sábado, 28 de abril de 2012

Time-lapse é tema de matéria no Gazeta de SJDR

O primeiro curta feio em Time-lapse (técnica em que cada frame de filme é tomado a uma velocidade muito mais lenta do que aquela em que o filme será reproduzido, e, quando visto a uma velocidade normal, o tempo parece correr mais depressa e assim parece saltar), foi tema da matéria "Semana Santa em São João del-Rei é tema de time-lapse", da edição deste sábado, do periódico semanal Gazeta de São João del-Rei.

O curta, chamado Tempo de Fé, retrata a Semana Santa  em São João del-Rei, reconhecida como uma das mais tradicionais do mundo. O vídeo que conta com direção de Thiago Morandi, co-direção de André N. P. Azevedo foi filmado durante 5 dias da Semana Santa deste ano.

Confira a matéria na íntegra aqui.
Assista o vídeo aqui.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tempo de Fé

O Observatório da Cultura está preparando muitas novidades voltadas principalmente para o audiovisual. A primeira delas é um curta feito em Time-lapse, técnica em que cada fotograma (frame) de filme é tomado a uma velocidade muito mais lenta do que aquela em que o filme será reproduzido. Quando visto a uma velocidade normal, o tempo parece correr mais depressa e assim parece saltar (lapsing).

O curta chamado Tempo de Fé retrata a Semana Santa  em São João del-Rei, reconhecida como uma das mais tradicionais do mundo. O vídeo que conta com direção de Thiago Morandi, co-direção de André N. P. Azevedo foi filmado durante 5 dias da Semana Santa deste ano.


 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Os doces de Tiradentes

Alzira Agostini Haddad
O Canudinho de Doce de Leite é a especialidade do Chico Doceiro
Walquíria Domingues e Regina Bartolomeu

Lá estava ele com seu tacho de cobre. Nascido na década de 30, hoje com 80 anos, Francisco de Paula Xavier, o Chico Doceiro, é uma das pessoas mais populares da cidade de Tiradentes. Nascido no Bichinho, e passado sua juventude em São Paulo, Chico foi para Tiradentes aos 35 anos, e começou a fazer seus doces. Vendia em seu quintal, onde expunha uma vitrine. Nesta época só vendia o canudinho, mas aós um tempo começou a vender em São João del-Rei, no Bazar do Garoto, em pararias, bares, e também na cidade de Barroso e Dores de Campos.

A fama dos seus doces se espalhou, e Chico até hoje está na labuta, mexendo seu grande tacho, e vendendo em sua residência, em Tiradentes. Com o tempo, o doceiro começou a experimentar novas receitas, e, além do famoso canudinho, também faz doces com frutas da época. “Tenho meu próprio plantio de figo, laranja e limão”, conta Chico.
                                                                             Alzira Agostini Haddad
Chico prepara o doce de figo, de plantio próprio
“O carro chefe é o canudinho, mas sai muito cocada de abóbora, e cocada de laranja”, explica o doceiro, que conta com a ajuda esposa para dar os acabamentos e finalizar os doces. Chico fala que faz tanto doce, que à noite dorme ao lado do fogão de lenha, e costuma colocar o despertador para acordá-lo de tantos em tantos minutos para misturar o doce no tacho. O doce de leite, feito para rechear os canudinhos, precisa de três horas para ser feito. A receita conta somente com 20 litros de leite, 300g de açúcar, e o canudinho, que é feito com a mesma massa de pastel. Em épocas especiais na cidade, ele vende mais de 400 canudinhos por dia.

Chico sempre trabalhou com a ajuda da família, criou seus filhos e construiu sua vida fazendo doces. Seu filho, o Zé do Doce, diz que vai continuar olhando os negócios do pai, mas recentemente montou uma pousada em Tiradentes. Seu pai vai ter um espaço com fogão de lenha, e aos sábados os hóspedes participarão no preparo do doce de leite. Podem até aprender, mas como os doces de Chico, ninguém no mundo conseguirá fazer igual. É impossível ir à Tiradentes e ficar sem comer um. 

Doce herança do Bolota
José de Oliveira de Alcunha, o Bolota, era um cozinheiro apaixonado por doces, mas por ironia do destino, era diabético. Ele então encontrou uma maneira de fazer um doce de leite que desse para ele comer, e a receita ficou famosa. Com 15 litros de leite para apenas 200g de açúcar, e muita paciência para finalizar o doce, que dura em torno de quatro horas e meia, a receita rende 6 potes de 500g, que ficam na geladeira de 15 a 20 dias, e no freezer por 6 meses.

