quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Paixão por Harleys

Mayra Melo
Com uma vida guiada sobre duas rodas, Guilherme Berg passou a sua paixão para os filhos

Walquíria Domingues

“Quando eu aprendi a andar de moto, meu pai ia na garupa, por que eu não alcançava o chão. Minha paixão por motocicleta vem desde garotinho”, conta Guilherme Berg, são-joanense aposentado que durante toda a vida nunca abandonou a estrada e a Harley Davidson. A paixão pela marca também vem de cedo, afinal, segundo Berg, é um tipo de moto que tem um ótimo desempenho e a facilidade de personalização, duas características das quais ele gosta.

Em sua casa, com uma camisa estampando o frontal de uma Harley, da forma como gosta de se vestir, Guilherme volta ao passado, relembrando histórias e recordando os encontros e as motos, com a presença de dois dos seus quatro filhos. “Fiquei apaixonado pela Harley e desde que eu consegui comprar uma, não tive moto de outra marca”, explica. Quando tinha 18 anos, Berg comprou sua primeira moto, “uma Harley velhinha, que não estava nem funcionando”.

Berg levou a moto para casa numa carroça puxada por burros, e começou a luta para fazê-la funcionar. Adaptou pneu de fusca, bateria de carro e carburador de motor de polpa de barcos. E a moto funcionou. “Era uma moto da década de 40, uma flat head antigona. Ela funcionou e sai com ela. Era uma rua de terra, então na primeira curva que eu fiz, como a embreagem era de pé e eu não estava muito acostumado, me esparramei pelo chão, me ralei todo”, relembra. Mas a verdade é que, apesar do tombo, depois da primeira acelerada, essa Harley guiou Berg por todos os caminhos da sua vida.

Histórias, moto-clubes e grandes encontros
Guilherme é filiado a quatro moto-clubes, o “Águias de Aço”, de Belo Horizonte, que ajudou a fundar em 1980, aos “Vampiros”, de São João del-Rei, criado em 1998, aos “PHD’s” (Proprietários de Harley Davidson), de Blumenau, Santa Catarina, e ao “Wings of Gold”, da Flórida, EUA. “Quando eu vou lá aos Estados Unidos, gosto de passear, e eles me emprestam uma moto, é bem legal. Eu ia muito lá, umas quatro ou cinco vezes por ano, só pra participar de encontros de motos”, fala Berg. 

                                                                                      Mayra Melo
Uma verdadeira cirurgia: sucata ganha vida
Os PHD’s fazem um encontro anual, e neste ano, no dia 5 de agosto, Guilherme foi o homenageado da festa. “Foi uma surpresa muito grande. Quando cheguei à festa tinha uma foto minha do tamanho da parede”, conta. Com relação aos encontros, Berg criou seu próprio encontro de motociclistas, o famoso Encontro de Motos Clássicas de Tiradentes. “A gente se encontrava em Barbacena, num evento de carros antigos, que era tradicional por lá. Daí acabou e o pessoal que ia de moto pediu que eu fizesse um evento por aqui”, relembra.

Em 1991 Berg e seus amigos fizeram uma reunião, e todos gostaram da ideia de se fazer um encontro de Harley Davidson em Tiradentes. Em 1992 aconteceu o primeiro, com pouco mais de 30 motos. No segundo ano já tinham duzentas, e no terceiro ano Tiradentes já não comportou o pessoal. “Faltou hospedagem e alimentação, então o pessoal se hospedou em São João del-Rei”, conta Berg. Ele diz que o evento acaba beneficiando não só Tiradentes, como toda a região, já que ficam motociclistas hospedados em Caxambu, Barbacena, Barroso, Prados, Resende Costa, e outras cidades vizinhas.

A razão pela qual o encontro é em Tiradentes é por questão de espaço, e por que Tiradentes oferece uma estrutura melhor que São João. “Lá tem muito espaço, e por causa dos barzinhos nas praças o pessoal fica no evento e não dispersa”, explica. E, de certa forma, o evento contribuiu e ainda contribui muito para a expansão do nome da cidade. “O Bike Fest foi o primeiro evento grande que teve em Tiradentes, tirando a festa da Santíssima Trindade”, diz Berg, que realizou a vigésima edição neste ano. “Hoje não fazemos mais inscrições de moto-clubes e nem damos troféus. O número cresceu muito e foi ficando inviável. Da última vez que fizemos inscrições, em 2007, foram mais de mil moto-clubes”, conta.

