segunda-feira, 16 de abril de 2012

Felicidade em dobro

Foto: Arquivo pessoal
As irmãs Paiva, de São João del-Rei, contam sobre sua vida em dobro, na Itália

Walquíria Domingues

Histórias de gêmeos univitelinos são-joanenses


"Três é Demais", “As namoradas do papai”, “Dose Dupla”, “Passaporte para Paris”, “No pique de Nova York”. Para a geração dos anos 80 e 90 estes nomes lembram uma coisa. Aliás, duas: as gêmeas Mary Kate e Ashley Olsen. As fofinhas hoje são empresárias e estilistas, donas de 410 milhões de dólares, e completaram 25 anos em 2011. As gêmeas mais ricas do mundo decidiram terminar sua carreira hollywoodiana, e se dedicaram exclusivamente à moda. Pelo menos fora dos filmes e seriados elas parecem concordar mais uma com a outra, dividindo muito em comum. Mas será que esta é a regra?

Um eterno jogo de comparações. É o que acarreta o sucesso que fazem os gêmeos por serem tão iguais. Isso faz com que suas opiniões sobre muitas coisas sejam diferentes, de propósito, por achar que dois é demais. Por outro lado, existem os que não suportam viver no singular. Será que é bom ou ruim? Eu, que não tenho um clone natural para responder a esta pergunta, arrisco imaginar que deve haver um balanceamento de prós e contras.

Azar duplo
Em algumas tribos do sudeste da África, quando alguém mostra dois dedos em “V”, não está desejando paz e amor, e sim gêmeos, um sinônimo de muito azar para a cultura local. Em algumas tribos indígenas brasileiras os gêmeos também não são bem-vindos. Nossos nativos acham que a gestação múltipla é uma anomalia, um horrível acontecimento na vida animal. Para solucionar o problema duplo, muitas das vezes um dos bebês é morto logo depois que nasce.

No cristianismo também rejeitaram os gêmeos. O Antigo Testamento descreve desavenças entre Esaú e Jacó, ainda no útero da mãe, Rebeca, mulher de Isaac. A história bíblica é uma das mais famosas e inspirou o livro “Esaú e Jacó”, de Machado de Assis, que também narra a rivalidade entre irmãos gêmeos. Os dois personagens do romance, escrito em 1904, discordam na política e na vida em geral, sempre um contra o outro.

No plural
Há de se imaginar que a maioria dos gêmeos tem muita coisa em comum, além de terem sido vizinhos de útero e carregarem as mesmas características físicas por aí. Um caso muito intrigante é o de Jim Lewis e Jim Springer, 40 anos, que foram separados quando tinham poucos meses de idade e adotados por famílias distintas. Ao se reencontrarem, os irmãos descobriram muito mais que características físicas em comum.

Jim e Jim se casaram com uma Betty cada um, e deram aos seus filhos os mesmos nomes de James e Alan. Já não bastasse esta incrível coincidência, tinham também o mesmo carro, um Chevrolet, e da mesma cor: azul. Ambos eram bombeiros e tinham como hobby a marcenaria, além de passarem as férias na mesma praia e de terem um cachorro chamado Toy. Parece mentira, parece pegadinha, mas não é. Os cientistas ficam inquietos, mas ainda não descobriam nenhuma explicação para este tipo de caso, bem bizarro por sinal.

Para o comportamento dos gêmeos, os cientistas podem não ter respostas, mas é confirmado que gêmeos idênticos tendem a ter as mesmas doenças, durante o mesmo período de suas vidas. Foi o que aconteceu com dois frades franciscanos que morreram juntos, no mesmo dia, de parada cardíaca, na Florida (EUA), aos 92 anos. Julian e Adrian Riester nasceram com apenas alguns segundos de diferença, em 1919, e morreram com menos de 12 horas de diferença no dia 1 de junho de 2011. Eles cursaram a escola juntos, viajaram pelos Estados Unidos e entraram juntos na mesma ordem franciscana, e, agora dividem a mesma sepultura, na cidade de St. Petersburg.

Gêmeos assim, univitelinos, que são formados a partir de um único espermatozóide e de um único óvulo, nascem geneticamente quase idênticos, sempre do mesmo sexo. E a partir do momento em que deixam a mesma placenta, ou vitelo (daí o nome), tem histórias incríveis pra contar.

Dolceto i peperoni

“Nossa mãe nos chama de docinha e pimenta”, dizem Kelly Eugênia de Paiva e Kenia Helena de Paiva, 27 anos, via internet. Elas, que tem curso superior de turismo incompleto, e estão cursando estética, foram conhecer a Itália por um tempo. Alugaram um apartamento em Roma e estão vivendo as delícias italianas. “Aqui em Roma, os homens e mulheres param pra ver a gente. É muito engraçado”, conta Kelly, que está feliz por ter ido junto com a irmã. “Outra vez Kenia morou aqui na Itália por três meses, e eu fiquei em São João del-Rei. Eu chorava muito, quase entrei em depressão”, diz.

