 25° Inverno Cultural e Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários Professor Marcos Vieira Silva disse que o festival está cada vez mais abrindo espaço para a comunidade artística local. “Dá muito mais mídia uma atração internacional, mas nós sempre temos atividades voltadas para os artistas locais. Nós temos apresentações de gente daqui, tanto em oficinas quanto em eventos. Temos também oficinas feitas por artistas locais, além de contarmos com atrações da cidade e região”, afirma. “A gente tem feito parceria com grupos locais, não só para o Inverno Cultural. A programação do Centro Cultural da UFSJ, por exemplo, até o final do ano, será composta por artistas locais”, diz Marcos Vieira. Há casos de pessoas que hoje dão oficina, e que já foram alunos de oficinas em edições anteriores, como Paulo Filho, fotógrafo reconhecido que tomou gosto pela fotografia nas oficinas do festival. “Quem participa do Inverno Cultural com certeza é uma pessoa melhor pra sempre, já que cultura e arte fazem parte uma cidadania emancipatória”, acredita.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Música celta e erudita no Teatro

                                                                                                                                                    Leandro Nunes/25° Inverno Cultural da UFSJ 
Erudito, world music e canções celtas no Teatro Municipal de SJDR

Walquíria Domingues

A semana em São João del-Rei começou muito bem. A programação do 25° Inverno Cultural da UFSJ ainda segue até o próximo sábado (28), com uma programação riquíssima. A noite de segunda se encerrou com a apresentação do espetáculo musical “Only Time” do grupo Ânima, de São João del-Rei, no Teatro Municipal, às 20h. O repertório, que incluiu música celta, world music e música erudita, parou o tempo acelerado da era tecnológica, proposta do grupo, muito bem executada.

A intenção era realmente essa. Resgatar, por meio da música, um pouco dos tempos perdidos de antigas civilizações e culturas primitivas. Sem hierarquias culturais, o show “Only Time” não utilizou o tempo medido do relógio, mas instaurou a magia do tempo ritual num espetáculo multicultural e ao mesmo tempo universal.

O grupo, formado por Elisabete Mendonça (Soprano), Mário Krauss (Tenor), Salomé Viegas (Flauta), Márcio Valadão (Violino), Maria Amélia Viegas (piano), Isabele Alves (violoncelo), Yuri Vieira (percussão) e André Oliveira (violão), e diretor geral do espetáculo Marco Camarano, a maioria já muito conhecida em São João del-Rei, encantaram a todos que foram ao Teatro prestigiar, com a precisão, leveza e harmonia dos instrumentos e das vozes.
A platéia foi levada a um estado mais reflexivo e introspectivo, com um repertório que contou com músicas mais conhecidas, como “Runaway”, da banda irlandesa The Corrs, as músicas “Boadiccea” e “Only Time”, da cantora, instrumentista e compositora irlandesa Enya, e melodias tradicionais irlandesas, como “Lannigan’s Ball” e “Danny Boy”. O ritmo das músicas e as imagens que iam passando no telão ao fundo do espetáculo realmente nos levaram para um lugar místico, exótico, que não existe o tempo cronológico. O nome do grupo, Ânima, que é “alma” em latim, de fato tocou a nossa, e nos transportou para dentro da sua.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Palhaços e doçura na guerra

                                                                                                                                                               Junior Viegas/25° Inverno Cultural
A delicadeza de homenagear a figura do palhaço e de poetizar a guerra e o holocausto

 Walquíria Domingues


Mais uma vez o Teatro Municipal lotou. Haviam até mesmo pessoas assistindo o espetáculo de pé. A peça “Holoclownsto”, da Troupp pas d'argent (Rio de Janeiro), de direção de Marcela Rodrigues, com um humor muito delicado, narrou hoje, às 21h, a história de seis clowns (palhaços) prisioneiros que se conhecem em plena guerra no último vagão de um trem rumo ao desconhecido. A trupe, formada por Carolina Garcês, Lilian Meireles, Marcela Rodrigues, Natalíe Rodrigues e Orlando Caldeira, provocou muitas risadas com a doçura e a inocência com que transformaram o horror da guerra, no 25° Inverno Cultural da UFSJ. Com a ideia de abordar o universo das guerras de forma poética, pelo olhar do palhaço, revelando conflitos externos e internos que mobilizam os seres humanos, a Troupp pas d’argent leva seis palhaços ao palco para encenar a tragicomédia ambientada no Holocausto.

