domingo, 11 de março de 2012

O pintor dos traços e das palavras

Foto: Divulgação
Oscar Araripe, o pintor (e escritor) que deu e dá à Tiradentes o prazer de sua morada
Walquíria Domingues

Oscar Araripe reuniu suas obras e textos num livro de arte publicado pela sua Fundação, narrando sua história e carreira, com valiosas telas, textos autorais e depoimentos críticos de intelectuais renomados do Brasil e exterior.

Há quase 15 anos visitei o estúdio e galeria pessoal de Oscar Araripe, em Tiradentes, com a turma da pré-escola. Eu tinha seis anos e, a pedido do pintor, escolhi desenhar um barquinho. Lembro-me nitidamente do desenho, que hoje simboliza para mim um meio de desbravar o mundo, o conhecimento, e fazer descobertas, sempre. Mal sabia que me tornaria algo que o próprio Araripe já teve a oportunidade de ser: jornalista. O barquinho me levou para o mundo, assim como a arte e a escrita leva grandes nomes, como Oscar, para o horizonte - da vida e das pessoas.

Com 70 anos, Oscar Araripe, que há 18 anos vive em Tiradentes, acaba de publicar um livro de arte que reúne uma seleção de suas obras e textos, narrando o decorrer de sua carreira como estudante - e formado - na Nacional de Direito, como jornalista no Correio da Manhã e no Jornal do Brasil, publicando ensaios e ficções, e por fim (mas que não significa um ponto final) como pintor.

O artbook, lançado nas principais capitais e cidades brasileiras, como Ouro Preto, Tiradentes, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo, também será lançado fora do país. “Estarei expondo em Londres, na grande exposição de pintura e arte, sob os auspícios do Governo Chinês. Vai ser no Museu de Londres - de um a sete de agosto próximo. Vou lançar na ocasião o artbook, durante a exposição das Olimpíadas”, conta, em primeira mão, Oscar Araripe.

Apesar de aceitar expor e lançar seu livro em Londres, Araripe defende que a arte brasileira precisa ser cultuada, exposta e valorizada no Brasil. “Outro dia ouvi um marchand dizer que o ideal seria a arte brasileira no exterior. Não concordo. É claro que se um estrangeiro quiser comprar uma tela minha eu vendo, mas fico com dó, pois o melhor seria vender para os brasileiros ou os que moram no Brasil”, afirma Oscar. “A Pintura é uma arte contextualizada. Isso de arte globalizada é uma besteira e contribui para o processo de colonização cultural e, depois, simultaneamente, econômica do Brasil. Artista bobo é o que faz arte conforme a globalização quer”, acredita.

Com um ótimo projeto editorial, fruto do trabalho do próprio artista com a ajuda de sua esposa, Cidinha Araripe, e de amigos, o livro tem três partes, nas suas 348 páginas. A primeira parte – Uma Cronologia Inacabada – conta os fatos marcantes da vida e da trajetória do artista até ao dias de hoje. As segunda e terceira partes do livro trazem cerca de 330 telas de duas fases importantes da pintura do artista – “Os Pilares”, realizados entre 1986 e 1987 e “As Flores”, iniciada em 2004.

As imagens apresentadas, na maioria das vezes, vêm com fragmentos de textos autorais. Muitas das obras presentes no livro tiveram de ser catalogadas, já que estão espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. “O trabalho foi muito árduo. Mas nossa catalogação está em progresso. Felizmente, ao longo dos anos, temos feito uma catalogação, não como devia ser, mas, pelo menos, conseguimos até agora catalogar cerca de 1.500 obras”, conta Oscar sobre o que deu início ao Projeto Oscar Araripe, que é um site de catalogação de obras. O pintor conta que, se tivessem sido catalogadas todas as suas obras, ele teria cerca “de mais de 3 mil imagens, 1500 páginas de textos, umas mil fotografias e por aí vai, pois temos cartas, e-mails e uma linda memorabilia”, explica.

Mais que uma simples seleção de obras artísticas e textos biográficos, o livro lançado é uma memória da arte e do pensamento do pintor Araripe, que salienta em suas falas a idéia da arte, da vida, e da arte e vida. “Além dos meus teasers, que são textos provocativos sobre a Vida e a Arte, a Arte da Vida e a Vida da Arte, faço várias outras provocações. Uma das mais provocativas é que a arte inventou a vida, todas as vidas”, diz. “Você sabia, por exemplo, que o verdadeiro dinheiro é a pintura? Que as cores sequer existem e que o que existe são as tintas e que é o talento do artista que faz das tintas cores? Que eu não sou ‘artista plástico’, e sim e tão somente pintor?”, fala poeticamente o artista.

Durante toda a conversa percebe-se que Oscar ainda consegue manter os traços do bom escritor, e claro, do bom jornalista, papéis que, apesar da pintura, ainda se mantém vivos dentro de si. “Já fui e continuo sendo algumas coisas. Escritor, por exemplo, pois não separo escritura de pintura. Jornalista eu não pude ser mais, desde que em 1974 publiquei um livro de sucesso sobre a China e que fechou as portas para todos os meus trabalhos, dentro e fora da imprensa. Foi no tempo dos anos de chumbo, que eu prefiro chamar de anos de plutônio, ou melhor, de kriptonita, já que éramos jovens-superhomens lutando contra a ditadura militar”, relembra.

Um comentário:

  1. Quero deixar o meu registro sobre Oscar, pessoa a quem tive o prazer de conhecer e conversar em 2008, no seu Solar de Tiradentes. Um grande artista, intelectual, mas acima de tudo, um gentleman, amável e atencioso. Abraço Hugo Porto,Fortaleza CE

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