O doce de leite do Bolota é conhecido nacionalmente e é produzido por sua família em Tiradentes, na rua Bias Fortes, 77. Sua filha cuida das vendas, enquanto Dona Célia Campos de Oliveira, esposa de Bolota, aos 70 anos, mexe braço na panela fervente de leite, com uma colher de pau, avental e uma touca na cabeça.
Walquíria Domingues
Delícias de antigamente, feitas por Edna Santos
Delícias de antigamente no trem
Pirulitos de Mel, cocada, pé de moleque, puxa-puxa e quebra-queixo. Estes doces fizeram e fazem parte da infância de muita gente. Eles são caprichosamente feitos por doceiros da cidade de São João del-Rei, como a Edna dos Santos Marcolino, que há 30 anos trabalha com doces. Edna foi a primeira pessoa a se inscrever no projeto Delícias de antigamente, que há mais de 10 anos resgata a arte de fazer e comercializar nas ruas guloseimas caseiras, favorecendo a geração de trabalho, renda e produto turístico via cultura. “Fui a primeira a me inscrever no projeto, e desde então sobrevivo somente da venda dos doces que faço. Antes eu era diarista e fazia doces somente por hobby”, conta Edna.
                                                          Walquíria Domingues
Edna e seus doces à moda antiga 
Doce de leite na palha, beijo quente, broinhas de fubá da roça, fatias de amendoim, amor em pedaços, e as famosas amêndoas são outros exemplos das guloseimas caseiras que um grupo de pessoas recria a cada dia para que as pessoas possam apreciar. Apesar da doce iniciativa, o projeto vem passando por dificuldades, já que não possui nenhum patrocinador e têm sobrevivido da força de vontade seus integrantes.

O projeto, criado em 2000 pelo Núcleo de Assessoria Cultural (NAC), desde 2005, é desenvolvido pela Atitude Cultural. “Abordamos questões como higiene e embalagem. Além disso, também demos uniformes para as pessoas que trabalham no projeto”, explicou a coordenadora Alzira Agostini Haddad. Edna dos Santos conta que ficou mais conhecida e suas vendas aumentaram consideravelmente. Edna chegou a ganhar, em 2009, título e prêmio concedidos pelo Ministério da Cultura (MinC), no Prêmio Culturas Populares.
Hoje ela também vende suas guloseimas no trajeto da Maria Fumaça, que sai de São João del-Rei e vai até Tiradentes, retornando para a Rotunda, em São João. “Eu chego 9h30 na Estação, atendo os passageiros no embarque, que sai 10h. Faço isso todos os dias, até a tarde, nas terças, sábados, domingos e feriados”, conta Edna. 


segunda-feira, 16 de abril de 2012

Felicidade em dobro

Foto: Arquivo pessoal
As irmãs Paiva, de São João del-Rei, contam sobre sua vida em dobro, na Itália

Walquíria Domingues

Histórias de gêmeos univitelinos são-joanenses


"Três é Demais", “As namoradas do papai”, “Dose Dupla”, “Passaporte para Paris”, “No pique de Nova York”. Para a geração dos anos 80 e 90 estes nomes lembram uma coisa. Aliás, duas: as gêmeas Mary Kate e Ashley Olsen. As fofinhas hoje são empresárias e estilistas, donas de 410 milhões de dólares, e completaram 25 anos em 2011. As gêmeas mais ricas do mundo decidiram terminar sua carreira hollywoodiana, e se dedicaram exclusivamente à moda. Pelo menos fora dos filmes e seriados elas parecem concordar mais uma com a outra, dividindo muito em comum. Mas será que esta é a regra?

Um eterno jogo de comparações. É o que acarreta o sucesso que fazem os gêmeos por serem tão iguais. Isso faz com que suas opiniões sobre muitas coisas sejam diferentes, de propósito, por achar que dois é demais. Por outro lado, existem os que não suportam viver no singular. Será que é bom ou ruim? Eu, que não tenho um clone natural para responder a esta pergunta, arrisco imaginar que deve haver um balanceamento de prós e contras.