Na trama, os artistas prisioneiros se conhecem no vagão de um trem com destino desconhecido, e lutam por comida e contra o frio, transformando de certa forma o espaço em um campo de batalha. Mas entre os conflitos, as brincadeiras tolas, e as palhaçadas que nos tornam crianças novamente preencheu de alegria a noite de mais de 450 pessoas. Com figurino e cenografia simples, porém impecáveis, o espetáculo transportou todos para um vagão/câmara de gás, onde, com expressões faciais e técnicas do teatro gestual e da arte circense, os artistas discutiram dramas humanos, homenageando a lúdica figura do circo, o palhaço.
                                                                                                                                                                      Junior Viegas/25° Inverno Cultural
A trupe aproveitou a oportunidade para conhecer a Maria Fumaça de SJDR, onde tiraram fotos que ilustram várias cenas do espetáculo

A trupe
Troupp Pas d’Argent é uma jovem e premiada companhia teatral do Rio de Janeiro, formada em 2005. Seus componentes - formados em diferentes ramificações da Arte, como o teatro, o circo, o cinema, a música e a literatura, têm, como foco principal, a qualidade artística e a pesquisa de linguagem, buscando fomentar a cultura brasileira e criar um espaço de difusão e intercâmbio artístico e cultural.

A companhia já se apresentou em outros Estados brasileiros, como Ceará, São Paulo, Minas Gerais e Curitiba, e já ganharam mais de 50 prêmios. Também já se apresentaram no Chile e também na Itália, tendo recebido na cidade de Nápoles, pelas mãos da Secretaria de Napolitana di Cultura e da Nuova Accademia di Belle Arti Milano, o Prêmio Europeu Compasso Di Argento – Napoli 2010 de Melhor Espetáculo.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Oxigênio lota Teatro Municipal

                                                                                                                                                                                         Walquíria Domingues
Diálogo complexo, conversa descompromissada com o público, música alta e reflexões

Walquíria Domingues


A fila dobrou a esquina. Nunca vi o Teatro Municipal de São João del-Rei tão lotado. O aclamado espetáculo “Oxigênio”, da Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, aconteceu hoje, às 20h, com várias ponderações sobre delicados assuntos da sociedade pós-moderna, dentro da programação do 25° Inverno Cultural. Consumo, terrorismo, amor, essencialidades, racionalidade. Tudo num diálogo entre a Sacha (Patrícia Kamis) e o Sacha (Rodrigo Bolzan), ao mesmo tempo em que estes estabelecem uma conversa descompromissada com o público, investigando o que é essencial na existência.

“Se você pegar uma pá e bater no peito de um homem, na altura dos seus pulmões, as danças param. Os pulmões não dançam mais, o oxigênio não chega". Este crime, passional, dá início à trama do dramaturgo Ivan Viripaev, siberiano de grande destaque no atual teatro russo, que, com o título original “Kislorod”, atraiu imenso público em sua montagem em 2003, em Moscou, e foi encenada em diversos países europeus, além de ter virado filme em 2008. “Oxigênio” ganhou sua versão brasileira em 2010, com direção de Márcio Abreu. 
                                                                                                                                                                                                 Walquíria Domingues
Sacha e Sacha: racionalidade e poesia
A trama e as reflexões

