segunda-feira, 30 de julho de 2012

Kairós, tempo possível para arte e cultura

                                                                                                                                                                                  Junior Viegas/25°Inverno Cultural
Cortejo evoca Kairós, a cultura, a arte e o povo de São João del-Rei

Walquíria Domingues

Depois de promover 120 atrações envolvendo os mais diversos campos da arte e cultura, o 25º Inverno Cultural, maior programa de extensão da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que começou com um alegre cortejo pela cidade no dia 14 de Julho, despediu-se na noite do dia 28. As duas semanas que rechearam o cardápio cultural da cidade contaram com grandes nomes nacionais e internacionais de sete grandes áreas: Música, Literatura, Arte-Educação, Artes Cênicas, Artes Visuais, Artes Plásticas e Especiais. O festival também contou com 68 oficinas, grandes shows e novidades na programação.

O tema do festival foi bem oportuno. “Kairós, um tempo possível” remete a uma divindade grega, que representa o tempo propício, oportuno, ou o tempo de Deus. “Este tema homenageia o Festival de Inverno em si e também a UFSJ e o próprio efeito dessa efeméride na nossa história”, conta o ex-Reitor da UFSJ, Helvécio Reis. Kairós é filho de Kronos, e é um tempo que não é medido cronologicamente.

É um tempo que permite que o home seja, no sentido pleno do termo, segundo o Coordenador Geral do 25° Inverno Cultural e Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários Professor Marcos Vieira Silva. “Somos todos envolvidos por uma condição de tempo que nos cobra respostas imediatas, não nos permitindo um tempo para reflexão”, diz. O tema também mostra que os 25 anos da UFSJ e do festival não podem ser medidos cronologicamente, mas sim de forma reflexiva, proveitosa e possível.

Oficinas, shows, exposições, intervenções fotográficas, noite de poesia, espetáculos teatrais e de dança, corais, recitais, concertos. Com um orçamento que beirou 1,5 milhão de reais, segundo o ex-reitor Helvécio Reis, três vezes mais que há oito anos, o Inverno Cultural ganhou uma dimensão e uma credibilidade muito grandes.

Atrações, Colóquios e Mostras 
Algumas coisas na programação foram novidade. O Colóquio Interdisciplinar Tempos Possíveis e a I Mostra Ensaios de Arte e Cultura, levantaram e debateram questões importantes acerca do tempo, da arte e da cultura. E a Mostra Kairós de Audiovisual deu espaço para produções audiovisuais tanto de conceituados cinegrafistas, quanto dos que estão começando agora. Mais de dez vídeos ganharam projeção aberta ao público.

                                                                                                                                                                     Leandro Nunes/25°Inverno Cultural
Mostras e colóquios: exposição de pensamento, e não só de arte

Os destaques foram para dois curtas. O “Tempo de Fé” (2012, 7’), de direção de Thiago Morandi e co-direção de André N. P. Azevedo, foi realizado por um grupo de estudantes de jornalismo da UFSJ e de fotógrafos de SJDR, durante a Semana Santa de 2012. O filme foi feito com a técnica de Time-Lapse, uma sequência de imagens em alta velocidade. O trabalho durou cinco dias e foram captados aproximadamente 120GB de arquivos fotográficos.

O curta “Deus Esteja (2011, 30’), de direção de Mariana Fernandes, foi filmado na zona rural de Resende Costa (MG) e registra manifestações culturais do interior de Minas Gerais, acompanhando a devoção e a simplicidade de foliões, religiosos e violeiros. “O filme é uma realização independente, mas contei com o apoio do IRIS (Instituto Rio Santo Antônio; ONG de Resende Costa) na produção local, cuja parceria foi fundamental para realizar o trabalho. E, falando de parceria, o Inverno Cultural é um grande aliado do documentarista independente, pois abre espaço para exibir as produções regionais, na maioria das vezes caseiras”, diz Mariana Fernandes. “O evento possibilita visibilidade para o profissional que está iniciando sua carreira e experimentando novas linguagens. Ao mesmo tempo, a programação do evento exibe ao público as histórias da cidade e da região, valorizando a nossa cultura e tradições populares”.