Azar duplo
Em algumas tribos do sudeste da África, quando alguém mostra dois dedos em “V”, não está desejando paz e amor, e sim gêmeos, um sinônimo de muito azar para a cultura local. Em algumas tribos indígenas brasileiras os gêmeos também não são bem-vindos. Nossos nativos acham que a gestação múltipla é uma anomalia, um horrível acontecimento na vida animal. Para solucionar o problema duplo, muitas das vezes um dos bebês é morto logo depois que nasce.

No cristianismo também rejeitaram os gêmeos. O Antigo Testamento descreve desavenças entre Esaú e Jacó, ainda no útero da mãe, Rebeca, mulher de Isaac. A história bíblica é uma das mais famosas e inspirou o livro “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, que também narra a rivalidade entre irmãos gêmeos. Os dois personagens do romance, escrito em 1904, discordam na política e na vida em geral, sempre um contra o outro.

No plural
Há de se imaginar que a maioria dos gêmeos tem muita coisa em comum, além de terem sido vizinhos de útero e carregarem as mesmas características físicas por aí. Um caso muito intrigante é o de Jim Lewis e Jim Springer, 40 anos, que foram separados quando tinham poucos meses de idade e adotados por famílias distintas. Ao se reencontrarem, os irmãos descobriram muito mais que características físicas em comum.

Jim e Jim se casaram com uma Betty cada um, e deram aos seus filhos os mesmos nomes de James e Alan. Já não bastasse esta incrível coincidência, tinham também o mesmo carro, um Chevrolet, e da mesma cor: azul. Ambos eram bombeiros e tinham como hobby a marcenaria, além de passarem as férias na mesma praia e de terem um cachorro chamado Toy. Parece mentira, parece pegadinha, mas não é. Os cientistas ficam inquietos, mas ainda não descobriam nenhuma explicação para este tipo de caso, bem bizarro por sinal.

Para o comportamento dos gêmeos, os cientistas podem não ter respostas, mas é confirmado que gêmeos idênticos tendem a ter as mesmas doenças, durante o mesmo período de suas vidas. Foi o que aconteceu com dois frades franciscanos que morreram juntos, no mesmo dia, de parada cardíaca, na Florida (EUA), aos 92 anos. Julian e Adrian Riester nasceram com apenas alguns segundos de diferença, em 1919, e morreram com menos de 12 horas de diferença no dia 1 de junho de 2011. Eles cursaram a escola juntos, viajaram pelos Estados Unidos e entraram juntos na mesma ordem franciscana, e, agora dividem a mesma sepultura, na cidade de St. Petersburg.

Gêmeos assim, univitelinos, que são formados a partir de um único espermatozóide e de um único óvulo, nascem geneticamente quase idênticos, sempre do mesmo sexo. E a partir do momento em que deixam a mesma placenta, ou vitelo (daí o nome), tem histórias incríveis pra contar.

Dolceto i peperoni

“Nossa mãe nos chama de docinha e pimenta”, dizem Kelly Eugênia de Paiva e Kenia Helena de Paiva, 27 anos, via internet. Elas, que tem curso superior de turismo incompleto, e estão cursando estética, foram conhecer a Itália por um tempo. Alugaram um apartamento em Roma e estão vivendo as delícias italianas. “Aqui em Roma, os homens e mulheres param pra ver a gente. É muito engraçado”, conta Kelly, que está feliz por ter ido junto com a irmã. “Outra vez Kenia morou aqui na Itália por três meses, e eu fiquei em São João del-Rei. Eu chorava muito, quase entrei em depressão”, diz.

Kenia é noiva de Roberto há três anos, um italiano que a conheceu aqui no Brasil. Ao perguntar à Kelly se ela também queria um italiano, ela disse que “são belos, mas o destino a Deus pertence”. Isso mostra como as semelhanças vem naturalmente, como a grande paixão das duas por Fórmula 1 e Ferrari, outra bella ragione para estarem na Itália.

Elas contaram que sempre optaram pelas mesmas coisas. “Sempre foi assim, estudamos sempre na mesma classe, e sempre buscando objetivos iguais”, diz Kelly. “Sempre fomos e sempre estamos muito unidas, muito mais que irmãs, é uma união muito perfeita”. Como vantagem de ser gêmeas, elas disseram que ganham vários descontos em lojas, além da amizade e da companhia que têm. Mas, como desvantagens, existem aqueles problemas mais comuns, como as pessoas que sempre as confundem. “Quando trabalhávamos, os amigos sempre cumprimentavam ou abraçavam a irmã errada. Mas sempre deixamos pra lá, pra pessoa não ficar sem graça”, conta Kelly.

