segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cia de Inventos: arte e imaginação no teatro de bonecos

   Arquivo Cia de Inventos
A imaginação dá vida aos bonecos de Bernardo e Renata, na pacata cidade de Tiradentes



Diego Meneses

Marionete. Boneco de madeira criado na forma de animais, pessoas ou objetos, manipulados por alguém - marionetista - através de linhas e cordas que, quando tensionadas de forma coordenada permitem o movimento fluído do fantoche. E dessa ação ritmada surgem histórias, contos, maravilhando a plateia em um universo totalmente novo e cativante.

E é lidando com o imaginário das pessoas através de seu teatro de bonecos que a Companhia de Inventos, organizada pelo casal Bernardo [nome completo e idade], o "Nado", e Renata [nome completo e idade], apresenta a arte teatral criada em sua oficina na charmosa cidade de Tiradentes para o Brasil inteiro, de aldeias indígenas aos salões de classe A. Levam mais que isso: o trabalho é carregado das principais qualidades do casal, simpatia cativante, hospitalidade e bom humor que parece não terminar nunca (e com uma vista maravilhosa da Serra São José, pois sua residência fica não muito longe do sopé do cartão postal tiradentino), transmitindo muita paz e diversão para todas as idades.

Primórdios 
Nado e Renata são de Belo Horizonte, e sempre estiveram no meio das Artes em suas mais variadas vertentes. Ele começou a fazer Artes Plásticas na escola Guignard, mas não chegou a terminar. Ela é formada em Belas Artes pela UFMG. Casaram-se em 1989, e vieram para Tiradentes tanto porque gostavam do clima hospitaleiro e calmo da cidade quanto pela relação familiar e afetiva que aqui tinham. Ambos sempre tiveram uma ligação intensa com a música e com as artes plásticas e surgiria aí o cenário perfeito para a criação da Companhia de Inventos. "O teatro de bonecos foi por acaso, mesmo que sempre estivemos ligados às artes. Tenho 30 anos de experiência com bonecos, e desses 22 com o Nado junto com a Companhia", conta Renata.

A criatividade como expressão
 
Em um cômodo separado de sua casa é onde a criação dos bonecos acontece, uma oficina onde as ideias e as inspirações se misturam, criam forma e dão origem ao espetáculo. Pedaços de madeira viram corpos, uma máquina de costura cria o vestuário, e aos poucos as peças soltas entre si são unidas, criando aquele que poderia ser o protagonista da próxima peça.

O processo de criação e montagem de uma marionete é completamente artesanal, e o resultado final depende do tempo disponível para criação. "Para uma encomenda, por exemplo, posso fazer uma peça para daqui a uma semana ou 15 dias. Mas sem dúvida, o resultado final de duas semanas fica muito superior ao de apenas sete", diz Bernardo.

Arquivo Cia de Inventos
Bernardo e seu "filho" Hilário
"As inspirações para criação de um boneco ou peça vão surgindo de forma aleatória", comenta Nado. "A música é uma das principais fontes, mas as ideias podem vir a surgir de qualquer lugar". Por exemplo, "O Santo Seu Hilário" é uma peça de cunho histórico, criada a partir dos relatos do explorador e naturalista francês August Saint'Hilaire, que atravessou o Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais (Estado que gostara tanto que visitou três vezes), Goiás, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Apesar de todas as dificuldades que encontrou em sua penosa viagem pelo Brasil do século XIX, era sempre movido pela curiosidade e desejo de conhecer mais sobre essa terra, escrevendo livros e depoimentos sobre o que encontrava durante todo o processo. "O desafio dessa peça foi fazer com que a larga obra de August de Saint-Hileire se resumisse em alguns minutos de peça", afirma Bernardo.

E foi da apresentação da Escola Britânica, escola de elite para a classe alta de São Paulo, que surgiu outra das peças mais famosas da Companhia, " O Construtor do Imaginário". Durante um workshop, os alunos da escola deveriam criar, a partir de peças avulsas de bonecos, outros para uma apresentação. As micro-histórias e os personagens criados por eles fizeram tanto sucesso que se tornaram o conceito do Construtor.

Para outro boneco que ainda não foi encerrado, a ideia veio a partir de uma notícia que Bernardo viu na TV. A polícia prendera várias pessoas dentro de um caminhão baú para serem levadas a delegacia por insubordinação, em algum outro lugar do mundo, mas ao abrir a caçamba, chegando ao destino, as pessoas haviam morrido asfixiadas. O triste fato foi a semente para uma criação inusitada: um boneco, cercado, como se estivesse preso em uma caixa e que quando manipulado constantemente soca e esperneia contra as paredes de sua clausura. No silêncio da oficina, as batidas do homenzinho de madeira tentando sair são, no mínimo, angustiantes e claustrofóbicas para o espectador.