Kenia é noiva de Roberto há três anos, um italiano que a conheceu aqui no Brasil. Ao perguntar à Kelly se ela também queria um italiano, ela disse que “são belos, mas o destino a Deus pertence”. Isso mostra como as semelhanças vem naturalmente, como a grande paixão das duas por Fórmula 1 e Ferrari, outra bella ragione para estarem na Itália.

Elas contaram que sempre optaram pelas mesmas coisas. “Sempre foi assim, estudamos sempre na mesma classe, e sempre buscando objetivos iguais”, diz Kelly. “Sempre fomos e sempre estamos muito unidas, muito mais que irmãs, é uma união muito perfeita”. Como vantagem de ser gêmeas, elas disseram que ganham vários descontos em lojas, além da amizade e da companhia que têm. Mas, como desvantagens, existem aqueles problemas mais comuns, como as pessoas que sempre as confundem. “Quando trabalhávamos, os amigos sempre cumprimentavam ou abraçavam a irmã errada. Mas sempre deixamos pra lá, pra pessoa não ficar sem graça”, conta Kelly.

Murilo e Miguel já se emprestaram sua CNH
As duas loirinhas, que lembram muito as irmãs Olsen, citadas no início da matéria, e que por sinal sempre assistiram seus filmes e as acham lindas, nunca curtiram trocar de lugar uma com a outra. “Mas fica um segredinho: ficante já trocamos. Tínhamos 15 anos, e estávamos em uma festinha. Kenia não queria mais o garoto, e disse: por favor, Kelly, fica com ele pra mim. Daí eu fiquei”, relembra Kelly. Segundo elas, o menino não percebeu, ou pelo menos não disse nada. Outro caso bem interessante foi quando Kelly precisou de uma ajudinha nos estudos. “Minha irmã sempre foi muito boa em história, e eu precisava de nota. Isso aconteceu na 6ª série. Daí ela fez a prova pra mim”, diz Kelly.

Elas se consideram mais que irmãs, “almas gêmeas”, segundo Kenia. “Nunca nos sentiremos sozinhas”. Elas contam que não conseguem viver uma sem a outra, “mas temos que começar a trabalhar isso, afinal temos 26 anos, e precisamos seguir caminhos diferentes”. Mas até isso acontecer, é melhor curtir a Itália, e viver juntas o que há de melhor em suas “Férias em Roma” (filme das Olsen, 2002).

Amizade verdadeira

Bruno e Lucas Franco de carvalho, 28 anos, hoje estão distantes um do outro. Lucas faz faculdade de Engenharia da Produção, na Unilavras, mas os dois possuem uma parceria em uma empresa de produção de mudas de eucalipto. Mas a distância não é problema. “Gostamos muito de ser gêmeos, e acho que isso ajuda muito no companheirismo, nas opiniões, nas decisões... Sempre estamos juntos, hoje não pelo fato de ele estar estudando em Lavras, mas nos encontramos praticamente todo final de semana”, conta Bruno.

A amizade entre os dois irmãos é muito intensa. Bruno diz que sempre tiveram uma relação muito legal, e nunca brigaram sério. “Nossa relação sempre foi muito legal. Nunca tivemos uma briga feia. Sempre fomos muito unidos. Eu acho que toda criança precisa de amiguinhos para poder se desenvolver melhor, e acaba uma copiando coisas das outras. Eu nasci e cresci com um”, afirma.

Na adolescência dos irmãos Franco, a amizade é o mais marcante também. “Todo mundo precisa de um amigo de verdade, para se espelhar, ouvir opiniões, dar conselhos... Alem de sermos irmãos, temos uma grande amizade, pois passamos toda nossa vida juntos, aprendemos tudo juntos, estudamos sempre juntos. Qualquer pessoa que conhece outra assim há tanto tempo, com certeza são grandes amigas”, diz Bruno, que conta como um se apoiava no outro para dar os primeiros passos da vida. “Eu e o Lucas sabemos tudo um do outro. E sempre procuramos ajudar um ao outro”, diz.

Os dois irmãos se consideram parecidos em tudo. Quando crianças usavam roupas iguais, só diferenciando a cor. “Isso dificulta muito, porque hoje, olhando nossas fotos, ninguém sabe quem era quem”, diz Bruno. Mas a semelhança não ficava só nas vestes. Bruno confessa que ele e Lucas têm personalidades idênticas. “Os gostos, as manias. Já teve casos de comprarmos o mesmo relógio e até uma mesma calça, sem saber que o outro procurava por isso. Além disso, temos carros iguais, só muda a cor”, explica.