Um homem, acusado pelo assassinato da própria mulher é condenado, juntamente com sua amante, e a partir desse fato se inicia uma discussão poética e polêmica sobre vários aspectos delicados da vida humana, e o que é o "oxigênio" de cada um de nós. Os tecidos sociais, políticos, afetivos, o despojamento crítico e estético, as situações limites e o que é ético, amor, violência, tudo entra em questão no diálogo entre os personagens. 
Toda mulher consome oxigênio, mas nem toda mulher é o oxigênio, e se você se vicia em oxigênio, nada mais adiantará. Em qual país a vida é mais correta? O amor e o sufocamento não são de fato a mesma coisa? Não julgar significa esquecer, ou não olhar. E toda criatura vive a seu favor, e quem usa fone de ouvido, ouve a seu favor. As reflexões esmaecidas dentro da peça nos fazem realmente pensar sobre tudo o que deixamos de lado, tudo o que temos medo de sentir, de apostar, de criticar, de entender.
                                                                                                                                                                        Junior Viegas/25° Inverno Cultural 
A peça da Cia Brasileira de Teatro também foi um sucesso no 25° Inverno Cultural
Para o estudante do curso de Teatro da UFSJ, Douglas Silva Laura, a qualidade das peças que o Inverno Cultural trouxe para a 25ª edição está interessante. “Este espetáculo é atual porque está dentro das discussões que hoje pautam as nossas instituições, de uma maneira mais abrangente. Ele está dando conta de praticar o que teoricamente a gente está na especulação”, diz. “O ato começou e não tinha nem sinal. É uma quebra de paradigmas, na iluminação, no cenário. Essa disposição não muito certinha aposta que nós, como espectadores, como absorvedores da mensagem, conseguimos captar coisas que não precisam ser ditadas, explicadas. Você pode criticar deus, pontuar o amor de forma diferente, e apostar que você vai ser entendido”, afirma o estudante. 

A questão do consumismo também foi muito bem absorvida. Douglas acredita que o capitalismo quer que as pessoas consumam um oxigênio caríssimo. “É um mau hábito, e a gente não tem consciência disso”, diz. E na verdade é isso que o espetáculo tenta transmitir como mensagem: o essencial é a consciência.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Interatividade é arte

                                                                                                                                                      Eduardo Lopes/25° Inverno Cultural da UFSJ
Espetáculo de dança interage com o espaço, a arquitetura e as pessoas



Walquíria Domingues

O cotidiano, o tempo que passa sem ninguém se importar. De repente a arte pede para atravessar a rua. A dança brinca na praça, interage com o ambiente. Daí as pessoas saem do transe do dia a dia e param, pra ver o que é possível, param por causa do barulho, para ouvir a música, o som que sai do saxofone no meio da praça. Essa é a arte que inclui e que convida para entrar no espaço. O espectador se torna parte do espetáculo, dança, brinca, assim como a paisagem, o ambiente, a arquitetura. E hoje o Largo São Francisco, e quem passava por ele, acordou para a arte. O grupo mineiro Quik Cia. de Dança, de Nova Lima (MG), apresentou às 16h o espetáculo “Ressonâncias”, no 25° Inverno Cultural da UFSJ.

Criada por Letícia Carneiro e Rodrigo Quik, a peça parte de referenciais que dialogam com a improvisação, estabelecendo junto à platéia conversas envolvendo a dança, a música, o espaço ao redor e a arquitetura, transformando tudo em uma única formação. O objetivo da dança é este,mostrar a transversalidade da arte para refletir o cenário vivo de cada local de apresentação, permitindo aos interlocutores revelarem suas imaginações.

“Eles têm um trabalho de apropriação dos espaços. Selecionamos aqui em São João del-Rei espaços possíveis pra poder fazer o mesmo espetáculo, entre aspas, porque é um novo espetáculo, sempre”, diz Diogo Horta, um dos coordenadores de Artes Cênicas do Inverno Cultural. Ele diz isso por que a cada apresentação o espetáculo ganha a forma do local, o jeito da cidade, a atitude das pessoas. “Trabalhamos nessa linguagem do improviso, junto com o público. Então cada espetáculo é de um jeito”, explica Letícia Carneiro.