Murilo e Miguel já se emprestaram sua CNH
As duas loirinhas, que lembram muito as irmãs Olsen, citadas no início da matéria, e que por sinal sempre assistiram seus filmes e as acham lindas, nunca curtiram trocar de lugar uma com a outra. “Mas fica um segredinho: ficante já trocamos. Tínhamos 15 anos, e estávamos em uma festinha. Kenia não queria mais o garoto, e disse: por favor, Kelly, fica com ele pra mim. Daí eu fiquei”, relembra Kelly. Segundo elas, o menino não percebeu, ou pelo menos não disse nada. Outro caso bem interessante foi quando Kelly precisou de uma ajudinha nos estudos. “Minha irmã sempre foi muito boa em história, e eu precisava de nota. Isso aconteceu na 6ª série. Daí ela fez a prova pra mim”, diz Kelly.

Elas se consideram mais que irmãs, “almas gêmeas”, segundo Kenia. “Nunca nos sentiremos sozinhas”. Elas contam que não conseguem viver uma sem a outra, “mas temos que começar a trabalhar isso, afinal temos 26 anos, e precisamos seguir caminhos diferentes”. Mas até isso acontecer, é melhor curtir a Itália, e viver juntas o que há de melhor em suas “Férias em Roma” (filme das Olsen, 2002).

Amizade verdadeira

Bruno e Lucas Franco de carvalho, 28 anos, hoje estão distantes um do outro. Lucas faz faculdade de Engenharia da Produção, na Unilavras, mas os dois possuem uma parceria em uma empresa de produção de mudas de eucalipto. Mas a distância não é problema. “Gostamos muito de ser gêmeos, e acho que isso ajuda muito no companheirismo, nas opiniões, nas decisões... Sempre estamos juntos, hoje não pelo fato de ele estar estudando em Lavras, mas nos encontramos praticamente todo final de semana”, conta Bruno.

A amizade entre os dois irmãos é muito intensa. Bruno diz que sempre tiveram uma relação muito legal, e nunca brigaram sério. “Nossa relação sempre foi muito legal. Nunca tivemos uma briga feia. Sempre fomos muito unidos. Eu acho que toda criança precisa de amiguinhos para poder se desenvolver melhor, e acaba uma copiando coisas das outras. Eu nasci e cresci com um”, afirma.

Na adolescência dos irmãos Franco, a amizade é o mais marcante também. “Todo mundo precisa de um amigo de verdade, para se espelhar, ouvir opiniões, dar conselhos... Alem de sermos irmãos, temos uma grande amizade, pois passamos toda nossa vida juntos, aprendemos tudo juntos, estudamos sempre juntos. Qualquer pessoa que conhece outra assim há tanto tempo, com certeza são grandes amigas”, diz Bruno, que conta como um se apoiava no outro para dar os primeiros passos da vida. “Eu e o Lucas sabemos tudo um do outro. E sempre procuramos ajudar um ao outro”, diz.

Os dois irmãos se consideram parecidos em tudo. Quando crianças usavam roupas iguais, só diferenciando a cor. “Isso dificulta muito, porque hoje, olhando nossas fotos, ninguém sabe quem era quem”, diz Bruno. Mas a semelhança não ficava só nas vestes. Bruno confessa que ele e Lucas têm personalidades idênticas. “Os gostos, as manias. Já teve casos de comprarmos o mesmo relógio e até uma mesma calça, sem saber que o outro procurava por isso. Além disso, temos carros iguais, só muda a cor”, explica.

Iguais também nos hobbies, os dois fazem escaladas, rapel e trilha de moto juntos. Mas não é tudo tão maravilhoso assim. Confundir as pessoas é a parte mais chata para eles. “Já confundimos muitas pessoas. Têm meninas que até hoje juram que ficaram comigo e na verdade foi com o Lucas. E vice-versa”, conta Bruno, que ainda acrescenta que, a desvantagem dessa vida dupla é que eles acabam sendo muito vistos. “Em qualquer lugar que estamos quase todo mundo conhece. Se não conhece um, conhece o outro. Então acabamos ficando um pouco sem privacidade. Imagina você ter uma pessoa idêntica a você. Se você não sai e o outro sai, pra quem não te conhece, você estava ali, mais uma vez. Entendeu?”, brinca Bruno Franco.

