quarta-feira, 18 de abril de 2012

Os doces de Tiradentes

Alzira Agostini Haddad
O Canudinho de Doce de Leite é a especialidade do Chico Doceiro
Walquíria Domingues e Regina Bartolomeu

Lá estava ele com seu tacho de cobre. Nascido na década de 30, hoje com 80 anos, Francisco de Paula Xavier, o Chico Doceiro, é uma das pessoas mais populares da cidade de Tiradentes. Nascido no Bichinho, e passado sua juventude em São Paulo, Chico foi para Tiradentes aos 35 anos, e começou a fazer seus doces. Vendia em seu quintal, onde expunha uma vitrine. Nesta época só vendia o canudinho, mas aós um tempo começou a vender em São João del-Rei, no Bazar do Garoto, em pararias, bares, e também na cidade de Barroso e Dores de Campos.

A fama dos seus doces se espalhou, e Chico até hoje está na labuta, mexendo seu grande tacho, e vendendo em sua residência, em Tiradentes. Com o tempo, o doceiro começou a experimentar novas receitas, e, além do famoso canudinho, também faz doces com frutas da época. “Tenho meu próprio plantio de figo, laranja e limão”, conta Chico.
                                                                             Alzira Agostini Haddad
Chico prepara o doce de figo, de plantio próprio
“O carro chefe é o canudinho, mas sai muito cocada de abóbora, e cocada de laranja”, explica o doceiro, que conta com a ajuda esposa para dar os acabamentos e finalizar os doces. Chico fala que faz tanto doce, que à noite dorme ao lado do fogão de lenha, e costuma colocar o despertador para acordá-lo de tantos em tantos minutos para misturar o doce no tacho. O doce de leite, feito para rechear os canudinhos, precisa de três horas para ser feito. A receita conta somente com 20 litros de leite, 300g de açúcar, e o canudinho, que é feito com a mesma massa de pastel. Em épocas especiais na cidade, ele vende mais de 400 canudinhos por dia.

Chico sempre trabalhou com a ajuda da família, criou seus filhos e construiu sua vida fazendo doces. Seu filho, o Zé do Doce, diz que vai continuar olhando os negócios do pai, mas recentemente montou uma pousada em Tiradentes. Seu pai vai ter um espaço com fogão de lenha, e aos sábados os hóspedes participarão no preparo do doce de leite. Podem até aprender, mas como os doces de Chico, ninguém no mundo conseguirá fazer igual. É impossível ir à Tiradentes e ficar sem comer um. 

Doce herança do Bolota
José de Oliveira de Alcunha, o Bolota, era um cozinheiro apaixonado por doces, mas por ironia do destino, era diabético. Ele então encontrou uma maneira de fazer um doce de leite que desse para ele comer, e a receita ficou famosa. Com 15 litros de leite para apenas 200g de açúcar, e muita paciência para finalizar o doce, que dura em torno de quatro horas e meia, a receita rende 6 potes de 500g, que ficam na geladeira de 15 a 20 dias, e no freezer por 6 meses.

O doce de leite do Bolota é conhecido nacionalmente e é produzido por sua família em Tiradentes, na rua Bias Fortes, 77. Sua filha cuida das vendas, enquanto Dona Célia Campos de Oliveira, esposa de Bolota, aos 70 anos, mexe braço na panela fervente de leite, com uma colher de pau, avental e uma touca na cabeça.
Walquíria Domingues
Delícias de antigamente, feitas por Edna Santos
Delícias de antigamente no trem
Pirulitos de Mel, cocada, pé de moleque, puxa-puxa e quebra-queixo. Estes doces fizeram e fazem parte da infância de muita gente. Eles são caprichosamente feitos por doceiros da cidade de São João del-Rei, como a Edna dos Santos Marcolino, que há 30 anos trabalha com doces. Edna foi a primeira pessoa a se inscrever no projeto Delícias de antigamente, que há mais de 10 anos resgata a arte de fazer e comercializar nas ruas guloseimas caseiras, favorecendo a geração de trabalho, renda e produto turístico via cultura. “Fui a primeira a me inscrever no projeto, e desde então sobrevivo somente da venda dos doces que faço. Antes eu era diarista e fazia doces somente por hobby”, conta Edna.
                                                          Walquíria Domingues
Edna e seus doces à moda antiga 
Doce de leite na palha, beijo quente, broinhas de fubá da roça, fatias de amendoim, amor em pedaços, e as famosas amêndoas são outros exemplos das guloseimas caseiras que um grupo de pessoas recria a cada dia para que as pessoas possam apreciar. Apesar da doce iniciativa, o projeto vem passando por dificuldades, já que não possui nenhum patrocinador e têm sobrevivido da força de vontade seus integrantes.

O projeto, criado em 2000 pelo Núcleo de Assessoria Cultural (NAC), desde 2005, é desenvolvido pela Atitude Cultural. “Abordamos questões como higiene e embalagem. Além disso, também demos uniformes para as pessoas que trabalham no projeto”, explicou a coordenadora Alzira Agostini Haddad. Edna dos Santos conta que ficou mais conhecida e suas vendas aumentaram consideravelmente. Edna chegou a ganhar, em 2009, título e prêmio concedidos pelo Ministério da Cultura (MinC), no Prêmio Culturas Populares.
Hoje ela também vende suas guloseimas no trajeto da Maria Fumaça, que sai de São João del-Rei e vai até Tiradentes, retornando para a Rotunda, em São João. “Eu chego 9h30 na Estação, atendo os passageiros no embarque, que sai 10h. Faço isso todos os dias, até a tarde, nas terças, sábados, domingos e feriados”, conta Edna. 


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