Seu filho, Jordano Berg, hoje responsável pelo Grupo Berg, que realiza o Bike Fest, explica que durante os 20 anos de evento aconteceram muitas transformações. “Tivemos que transformar o evento numa empresa e captar recursos. Conseguimos a Lei de Incentivo à Cultura, e fizemos o festival de Jazz no evento. Também realizamos plantios de árvores, numa parceria com o Banco da Árvore. Não é em Tiradentes, mas uma parte vem pra cá. Reflorestamos parte da Serra de São José”, explica. O plantio das árvores minimiza a quantidade de poluentes emitida pelas motos. Eles também promovem palestras para as crianças nas escolas, sobre direção defensiva, leis de trânsito, etc. “É importante pra gente, porque não é todo mundo que tem uma visão boa de moto e de motociclistas’, explica.

Família unida numa só paixão

Formado em Engenharia Mecânica e Administração, tudo o que precisava pra trabalhar com sua paixão, a moto, abriu uma importadora de peças da Harley, por que tinha muita dificuldade de adquirir peças. “Era uma luta a gente conseguir peças. Resolvi fazer isso pra mim e pros amigos. Antes era aqui em casa a loja. O pessoal vinha, ficava hospedado, consertava as motos. A casa vivia cheia de motos, que tempo bom”, relembra.

Mayra Melo
Mais de 20 amores (HD) um grande enamorado
Então, o filho mais velho, Guilherme, que mora nos Estados Unidos e é piloto de moto-velocidade, assumiu a importadora do pai. “Ele resolveu transferir a sede da empresa para os EUA, lá tem uma exportadora e também uma revenda da Ducati. Mas o hobby dele mesmo é correr de moto”, diz o pai, de certa forma orgulhoso. “Além do meu filho Guilherme, tem o Jordano, que coordena o Bike Fest hoje, e o mais novo, Bernardo, anda de moto desde pequeno. Fabrício trabalha com informática”, conta Berg. Todos os filhos, até mesmo Fabrício, estão vinculados à moto, de alguma forma, profissionalmente ou não.

“Já nasci no evento, então desde pequeno vivi no meio de moto. Meu irmão, que corre moto-velocidade nos EUA me influenciou muito, tanto que já disputei campeonato brasileiro de motocross”, fala Bernardo. Seu pai está restaurando uma Harley Davidson de 1951 para presenteá-lo. Nada mal o presente. “É um sonho eu ter uma Harley, ainda mais meu pai fazendo uma pra mim”, fala Bernardo, que vai prestar vestibular pra Engenharia Mecânica, como o pai.

Hoje, aliás, Guilherme Berg fica só por conta disso. Restaurar motos. “Agora fico só na oficina, o dia todo. Pra me tirar dali tem que ser um motivo muito forte”, brinca. Ele reforma, restaura, customiza. “Eu sempre compro uma moto antiga e restauro. Estou fazendo uma agora para o meu filho, estou trabalhando nela. Estou desmontando uma também de 1946, pra restaurar”, diz. Ele explica que a Harley, desde 1903, com tantos modelos, ainda hoje se compromete a te entregar qualquer peça de qualquer moto, de qualquer ano, até mesmo de um modelo de 1920, por exemplo. “Por isso que essa marca desperta paixão. A que estou fazendo pro Bernardo é de 1951, e eu tenho importado peças originais pra ela”, diz. Pra quem já teve mais de 20 Harleys, com boas recordações de todas elas, há quem diga que Guilherme Berg é maluco. “Somos só apaixonados, mas a verdade é que toda Harley tem uma alma. A Harley é uma obra de arte”, diz.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Oficina de Produção Audiovisual




O blog Observatório da Cultura tem como uma de suas propostas evidenciar a cultura de São João del-Rei e região. Acreditamos que o Jornalismo Cultural tem o papel de acessibilidade, ou seja, de revelar aspectos culturais que nem todos conhecem. O Observatório da Cultura tenta seguir estas premissas para se consolidar como um espaço realmente democrático, reflexivo e que interfere positivamente na sociedade.

Atento há essa reflexão, o Observatório da Cultura, junto com o LabTV do curso de Jornalismo da UFSJ, irá ministrar uma oficina de produção audiovisual. O curso tem como objetivo ensinar técnicas básicas de gravação em HDSLR e edição em Adobe Premiere.