O Colóquio Interdisciplinar Tempos Possíveis trouxe reflexões acerca da temática do tempo. Mesas redondas debateram duas temporalidades: entre o tempo histórico e o contemporâneo, e as permanências e efemeridades. Participaram convidados de diferentes campos do conhecimento e instituições. Três palestras também trouxeram para debate outros temas atuais, como as mídias sociais, o cinema brasileiro e os diálogos entre a poesia e as artes visuais.

Já a I Mostra Ensaios de Arte e Cultura foi uma espécie de oficina-evento, de caráter teórico-transdiciplinar, e promoveu 11 encontros, com profissionais do cenário artístico-cultural em âmbitos nacional e internacional. Foram abordados a arte e o ensino nas universidades, o jornalismo e crítica cultural, design gráfico e poesia visual, a acessibilidade em espaços culturais, a fotografia na arte contemporânea, a arte e tecnologia, dentre outros.

Lançamentos de livros
Nesta edição do festival foram lançados 18 livros. Três merecem destaque, tanto por serem de autores da cidade e região, quanto por retratarem um cenário também regional. “Causos em Crônicas de Humor”, de José Antônio Oliveira de Resende e Ramiro José Gregório, reúne contos e crônicas estruturadas em torno do cotidiano e do humor, dos Encontros Culturais realizados semestralmente no Memorial Cardeal Dom Lucas Moreira Neves. “É disso que o torcedor gosta”, de Rodrigo de Castro Resende, conta a história das transmissões radiofônicas de futebol em SJDR, a partir de depoimentos como o do pioneiro Antônio Fraga. Por último, “Impasses e perspectivas da Imprensa em Minas Gerais”, de organização de Guilherme Rezende, reúne as primeiras pesquisas na área de jornalismo político, regional, do curso de Jornalismo da UFSJ. 
                                                   Leandro Nunes/25°Inverno Cultural
Lançamentos e autógrafos no festival
Grandes shows
O mais esperado do festival, como sempre, é a programação dos shows. A 25ª edição trouxe para o Palco Kairós a sambista Leci Brandão, o grupo musical Mawaca, Jorge Aragão (em Barroso) e, talvez, o mais esperado, Pato Fu, com participação especial do grupo Giramundo. A novidade este ano foi o local de realização dos shows. Devido à lei municipal que proíbe alguns eventos nas principais ruas da cidade, o Palco Kairós foi montado na Av. Leite de Castro, ao lado do Posto Viannini.

Em entrevista à Revista VIVA, Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, disse que São João del-Rei é uma cidade muito acolhedora. “Já estivemos em São João Del Rei em outras oportunidades, seja como artistas ou turistas. É um lugar muito acolhedor, com um público muito interessado em conhecer novas propostas”, disse. Ela explicou que o novo álbum da banda, “Música de Brinquedo”, é um trabalho para todas as idades. “Depois que fomos pais, percebemos que às vezes algo que é muito direcionado a só um tipo de público, acaba ficando enfadonho pro outro. Tentamos fazer algo híbrido que pudesse ser desfrutado por todo mundo”.

No palco, além dos integrantes do Pato Fu, também havia personagens infantis, do grupo Giramundo. “O Giramundo é nosso parceiro há muito tempo, desde o primeiro disco. Já tinham participado de shows antes, mas nunca de um jeito integral. Eles são incríveis e juntamos as duas linguagens num mesmo espetáculo: bonecos e música”, explicou Fernanda Takai.
                                                                                                                                                                      Leandro Nunes/25°Inverno Cultural
Pato Fu, Giramundo e um tempo possível para todas as idades


Ao perguntar por que “Os Muppets” foram inspiração do novo trabalho, Fernanda diz que eles têm a mágica de serem queridos por crianças e adultos. “Só que a faísca criativa foi mesmo um disco da turma do Snoopy cantando Beatles com instrumentos de brinquedo. Compramos esse disco em 1995 e ficamos com essa ideia rodando na cabeça até 2009, quando começamos a produzir o nosso álbum”, disse.