Infelizmente não há como levar todo esse material para frente nem desenvolver novas peças sem incentivo. E esta é a principal dificuldade para se levar uma peça adiante: a burocracia. É muito dispendioso desenvolver uma peça e viajar para longe com todo o material, sendo que os principais recursos que a Companhia tem para continuar seu trabalho são os apoios e patrocínios, que vem tanto da Lei de Incentivo a Cultura, como também de empresas particulares. E essa mesma burocracia, uma constante que atinge não só o casal como também vários outros artistas nas mais variadas áreas, torna o processo lento e difícil. "Muitas vezes o projeto é aprovado, mas a capitalização de recursos não conclui ou fica com requisitos difíceis de serem cumpridos. É muito comum sofrermos imprevistos", comenta Bernardo.

Público encantado e satisfeito
Apesar de todas as dificuldades, as peças da Companhia têm um tom neutro para todas as idades. "Nossas peças são feitas para qualquer tipo de público, não só para crianças, como algumas pessoas pensam", explica Renata. "O público que assiste nosso trabalho tem as mais variadas idades e classes sociais; demos oficinas para crianças de classe alta, que tem de tudo e viajam para o exterior como se fosse a coisa mais fácil do mundo, assim como para meninos e meninas no sertão nordestino que quase não tem o que comer", desabafa Nado.

"Uma vez, durante uma apresentação no Piauí, na sombra de um cajueiro, apresentamos nossa peça “O Construtor do Imaginário”. Logo após a apresentação, uma menina de uns cinco anos levantou-se da plateia, veio até a marionete e lhe deu um longo beijo no rosto. Vimos ali uma inocência sem igual, a simpatia e afeição que o boneco despertou naquela garotinha, uma coisa que não dá pra explicar", Renata conta, com brilho nos olhos. "E os adultos são como crianças, chegam sérios, mas logo ficam encantados e voltam, durante a peça, a serem crianças de novo. Os espectadores adultos são tão curiosos quanto as crianças, e ver ali, pessoalmente, o teatro funcionando é muito diferente de ter uma noção apenas pela TV ou por uma foto", fala Nado. É a linguagem do movimento em ação, constante e uníssona, capaz de atingir qualquer espectador independente de sua realidade.
Arquivo Cia de Inventos
Imaginação e movimento: pura arte

A Companhia também realiza diversas oficinas de criação e manipulação de bonecos e teatro de sombras, e a partir delas criam pequenos espetáculos. Um exemplo disso são as oficinas que foram feitas no APAE de Tiradentes. "As crianças de lá são tão inventivas quanto crianças ditas normais", Renata comenta. "Embora tenham lá suas dificuldades, conseguem montar seus próprios bonecos, e depois fizeram uma apresentação de final de ano com eles para pais e funcionários do local. Foi muito lindo", diz, sorridente.

Seguindo o caminho dos pais, os filhos do casal, Miguel, de 14 anos e André, de nove, também participam ativamente do processo de criação, ensaio e até de seu próprio espetáculo de manipulação. Nas criações dos pais, contribuem, palpitam. E para os pais, são fontes de inspiração sempre. "Contribuem muito. É outro mundo", diz Renata. Eles tinham a própria peça, Pedroso e Max, mas foram crescendo e seu interesse se desvirtuou um pouco. "A peça era linda, mas eles não querem apresentá-la mais", explica.

O velho e o novo de mãos dadas
De forma alguma a tecnologia interfere de forma negativa na técnica teatral, tão antiga quanto a manipulação de bonecos. Na verdade, os tempos se juntam em um só, e formam a combinação perfeita de imersão, auxiliando um ao outro no despertar dos sentidos. "Ver uma peça de teatro ao vivo é bem diferente de vê-la pelo Youtube", comenta Nado. "O recurso multimídia apenas faz parte de um todo, e essa convergência cria o clima perfeito para o espetáculo. O “Santo Seu Hilário”, por exemplo, foi o primeiro a ter uma criação musical específica para ele. Os outros, usamos apenas músicas editadas, que são mais que suficientes", comenta.

Criação das peças e o sucesso consolidado
"Tínhamos uma pousada aqui em Tiradentes. Mas o ritmo das peças crescera tanto que tivemos que passá-la para frente e nos dedicar somente ao teatro de bonecos", releva Nado. Para o fim de 2012, vão se apresentar em Tiradentes: aos sábados, às 18 horas na Pousada Três Portas (Rua Direita, 280 – Centro Histórico), a confirmar, e em Belo Horizonte, nos dias 10 e 11 de novembro, no teatro Izabela Hendrix, às 4 da tarde, com entrada franca.

E a agenda cheia de nada prejudica a família. Unidos pela arte, Bernardo e Renata viajam juntos quando as apresentações são em locais próximos, e em lugares distantes ele vai sozinho. Os filhos também vão, mas nas mesmas condições que Renata, pois ainda estudam e às vezes a viagem leva vários dias.

Para saber mais: www.companhiadeinventos.blogspot.com 

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