Opinião própria de uma: própria opinião da outra
As irmãs Ana Luiza e Luciana Benevides de Oliveira, 33 anos, dizem não se ver de outra forma. “Se gostamos de ser gêmeas, é melhor dizer que amamos”, garante Ana Luiza, cirurgiã dentista. Luciana é administradora de empresas, e a escolha da profissão é uma das poucas coisas que as fazem diferentes.

A mãe das gêmeas as separou de sala na escola, por achar que isso poderia prejudicar o desenvolvimento de ambas, mas Ana Luiza conta que apesar disso, estavam sempre perto uma da outra. “Quando adolescentes, a cumplicidade aumentou. Agora adultas, mais ainda. Sempre fomos uma pela outra”, diz. Elas adoram ficar conversando pelo telefone, já que hoje não moram na mesma cidade. “Adoro curtir meu filho nos momentos em que não estou trabalhando e ficar horas no telefone com minha irmã. E ela, acredito que também ame ficar no telefone comigo”, brinca Ana Luiza.

A confusão que se faz com as duas, assim como com todos os irmãos gêmeos “é normal na vida da gente”, diz Ana Luiza. “Até meu filho já nos confundiu”. Mas as vantagens são inúmeras. “Podemos ter dois compromissos ao mesmo tempo, por exemplo. Quem mais poderia? Além disso, temos alguém para nos representar quando precisamos estar ausentes, de forma despercebida”, confessa a cirurgiã dentista, que afirma que se existe alguma desvantagem, ainda não foi apresentada a ela.

Apesar de morarem em cidades diferentes hoje, as duas irmãs se falam todos os dias, ou melhor, quase o dia todo. “Precisamos da opinião uma da outra para chegar a conclusões próprias, parece até engraçado, mas é assim mesmo que funciona: aquele dizer "não tem opinião própria", funciona bem com a gente, a opinião própria de uma é a própria opinião da outra”, conta Ana Luiza.

Carteira de motorista que nunca vence
Miguel e Murilo Geraldo de Carvalho, 41 anos, técnicos em contabilidade, há 22 anos dirigem a loja MRose, em São João del-Rei, junto com a irmã mais velha Marília. Apesar de serem oito irmãos, ao todo, Miguel diz que Murilo é o irmão que ele se sente mais ligado. E não é pra menos, os dois são idênticos, e não só na aparência. “Sempre estudamos juntos, desde o primário até a formação em técnicos em contabilidade”, conta Miguel. “Nossos pais nos vestiam iguais, mas a gente não gostava muito não, mas depois de certa idade começamos a exigir não usar mais roupas iguais”, diz.

Em relação aos funcionários na loja, nos primeiros três, quatro meses de trabalho, eles confundem tudo. “E a gente vai deixando, não corrige não, só quando a situação exige, quando um dos dois é o responsável para resolver algo”, conta Miguel. “Acontece muito de estarmos atendendo um cliente, e ele perguntar se eu tinha trocado de roupa, quando eu ou o Murilo entrava. Ou então quando um abaixa e o outro levanta no balcão, faz as pessoas se confundirem, principalmente as crianças, que cutucam a mãe e mostram”, explica Miguel, rindo.

Eles já viveram muitas situações que chegam a ser engraçadas, com as namoradas, o exército e a carteira de motorista. “No início de namoros, acontecia muito de confundir. A namorada do Murilo me confundiu, e eu quase ganhei um beijo”, relembra Miguel. Mas depois, com a convivência, é claro, as pessoas aprendem a diferenciá-los. Quando os dois foram servir o exército, “o Murilo foi num dia e eu no outro. E eles lá me perguntaram por que eu tinha voltado de novo”, conta Miguel. Ele também confessou que, quando sua carteira de motorista vencia, até esperar a sua chegar, ele usava a do Murilo. Eles chegaram a ter até o mesmo carro, duas vezes, da mesma cor, do mesmo modelo, do mesmo ano. “Só mudava a placa”, brinca Murilo, ao lado do irmão.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Duo Jazz homenageia Baden Powell

Foto: Divulgação
Há 4 anos o Festival de Jazz reúne músicos e admiradores na histórica Tiradentes

Walquíria Domingues

A primeira edição do Festival Duo Jazz aconteceu em 2008. Idealizado por Vicente Martins, músico e comerciante residente em Tiradentes, o festival foi criado para suprir a necessidade do período de baixa temporada na cidade, em novembro. “O festival foi idealizado por mim, e como o evento não tem patrocínio nenhum, eu faço tudo”, explica Vicente.