Acreditamos que o processo de aprendizagem de edição/filmagem estão entrelaçados, por isso nossa proposta é que o aluno produza suas próprias imagens e depois aprenda a editá-las. As inscrições são abertas a todos, no entanto, devido a delimitação de espaço e equipamento, os alunos de Jornalismo tem prioridade na inscrição. 

A oficina é gratuita e possui 15 vagas. A previsão de início das aulas é 4 de dezembro, o horário será entre 16h e 18:30, podendo se estender até às 19h, no CTAN. Se você não for chamado para essa oficina, não se preocupe, pois iremos realizá-la mais vezes.

Para se inscrever, clique aqui


Obrigado.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O Colecionador

Fotos: André N. P. Azevedo

Walquíria Domingues
 
“Vocês me desculpem, eu ainda não tenho uma coleção muito grande, porque estou começando. Mas essa coleção não vai ficar muito grande, pois pretendo ter só uma de cada modalidade”. É com essas palavras que José Antônio Oliveira de Resende, 52 anos, professor do curso de Letras da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), recebeu-nos em sua casa, no bairro São Caetano. O nosso interesse era saber um pouco mais sobre aquelas bolas enfileiradas numa estante, e ele fez questão de nos contar não só sobre sua coleção de bolas raras, mas também sobre um pouquinho de sua vida. Entre as várias estantes, livros e outras coleções, José Antônio retruca: “a não ser que seja uma bola muito bonita, rara, aí eu posso repetir. São bem caras, mas vale à pena”.
São-joanense, José Antônio se lembra da infância e da adolescência jogando futebol de salão. Ele gostava de como o futebol era levado a sério, de como era realmente um esporte para ser levado no coração. Hoje, ele tem uma visão triste, pessimista sobre o futebol. Não se pode comemorar, não se pode mostrar a arte no gramado, nem ser ousado. A coleção, subjetivamente, começou desta frustração pessoal. “Olha como o futebol vem perdendo a identidade. Os times não são fieis mais às suas cores, ao seu hino. Mas a única coisa que fica é a bola. Essa não tem jeito de você mexer”, explica sobre por que começou sua coleção de bolas, as primeiras, de futebol. “É um respeito com a fidelidade que eu tenho com o futebol, com o esporte em geral”.
                                                                              