Iguais também nos hobbies, os dois fazem escaladas, rapel e trilha de moto juntos. Mas não é tudo tão maravilhoso assim. Confundir as pessoas é a parte mais chata para eles. “Já confundimos muitas pessoas. Têm meninas que até hoje juram que ficaram comigo e na verdade foi com o Lucas. E vice-versa”, conta Bruno, que ainda acrescenta que, a desvantagem dessa vida dupla é que eles acabam sendo muito vistos. “Em qualquer lugar que estamos quase todo mundo conhece. Se não conhece um, conhece o outro. Então acabamos ficando um pouco sem privacidade. Imagina você ter uma pessoa idêntica a você. Se você não sai e o outro sai, pra quem não te conhece, você estava ali, mais uma vez. Entendeu?”, brinca Bruno Franco.

Opinião própria de uma: própria opinião da outra
As irmãs Ana Luiza e Luciana Benevides de Oliveira, 33 anos, dizem não se ver de outra forma. “Se gostamos de ser gêmeas, é melhor dizer que amamos”, garante Ana Luiza, cirurgiã dentista. Luciana é administradora de empresas, e a escolha da profissão é uma das poucas coisas que as fazem diferentes.

A mãe das gêmeas as separou de sala na escola, por achar que isso poderia prejudicar o desenvolvimento de ambas, mas Ana Luiza conta que apesar disso, estavam sempre perto uma da outra. “Quando adolescentes, a cumplicidade aumentou. Agora adultas, mais ainda. Sempre fomos uma pela outra”, diz. Elas adoram ficar conversando pelo telefone, já que hoje não moram na mesma cidade. “Adoro curtir meu filho nos momentos em que não estou trabalhando e ficar horas no telefone com minha irmã. E ela, acredito que também ame ficar no telefone comigo”, brinca Ana Luiza.

A confusão que se faz com as duas, assim como com todos os irmãos gêmeos “é normal na vida da gente”, diz Ana Luiza. “Até meu filho já nos confundiu”. Mas as vantagens são inúmeras. “Podemos ter dois compromissos ao mesmo tempo, por exemplo. Quem mais poderia? Além disso, temos alguém para nos representar quando precisamos estar ausentes, de forma despercebida”, confessa a cirurgiã dentista, que afirma que se existe alguma desvantagem, ainda não foi apresentada a ela.

Apesar de morarem em cidades diferentes hoje, as duas irmãs se falam todos os dias, ou melhor, quase o dia todo. “Precisamos da opinião uma da outra para chegar a conclusões próprias, parece até engraçado, mas é assim mesmo que funciona: aquele dizer "não tem opinião própria", funciona bem com a gente, a opinião própria de uma é a própria opinião da outra”, conta Ana Luiza.

Carteira de motorista que nunca vence
Miguel e Murilo Geraldo de Carvalho, 41 anos, técnicos em contabilidade, há 22 anos dirigem a loja MRose, em São João del-Rei, junto com a irmã mais velha Marília. Apesar de serem oito irmãos, ao todo, Miguel diz que Murilo é o irmão que ele se sente mais ligado. E não é pra menos, os dois são idênticos, e não só na aparência. “Sempre estudamos juntos, desde o primário até a formação em técnicos em contabilidade”, conta Miguel. “Nossos pais nos vestiam iguais, mas a gente não gostava muito não, mas depois de certa idade começamos a exigir não usar mais roupas iguais”, diz.

Em relação aos funcionários na loja, nos primeiros três, quatro meses de trabalho, eles confundem tudo. “E a gente vai deixando, não corrige não, só quando a situação exige, quando um dos dois é o responsável para resolver algo”, conta Miguel. “Acontece muito de estarmos atendendo um cliente, e ele perguntar se eu tinha trocado de roupa, quando eu ou o Murilo entrava. Ou então quando um abaixa e o outro levanta no balcão, faz as pessoas se confundirem, principalmente as crianças, que cutucam a mãe e mostram”, explica Miguel, rindo.

Eles já viveram muitas situações que chegam a ser engraçadas, com as namoradas, o exército e a carteira de motorista. “No início de namoros, acontecia muito de confundir. A namorada do Murilo me confundiu, e eu quase ganhei um beijo”, relembra Miguel. Mas depois, com a convivência, é claro, as pessoas aprendem a diferenciá-los. Quando os dois foram servir o exército, “o Murilo foi num dia e eu no outro. E eles lá me perguntaram por que eu tinha voltado de novo”, conta Miguel. Ele também confessou que, quando sua carteira de motorista vencia, até esperar a sua chegar, ele usava a do Murilo. Eles chegaram a ter até o mesmo carro, duas vezes, da mesma cor, do mesmo modelo, do mesmo ano. “Só mudava a placa”, brinca Murilo, ao lado do irmão.

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