Espetáculos e tempos possíveis
O Teatro Municipal de São João del-Rei lotou em todos os espetáculos teatrais, musicais e de dança. O Largo São Francisco e outros locais da cidade também foram palco das atrações. As pessoas sentiam que o momento era de cultura e arte, e que era preciso parar um pouco o tempo, o dia a dia, o cotidiano rotineiro e automático, para sentir, ver, ouvir, pensar.

Uma proposta muito interessante foi a Exposição Rotativa, itinerante e interativa de ensaios fotográficos do curso de Comunicação Social – Jornalismo, juntamente com o fotógrafo Paulo Filho, e as intervenções fotográficas do Estendal, coletivo criado no Rio de Janeiro. A Exposição Rotativa levou imagens que refletiam os tempos possíveis e o cotidiano da cidade e região para bares e para os ônibus coletivos municipais.

“Pensamos em atingir outro público, que é quem geralmente não vai pro Inverno Cultural. O cara que senta aqui no Bar do Carioca, ou o trabalhador que pega o ônibus todo dia, que não vai para os eventos, terá a oportunidade de ‘ir a uma exposição’”, afirma Thiago Morandi, curador da exposição rotativa. Já o grupo Estendal pensa no mesmo: levar para as ruas e praças públicas imagens pensantes ou pensamentos imagéticos.

Os espetáculos teatrais, infantis ou não, fizeram com que a fila para entrada dobrasse a esquina. E, quando feitos na rua, atraíam as pessoas para perto. Ao assistir o espetáculo “Oxigênio”, da Cia Brasileira de Teatro, de Curitiba, o estudante do curso de Teatro da UFSJ, Douglas Silva Laura, disse que a qualidade das peças que o Inverno Cultural trouxe para a 25ª edição está interessante. “Este espetáculo é atual porque está dentro das discussões que hoje pautam as nossas instituições, de uma maneira mais abrangente. Ele está dando conta de praticar o que teoricamente a gente está na especulação”, diz.

A dançarina Letícia Carneiro, do grupo mineiro Quik Cia de dança, que apresentou um espetáculo no Largo São Francisco, aprovou o festival. “A ideia do Kairós a gente tem que puxar para o nosso cotidiano de alguma maneira, parar pra ver uma palmeira, parar pra ver a beleza da cidade”, diz Letícia.

Universidade e comunidade
São João del-Rei nunca esteve tão envolvido com o festival como agora. Vários grupos da comunidade artística local fizeram parte da programação, de alguma forma. O Inverno Cultural fechou com chave de ouro, no dia 28, no Teatro Municipal, com o concerto da Banda são-joanense Theodoro de Faria, que completa em 2012 110 anos. Logo mais, no Palco Kairós, o grupo Mawaca finalizou o festival.

O Coordenador Geral do 25° Inverno Cultural e Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Comunitários Professor Marcos Vieira Silva disse que o festival está cada vez mais abrindo espaço para a comunidade artística local. “Dá muito mais mídia uma atração internacional, mas nós sempre temos atividades voltadas para os artistas locais. Nós temos apresentações de gente daqui, tanto em oficinas quanto em eventos. Temos também oficinas feitas por artistas locais, além de contarmos com atrações da cidade e região”, afirma. “A gente tem feito parceria com grupos locais, não só para o Inverno Cultural. A programação do Centro Cultural da UFSJ, por exemplo, até o final do ano, será composta por artistas locais”, diz Marcos Vieira. Há casos de pessoas que hoje dão oficina, e que já foram alunos de oficinas em edições anteriores, como Paulo Filho, fotógrafo reconhecido que tomou gosto pela fotografia nas oficinas do festival. “Quem participa do Inverno Cultural com certeza é uma pessoa melhor pra sempre, já que cultura e arte fazem parte uma cidadania emancipatória”, acredita.

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