As bolas ficam enfileiradas numa estante: pingue pongue, futebol, basquete, rugby, handebol, basebol, espiribol, e a famosa bolinha de gude. Cada uma tem sua história, e José Antônio conta como elas foram parar na sua casa. “Essa é de pingue pongue brasileira, essa já é de pingue pongue chinesa. Essas bolas que eu vou mostrar para vocês nunca foram usadas. Mal, mal cai no chão”, explica. O esporte de mesa, muito praticado por José Antônio no passado, deixa saudades, e elas ficam nas bolinhas da coleção. “Eu viajo muito, então quando fico em hotel que tem área de mesa, eu e meu filho aproveitamos bastante”, conta.
“Essa aqui é uma bola do Barcelona, oficial. Essa aqui é uma miniatura de bola de basquete. Eu até poderia comprar uma bola de basquete e vou comprar, mas por ser muito comum eu preferi comprar uma miniatura, porque ela é mais rara”, explica José Antônio. “Essa aqui é de rugby. A de futebol americano é um pouquinho menor, mas eu não achei ainda”. A bola de handebol é oficial. “Eu não sabia que bola de handebol era tão chatinha, durinha e pesadinha. Pensei que era leve”, afirma.
Algumas de suas bolas são de colecionador. São de pequena escala e nem mesmo são de alguma modalidade esportiva. Umas são bolas de salão, outra de campeonato italiano, inglês. O Brasil gostou da idéia e lançou duas miniaturas de dois times. “O Brasil copiou e lançou duas de dois times que eu detesto, a dos corintianos e a dos flamenguistas. Mas ficaram bolas muito bonitas”, brinca, rindo. Atualmente atleticano José Antônio não é fanático. Inclusive tem as bolinhas dos outros times.
“Essa aqui é uma bola rara de basebol, muito rara. Ela é uma pedra”, demonstra José Antônio, jogando a bola na mesa, o que surte um barulho forte. Sobre como as compra, ele prefere ir à loja. “Eu não gosto de comprar pela internet, eu gosto de ir lá à loja, pois lá eu posso pegar, ver”, explica. Mas algumas coisas curiosas o impedem de comprar seus itens colecionáveis. Ainda indignado, José Antônio conta que não conseguiu comprar sua bola de tênis. “Fui comprar a de tênis semana passada, mas eles só vendem o pacotinho com seis. Ai é fogo”, reclama. “Certas coisas também que a gente vai comprar, dizem a gente só vende se você também comprar a raquete. A do basebol eles queriam me vender os tacos”, conta.
Voltando no tempo, relembrando as brincadeiras de criança, José Antônio nos mostra a bola de espiribol, aquela, que amarrada a uma corda, gira com ajuda de socos em torno de uma haste. As bolinhas de gude, talvez no lugar certo, não estavam na sua estante, mas sim na casa da sua mãe. O lugar onde, geralmente, as bolinhas de gude permanecem, junto com as lembranças da infância.
Além da coleção de bolas raras, José Antônio também tem outras. Livros, copos de água, anjos, latas de cerveja, vinil e suvenires de viagens. Ele mesmo explica. “Se você for para um campo psicanalítico freudiano, vai ver que toda coleção é uma necessidade que a gente tem de se apegar, ter fixação em alguma coisa. Se você for para os estudos culturais, pode ser a montagem de um arquivo de uma representação social. Mas eu não me aprendo a esses teóricos não, eu faço tudo de coração”, afirma.
José Antônio, além de colecionador, também já escreveu e dirigiu peças de teatro e é compositor (inclusive o hino da UFSJ, letra e música, é de sua autoria, além de sambas enredo de escolas de samba local e MPB). Formou-se em Letras pela então Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, hoje Universidade Federal de São João del-Rei. É pós-graduado em Língua Portuguesa pela PUC-MG, Mestre em Língua Portuguesa pela UFMG e Doutor em Estudos Lingüísticos, também pela UFMG. Em 1997 começou a lecionar no curso de Letras, onde está até hoje, dando aulas de latim elementar, intermediário e avançado. “Trabalho com escrita e criatividade, coisas de efeitos com a linguagem”, diz.
José Antônio já publicou oito livros, e escreve crônicas para três jornais, locais e da região, colecionando já cerca de 300 crônicas. “Eu já fiz crônicas sobre futebol. A última, dois caras conversam. Intitulada ‘Papo de bola’, toda a conversa deles eu fui recolhendo frases de futebol que entram no nosso linguajar. ‘E ai como você tá? Tô na área’”, diz. “Tudo o que eles falavam era expressão de futebol. Quem dera se o Juninho fosse Pernambucano, se o Ronaldo fosse gaúcho. Já que eles não estão nem ai para o Brasil, peguei e joguei uns apelidos”, brinca.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Viajando no tempo

Luciano Marcos de Oliveira, fotógrafo há mais de 20 anos, é um apaixonado por câmeras fotográficas antigas. Sua coleção conta com mais de 40 máquinas. Algumas funcionam até hoje, inclusive uma ou outra ainda está em uso.  Soviéticas, francesas, americanas... O conhecimento mundial da arte de fotografar reunido num pequeno e velho vagão de cartas, na Estação Ferroviária de São João del-Rei, local onde Luciano trabalha produzindo fotos de época para turistas. 


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O maquinista

O nosso slideshow a seguir apresenta um pouco da história e experiência do maquinista Ilair Santana, que conduz a Maria Fumaça, no trajeto São João del-Rei/Tiradentes, há quase 30 anos.



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cia de Inventos: arte e imaginação no teatro de bonecos

   Arquivo Cia de Inventos
A imaginação dá vida aos bonecos de Bernardo e Renata, na pacata cidade de Tiradentes



Diego Meneses

Marionete. Boneco de madeira criado na forma de animais, pessoas ou objetos, manipulados por alguém - marionetista - através de linhas e cordas que, quando tensionadas de forma coordenada permitem o movimento fluído do fantoche. E dessa ação ritmada surgem histórias, contos, maravilhando a plateia em um universo totalmente novo e cativante.

E é lidando com o imaginário das pessoas através de seu teatro de bonecos que a Companhia de Inventos, organizada pelo casal Bernardo [nome completo e idade], o "Nado", e Renata [nome completo e idade], apresenta a arte teatral criada em sua oficina na charmosa cidade de Tiradentes para o Brasil inteiro, de aldeias indígenas aos salões de classe A. Levam mais que isso: o trabalho é carregado das principais qualidades do casal, simpatia cativante, hospitalidade e bom humor que parece não terminar nunca (e com uma vista maravilhosa da Serra São José, pois sua residência fica não muito longe do sopé do cartão postal tiradentino), transmitindo muita paz e diversão para todas as idades.