Por ser músico, já dividiu o palco com grandes nomes da nossa MPB, como Ivan Lins, Tunai, Ana Carolina, Claudio Nucci, Pery Ribeiro e Victor Biglione, entre outros, Vicente Martins tem bastante conhecimento e amigos no cenário musical. Então convidou alguns, e com o apoio da Secretaria de Turismo e Cultura e de poucos comerciantes e hoteleiros da cidade, lançou a primeira edição do Duo Jazz. “Foi um sucesso, tivemos um grande público, amantes da música instrumental que além de curtir o evento movimentou a cidade andando de charretes, visitando igrejas, museus e comércio em geral”, conta Vicente.

Em 2012 acontecerá a quinta edição do festival, e a homenagem/tributo será a Baden Powell. Vicente conta que o período será do dia 15 a 20 de novembro, fechando com as comemorações do dia da Consciência Negra. Baden Powell, o homenageado, é considerado um dos maiores violonistas de todos os tempos e um dos compositores mais expressivos da música brasileira. Sua música rompe as barreiras que separam a música erudita da música popular, trazendo consigo as raízes afro-brasileiras e o regional brasileiro.

O Festival foi contemplado com a Lei de Incentivo a Cultura, e o evento vem ganhando grandes proporções, já que os músicos levam notícias do evento para outros lugares. “Este ano teremos o retorno dos músicos Victor Biglioni, Guinga, que o foi o homenageado de 2011, Gilson Peranzeta, Marcel Powell, Miltinho do sexteto do Jô Soares, Márcio Hallack, Dudu Lima, AC, e muitos outros”, afirma Vicente Martins. “E cada vez mais nomes importantes da musica entram no projeto fortalecendo o evento ano após ano”, diz. Além dos shows também acontecerão oficinas de instrumentos e canto, com os músicos que virão para o festival. E neste ano haverá uma novidade. Aconteceráum show de pré-lançamento do tema do Duo Jazz 2012. “Intitulado ‘Fechando Abriu’, o show contará com a presença de Marcel Powell e outros nomes da música instrumental brasileira”. explica Vicente. “Este evento acontecerá no final do mês de abril, fazendo uma chamada direta para o festival de novembro”, conta.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fé e cultura sustentam tradição sacra de SJDR



 Walquíria Domingues
Fotos: André N. P. Azevedo
Mais de dois mil prelados convocados de todo o planeta discutiram e regulamentaram vários temas da Igreja Católica no Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965. Uma nova forma de apresentar e explicar os dogmas católicos ao mundo moderno, mas tentando ser sempre fiel à Tradição, reformou a constituição e a pastoral da igreja, além de sua Liturgia. O Ofício de Trevas, por exemplo, tornou-se a Liturgia das Horas, totalmente remodelado e celebrado na linguagem genuína de cada local, no mundo inteiro. Mas, menos em São João del-Rei.

No período mais intenso do calendário da cidade, a Semana Santa, o Ofício de Trevas ainda é totalmente preservado pela igreja e comunidade local. “O pessoal aqui teve um grande esforço de conservar a tradição. Nunca ouvi nem mesmo na Europa, quando fiz meu mestrado em Roma, se falar ou estudar o Ofício de Trevas”, diz padre Ramiro, que reside há 10 anos em São João del-Rei. Esta tradição é muito antiga, mas infelizmente não se sabe ao certo a data de início de sua prática nas igrejas barrocas são-joanenses. Segundo Jota Dangelo, natural e amante de São João del-Rei, “o Ofício de Trevas é, na realidade, o início de todo um ritual, quase em extinção, das solenidades da Semana Santa”, em sua contribuição no cd Ofício de Trevas I e II. Ele acredita que em São João del-Rei, elas conservam-se intocadas, precedidas de um trabalho árduo coletivo.