                                                                                                                                                  Eduardo Lopes/25° Inverno Cultural da UFSJ
Espectadores se tornam atores
O propósito de dialogar com as realidades locais fez com que o público ficasse totalmente envolvido com o espetáculo, e as improvisações foram tão harmônicas que pareciam parte integrante original da dança-espetáculo. A são-joanense Aparecida Maria dos Santos, aposentada, 75 anos, diz que é a primeira vez que participa de algo do Inverno Cultural. “Adorei não só assistir, mas também de participar. Eles me puxaram lá para o meio, eu adorei”, conta. Ela acha que o que falta na arte é fazer com que todos participem da forma como aconteceu durante o espetáculo.

“A ideia do Kairós a gente tem que puxar para o nosso cotidiano de alguma maneira, parar pra ver uma palmeira, parar pra ver a beleza da cidade”, diz Letícia Carneiro, estabelecendo uma relação com o tema do Inverno Cultural. As pessoas passam sempre pelo mesmo lugar e acaba banalizando o monumento, o espaço, o caminho. A proposta, bem realizada, no Largo São Francisco, foi essa. “Criamos sentindo nessa ocupação de espaço, pra esse contexto, pra essa cidade, pra esse patrimônio. Cada espetáculo é uma experiência nova”, afirma. O espetáculo realmente mostra que é possível parar um pouco e sentir o caminho por onde se passa todo dia, aproveitar de fato o lugar cotidiano.

domingo, 15 de julho de 2012

Exposição traz imagens que congelam os tempos possíveis

                                                                                                                                                                             Leandro Nunes/25° Inverno Cultural
Fotógrafos expõem no Centro Cultural Bar do Carioca e ônibus coletivos municipais

Walquíria Domingues

A exposição rotativa, itinerante e interativa de ensaios fotográficos do curso de Comunicação Social – Jornalismo da UFSJ, juntamente com o fotógrafo Paulo Filho, foi aberta hoje no Espaço Cultural Bar do Carioca. Os ensaios fotográficos, com temas da vida urbana e congelamento de cenas como forma de reflexão sobre os tempos possíveis de Kairós (tema do 25° Inverno Cultural), levaram a público um pouco do olhar dos jovens fotógrafos do curso de Jornalismo, e de Paulo Filho, que descobriu a fotografia no Inverno Cultural. A exposição fica aberta para visitação até o dia 28 de Julho, de 11 às 18 horas. 

Com a supervisão da fotógrafa e professora do curso de Comunicação Social-Jornalismo, Kátia Lombardi, quatro alunos do curso tiveram a oportunidade de expor seu trabalho, já bastante profissional e apurado. André Neves P. Azevedo e Thiago Morandi, os curadores, Carol Argamim Gouvêa e Ruzza Lage exporam fotografias de personagens urbanos, uns conhecidos, outros nem tanto, ao lado de Paulo Filho, fotógrafo são-joanense que se apaixonou pela fotografia em uma oficina do Inverno Cultural, há alguns anos. 

                                                                                                  Leandro Nunes/25° Inverno Cultural
Exposição atingirá um público que não frequenta o IC
Além do Bar do Carioca, a exposição irá para dentro dos ônibus coletivos municipais. “Pensamos em atingir outro público, que é quem geralmente não vai pro Inverno Cultural. O cara que senta aqui no Bar do Carioca, ou o trabalhador que pega o ônibus todo dia, que não vai para os eventos, terá a oportunidade de ‘ir a uma exposição’”, afirma Thiago Morandi. Ele explica que, na correria do dia a dia, as pessoas fogem do olhar apurado e sensível, e a exposição tentou explicitar aqueles momentos que são despercebidos. “A galera teve uma sensibilidade muito grande pra fazer as fotos”, elogia Mariana Ferreira, estudante do 5° período de Jornalismo, que veio prestigiar a exposição dos colegas.

A exposição utiliza o QR Code, um código de barras em 2D que pode ser escaneado pela maioria dos aparelhos celulares que têm câmera fotográfica. Esse código, após a decodificação, passa a ser um trecho de texto e/ou um link que irá redirecionar o acesso ao conteúdo publicado em algum site. “Assim tem como as pessoas conhecerem mais o nosso trabalho”, diz Thiago Morandi.

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