Primórdios 
Nado e Renata são de Belo Horizonte, e sempre estiveram no meio das Artes em suas mais variadas vertentes. Ele começou a fazer Artes Plásticas na escola Guignard, mas não chegou a terminar. Ela é formada em Belas Artes pela UFMG. Casaram-se em 1989, e vieram para Tiradentes tanto porque gostavam do clima hospitaleiro e calmo da cidade quanto pela relação familiar e afetiva que aqui tinham. Ambos sempre tiveram uma ligação intensa com a música e com as artes plásticas e surgiria aí o cenário perfeito para a criação da Companhia de Inventos. "O teatro de bonecos foi por acaso, mesmo que sempre estivemos ligados às artes. Tenho 30 anos de experiência com bonecos, e desses 22 com o Nado junto com a Companhia", conta Renata.

A criatividade como expressão
 
Em um cômodo separado de sua casa é onde a criação dos bonecos acontece, uma oficina onde as ideias e as inspirações se misturam, criam forma e dão origem ao espetáculo. Pedaços de madeira viram corpos, uma máquina de costura cria o vestuário, e aos poucos as peças soltas entre si são unidas, criando aquele que poderia ser o protagonista da próxima peça.

O processo de criação e montagem de uma marionete é completamente artesanal, e o resultado final depende do tempo disponível para criação. "Para uma encomenda, por exemplo, posso fazer uma peça para daqui a uma semana ou 15 dias. Mas sem dúvida, o resultado final de duas semanas fica muito superior ao de apenas sete", diz Bernardo.

Arquivo Cia de Inventos
Bernardo e seu "filho" Hilário
"As inspirações para criação de um boneco ou peça vão surgindo de forma aleatória", comenta Nado. "A música é uma das principais fontes, mas as ideias podem vir a surgir de qualquer lugar". Por exemplo, "O Santo Seu Hilário" é uma peça de cunho histórico, criada a partir dos relatos do explorador e naturalista francês August Saint'Hilaire, que atravessou o Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais (Estado que gostara tanto que visitou três vezes), Goiás, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Apesar de todas as dificuldades que encontrou em sua penosa viagem pelo Brasil do século XIX, era sempre movido pela curiosidade e desejo de conhecer mais sobre essa terra, escrevendo livros e depoimentos sobre o que encontrava durante todo o processo. "O desafio dessa peça foi fazer com que a larga obra de August de Saint-Hileire se resumisse em alguns minutos de peça", afirma Bernardo.

E foi da apresentação da Escola Britânica, escola de elite para a classe alta de São Paulo, que surgiu outra das peças mais famosas da Companhia, " O Construtor do Imaginário". Durante um workshop, os alunos da escola deveriam criar, a partir de peças avulsas de bonecos, outros para uma apresentação. As micro-histórias e os personagens criados por eles fizeram tanto sucesso que se tornaram o conceito do Construtor.

Para outro boneco que ainda não foi encerrado, a ideia veio a partir de uma notícia que Bernardo viu na TV. A polícia prendera várias pessoas dentro de um caminhão baú para serem levadas a delegacia por insubordinação, em algum outro lugar do mundo, mas ao abrir a caçamba, chegando ao destino, as pessoas haviam morrido asfixiadas. O triste fato foi a semente para uma criação inusitada: um boneco, cercado, como se estivesse preso em uma caixa e que quando manipulado constantemente soca e esperneia contra as paredes de sua clausura. No silêncio da oficina, as batidas do homenzinho de madeira tentando sair são, no mínimo, angustiantes e claustrofóbicas para o espectador.

Infelizmente não há como levar todo esse material para frente nem desenvolver novas peças sem incentivo. E esta é a principal dificuldade para se levar uma peça adiante: a burocracia. É muito dispendioso desenvolver uma peça e viajar para longe com todo o material, sendo que os principais recursos que a Companhia tem para continuar seu trabalho são os apoios e patrocínios, que vem tanto da Lei de Incentivo a Cultura, como também de empresas particulares. E essa mesma burocracia, uma constante que atinge não só o casal como também vários outros artistas nas mais variadas áreas, torna o processo lento e difícil. "Muitas vezes o projeto é aprovado, mas a capitalização de recursos não conclui ou fica com requisitos difíceis de serem cumpridos. É muito comum sofrermos imprevistos", comenta Bernardo.