Os ritos começam na quarta-feira à noite, continuam na sexta-feira da paixão pela manhã, e no sábado também no período matutino. É estranha a relação dos horários com a expressão “trevas”, mas o padre Ramiro explica que devido às outras celebrações na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar durante a noite, o Ofício de Trevas nos dois últimos dias precisa ocorrer pela manhã. Apesar disso, a denominação Trevas é imbuída num contexto muito ritualístico e rico em simbologias, visto que faz memória às trevas que cobriram a Terra no momento da morte de Cristo.

A organização básica para se preparar o Ofício, parte de despojar toda a igreja de seus ornamentos e posicionar no lado direito do altar o Tenebrário, um candelabro triangular com 15 velas. À medida que as orações vão sendo rezadas e cantadas, apagam-se sucessivamente 14 velas. A vela da ponta, a 15ª, representa Cristo, e as outras, os onze apóstolos e as três Marias. Segundo vários autores medievais, apagar uma vela após cada salmo significava o abandono de Jesus por seus seguidores, principalmente no horto. Ao canto da antífona final, a vela acesa que ficou no vértice do triângulo e que simboliza Jesus, a luz que ilumina os homens, é retirada e apoiada sobre o ângulo do altar.

Nestes três dias que antecedem o Domingo da Ressurreição, o ofício rezado solenemente se compõe de salmos, leituras bíblicas, antífonas, responsórios, trechos de autorias papais, lamentações e lições, tudo em latim, como há séculos. Os fieis acompanham a celebração através de um livro, editado pelo Monsenhor Paiva, antigo pároco do Pilar, com todas as orações em latim, acompanhadas de suas traduções. Parte ainda das rezas, como os salmos e as lamentações, são cantadas em canto gregoriano, pela Associação dos Coroinhas de São João Bosco da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, e outras em música polifônica (coro e orquestra).

Apesar de o ofício ser uma cerimônia muito estática, como afirma o Padre Ramiro, a parte musical é o que mais encanta e enche a igreja de fieis, e também de admiradores de música sacra. A bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos, encarregada por toda a Semana Santa da cidade e pela polifonia musical do Ofício de Trevas, desce o coro da igreja do Pilar e desenvolve sua arte no meio das pessoas, juntamente com o coral, “para ter uma sintonia maior com o altar e o povo”, explica padre Ramiro. Não foi sem fundamento que no século XIX a cidade recebeu o cognome de Terra da Música.

As melodias especialmente criadas para o Ofício, de autoria do grande compositor são-joanense Padre José Maria Xavier, datadas de 1871, e executadas pela primeira vez na Semana Santa em 1872, foram tomando o lugar das obras que anteriormente se usavam nas celebrações do Ofício. Elas foram paulatinamente substituídas e arquivadas e a obra do Padre Mestre se firmou como insubstituível. O Maestro Marcelo Ramos, que fez um grande trabalho gravando dois CDs com a obra do Ofício de Trevas, com a parceria do Coral Lírico Palácio das Artes e da Orquestra Sinfônica, relembra que sempre ouviu o Ofício. “Desde criança e na adolescência, comecei a participar da celebração como coroinha na Catedral do Pilar. Todos nós que vivíamos esta música uma vez por ano, tínhamos a certeza de que era uma obra de qualidade”, conta.

As matinas e laudes (manhãs e louvores), como também é conhecido o Ofício, encanta todas as gerações, e as pessoas, mescladas por idosos, jovens e crianças, chegam horas antes “para guardar lugar, mas mesmo assim, muitas pessoas ficam em pé”, diz padre Ramiro. O jovem são-joanense Paulo Souza, administrador do Instituto Brasileiro de Museus/MinC, que hoje reside em Brasília, em entrevista pela internet se diz um apaixonado pela cidade de São João e pelas suas tradições religiosas, em especial o Ofício de Trevas. “Falar da Semana Santa em São João del-Rei me encanta, em especial o Ofício de Trevas. Imponente pela beleza e suavidade, enriquecido com a belíssima e bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos e com o canto gregoriano dos coroinhas, é muito intrigante quando ao final da celebração, apagam-se as luzes da Catedral e o povo bate os pés, uma reverência às trevas da morte e do sepulcro de Cristo. Emociona!", diz.

A singularidade, não só da celebração do Ofício de Trevas, como também de toda a Semana Santa são-joanense é um exemplo de perseverança e amor pela cultura local. “Uma atividade frenética domina uma centena de colaboradores sem qualquer remuneração. É a fé que nos move? A todos? Não importa. O ritual permanece vivo”, reflete Jota Dangelo.
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