terça-feira, 17 de julho de 2012

Oxigênio lota Teatro Municipal

                                                                                                                                                                                         Walquíria Domingues
Diálogo complexo, conversa descompromissada com o público, música alta e reflexões

Walquíria Domingues


A fila dobrou a esquina. Nunca vi o Teatro Municipal de São João del-Rei tão lotado. O aclamado espetáculo “Oxigênio”, da Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, aconteceu hoje, às 20h, com várias ponderações sobre delicados assuntos da sociedade pós-moderna, dentro da programação do 25° Inverno Cultural. Consumo, terrorismo, amor, essencialidades, racionalidade. Tudo num diálogo entre a Sacha (Patrícia Kamis) e o Sacha (Rodrigo Bolzan), ao mesmo tempo em que estes estabelecem uma conversa descompromissada com o público, investigando o que é essencial na existência.

“Se você pegar uma pá e bater no peito de um homem, na altura dos seus pulmões, as danças param. Os pulmões não dançam mais, o oxigênio não chega". Este crime, passional, dá início à trama do dramaturgo Ivan Viripaev, siberiano de grande destaque no atual teatro russo, que, com o título original “Kislorod”, atraiu imenso público em sua montagem em 2003, em Moscou, e foi encenada em diversos países europeus, além de ter virado filme em 2008. “Oxigênio” ganhou sua versão brasileira em 2010, com direção de Márcio Abreu. 
                                                                                                                                                                                                 Walquíria Domingues
Sacha e Sacha: racionalidade e poesia
A trama e as reflexões

Um homem, acusado pelo assassinato da própria mulher é condenado, juntamente com sua amante, e a partir desse fato se inicia uma discussão poética e polêmica sobre vários aspectos delicados da vida humana, e o que é o "oxigênio" de cada um de nós. Os tecidos sociais, políticos, afetivos, o despojamento crítico e estético, as situações limites e o que é ético, amor, violência, tudo entra em questão no diálogo entre os personagens. 
Toda mulher consome oxigênio, mas nem toda mulher é o oxigênio, e se você se vicia em oxigênio, nada mais adiantará. Em qual país a vida é mais correta? O amor e o sufocamento não são de fato a mesma coisa? Não julgar significa esquecer, ou não olhar. E toda criatura vive a seu favor, e quem usa fone de ouvido, ouve a seu favor. As reflexões esmaecidas dentro da peça nos fazem realmente pensar sobre tudo o que deixamos de lado, tudo o que temos medo de sentir, de apostar, de criticar, de entender.
                                                                                                                                                                        Junior Viegas/25° Inverno Cultural 
A peça da Cia Brasileira de Teatro também foi um sucesso no 25° Inverno Cultural
Para o estudante do curso de Teatro da UFSJ, Douglas Silva Laura, a qualidade das peças que o Inverno Cultural trouxe para a 25ª edição está interessante. “Este espetáculo é atual porque está dentro das discussões que hoje pautam as nossas instituições, de uma maneira mais abrangente. Ele está dando conta de praticar o que teoricamente a gente está na especulação”, diz. “O ato começou e não tinha nem sinal. É uma quebra de paradigmas, na iluminação, no cenário. Essa disposição não muito certinha aposta que nós, como espectadores, como absorvedores da mensagem, conseguimos captar coisas que não precisam ser ditadas, explicadas. Você pode criticar deus, pontuar o amor de forma diferente, e apostar que você vai ser entendido”, afirma o estudante. 

A questão do consumismo também foi muito bem absorvida. Douglas acredita que o capitalismo quer que as pessoas consumam um oxigênio caríssimo. “É um mau hábito, e a gente não tem consciência disso”, diz. E na verdade é isso que o espetáculo tenta transmitir como mensagem: o essencial é a consciência.

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