Público encantado e satisfeito
Apesar de todas as dificuldades, as peças da Companhia têm um tom neutro para todas as idades. "Nossas peças são feitas para qualquer tipo de público, não só para crianças, como algumas pessoas pensam", explica Renata. "O público que assiste nosso trabalho tem as mais variadas idades e classes sociais; demos oficinas para crianças de classe alta, que tem de tudo e viajam para o exterior como se fosse a coisa mais fácil do mundo, assim como para meninos e meninas no sertão nordestino que quase não tem o que comer", desabafa Nado.

"Uma vez, durante uma apresentação no Piauí, na sombra de um cajueiro, apresentamos nossa peça “O Construtor do Imaginário”. Logo após a apresentação, uma menina de uns cinco anos levantou-se da plateia, veio até a marionete e lhe deu um longo beijo no rosto. Vimos ali uma inocência sem igual, a simpatia e afeição que o boneco despertou naquela garotinha, uma coisa que não dá pra explicar", Renata conta, com brilho nos olhos. "E os adultos são como crianças, chegam sérios, mas logo ficam encantados e voltam, durante a peça, a serem crianças de novo. Os espectadores adultos são tão curiosos quanto as crianças, e ver ali, pessoalmente, o teatro funcionando é muito diferente de ter uma noção apenas pela TV ou por uma foto", fala Nado. É a linguagem do movimento em ação, constante e uníssona, capaz de atingir qualquer espectador independente de sua realidade.
Arquivo Cia de Inventos
Imaginação e movimento: pura arte

A Companhia também realiza diversas oficinas de criação e manipulação de bonecos e teatro de sombras, e a partir delas criam pequenos espetáculos. Um exemplo disso são as oficinas que foram feitas no APAE de Tiradentes. "As crianças de lá são tão inventivas quanto crianças ditas normais", Renata comenta. "Embora tenham lá suas dificuldades, conseguem montar seus próprios bonecos, e depois fizeram uma apresentação de final de ano com eles para pais e funcionários do local. Foi muito lindo", diz, sorridente.

Seguindo o caminho dos pais, os filhos do casal, Miguel, de 14 anos e André, de nove, também participam ativamente do processo de criação, ensaio e até de seu próprio espetáculo de manipulação. Nas criações dos pais, contribuem, palpitam. E para os pais, são fontes de inspiração sempre. "Contribuem muito. É outro mundo", diz Renata. Eles tinham a própria peça, Pedroso e Max, mas foram crescendo e seu interesse se desvirtuou um pouco. "A peça era linda, mas eles não querem apresentá-la mais", explica.

O velho e o novo de mãos dadas
De forma alguma a tecnologia interfere de forma negativa na técnica teatral, tão antiga quanto a manipulação de bonecos. Na verdade, os tempos se juntam em um só, e formam a combinação perfeita de imersão, auxiliando um ao outro no despertar dos sentidos. "Ver uma peça de teatro ao vivo é bem diferente de vê-la pelo Youtube", comenta Nado. "O recurso multimídia apenas faz parte de um todo, e essa convergência cria o clima perfeito para o espetáculo. O “Santo Seu Hilário”, por exemplo, foi o primeiro a ter uma criação musical específica para ele. Os outros, usamos apenas músicas editadas, que são mais que suficientes", comenta.

Criação das peças e o sucesso consolidado
"Tínhamos uma pousada aqui em Tiradentes. Mas o ritmo das peças crescera tanto que tivemos que passá-la para frente e nos dedicar somente ao teatro de bonecos", releva Nado. Para o fim de 2012, vão se apresentar em Tiradentes: aos sábados, às 18 horas na Pousada Três Portas (Rua Direita, 280 – Centro Histórico), a confirmar, e em Belo Horizonte, nos dias 10 e 11 de novembro, no teatro Izabela Hendrix, às 4 da tarde, com entrada franca.

E a agenda cheia de nada prejudica a família. Unidos pela arte, Bernardo e Renata viajam juntos quando as apresentações são em locais próximos, e em lugares distantes ele vai sozinho. Os filhos também vão, mas nas mesmas condições que Renata, pois ainda estudam e às vezes a viagem leva vários dias.

Para saber mais: www.companhiadeinventos.blogspot.com 
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