sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fé e cultura sustentam tradição sacra de SJDR



 Walquíria Domingues
Fotos: André N. P. Azevedo
Mais de dois mil prelados convocados de todo o planeta discutiram e regulamentaram vários temas da Igreja Católica no Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965. Uma nova forma de apresentar e explicar os dogmas católicos ao mundo moderno, mas tentando ser sempre fiel à Tradição, reformou a constituição e a pastoral da igreja, além de sua Liturgia. O Ofício de Trevas, por exemplo, tornou-se a Liturgia das Horas, totalmente remodelado e celebrado na linguagem genuína de cada local, no mundo inteiro. Mas, menos em São João del-Rei.

No período mais intenso do calendário da cidade, a Semana Santa, o Ofício de Trevas ainda é totalmente preservado pela igreja e comunidade local. “O pessoal aqui teve um grande esforço de conservar a tradição. Nunca ouvi nem mesmo na Europa, quando fiz meu mestrado em Roma, se falar ou estudar o Ofício de Trevas”, diz padre Ramiro, que reside há 10 anos em São João del-Rei. Esta tradição é muito antiga, mas infelizmente não se sabe ao certo a data de início de sua prática nas igrejas barrocas são-joanenses. Segundo Jota Dangelo, natural e amante de São João del-Rei, “o Ofício de Trevas é, na realidade, o início de todo um ritual, quase em extinção, das solenidades da Semana Santa”, em sua contribuição no cd Ofício de Trevas I e II. Ele acredita que em São João del-Rei, elas conservam-se intocadas, precedidas de um trabalho árduo coletivo.

Os ritos começam na quarta-feira à noite, continuam na sexta-feira da paixão pela manhã, e no sábado também no período matutino. É estranha a relação dos horários com a expressão “trevas”, mas o padre Ramiro explica que devido às outras celebrações na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar durante a noite, o Ofício de Trevas nos dois últimos dias precisa ocorrer pela manhã. Apesar disso, a denominação Trevas é imbuída num contexto muito ritualístico e rico em simbologias, visto que faz memória às trevas que cobriram a Terra no momento da morte de Cristo.

A organização básica para se preparar o Ofício, parte de despojar toda a igreja de seus ornamentos e posicionar no lado direito do altar o Tenebrário, um candelabro triangular com 15 velas. À medida que as orações vão sendo rezadas e cantadas, apagam-se sucessivamente 14 velas. A vela da ponta, a 15ª, representa Cristo, e as outras, os onze apóstolos e as três Marias. Segundo vários autores medievais, apagar uma vela após cada salmo significava o abandono de Jesus por seus seguidores, principalmente no horto. Ao canto da antífona final, a vela acesa que ficou no vértice do triângulo e que simboliza Jesus, a luz que ilumina os homens, é retirada e apoiada sobre o ângulo do altar.

Nestes três dias que antecedem o Domingo da Ressurreição, o ofício rezado solenemente se compõe de salmos, leituras bíblicas, antífonas, responsórios, trechos de autorias papais, lamentações e lições, tudo em latim, como há séculos. Os fieis acompanham a celebração através de um livro, editado pelo Monsenhor Paiva, antigo pároco do Pilar, com todas as orações em latim, acompanhadas de suas traduções. Parte ainda das rezas, como os salmos e as lamentações, são cantadas em canto gregoriano, pela Associação dos Coroinhas de São João Bosco da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, e outras em música polifônica (coro e orquestra).

Apesar de o ofício ser uma cerimônia muito estática, como afirma o Padre Ramiro, a parte musical é o que mais encanta e enche a igreja de fieis, e também de admiradores de música sacra. A bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos, encarregada por toda a Semana Santa da cidade e pela polifonia musical do Ofício de Trevas, desce o coro da igreja do Pilar e desenvolve sua arte no meio das pessoas, juntamente com o coral, “para ter uma sintonia maior com o altar e o povo”, explica padre Ramiro. Não foi sem fundamento que no século XIX a cidade recebeu o cognome de Terra da Música.

As melodias especialmente criadas para o Ofício, de autoria do grande compositor são-joanense Padre José Maria Xavier, datadas de 1871, e executadas pela primeira vez na Semana Santa em 1872, foram tomando o lugar das obras que anteriormente se usavam nas celebrações do Ofício. Elas foram paulatinamente substituídas e arquivadas e a obra do Padre Mestre se firmou como insubstituível. O Maestro Marcelo Ramos, que fez um grande trabalho gravando dois CDs com a obra do Ofício de Trevas, com a parceria do Coral Lírico Palácio das Artes e da Orquestra Sinfônica, relembra que sempre ouviu o Ofício. “Desde criança e na adolescência, comecei a participar da celebração como coroinha na Catedral do Pilar. Todos nós que vivíamos esta música uma vez por ano, tínhamos a certeza de que era uma obra de qualidade”, conta.

As matinas e laudes (manhãs e louvores), como também é conhecido o Ofício, encanta todas as gerações, e as pessoas, mescladas por idosos, jovens e crianças, chegam horas antes “para guardar lugar, mas mesmo assim, muitas pessoas ficam em pé”, diz padre Ramiro. O jovem são-joanense Paulo Souza, administrador do Instituto Brasileiro de Museus/MinC, que hoje reside em Brasília, em entrevista pela internet se diz um apaixonado pela cidade de São João e pelas suas tradições religiosas, em especial o Ofício de Trevas. “Falar da Semana Santa em São João del-Rei me encanta, em especial o Ofício de Trevas. Imponente pela beleza e suavidade, enriquecido com a belíssima e bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos e com o canto gregoriano dos coroinhas, é muito intrigante quando ao final da celebração, apagam-se as luzes da Catedral e o povo bate os pés, uma reverência às trevas da morte e do sepulcro de Cristo. Emociona!", diz.

A singularidade, não só da celebração do Ofício de Trevas, como também de toda a Semana Santa são-joanense é um exemplo de perseverança e amor pela cultura local. “Uma atividade frenética domina uma centena de colaboradores sem qualquer remuneração. É a fé que nos move? A todos? Não importa. O ritual permanece vivo”, reflete Jota Dangelo.

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