terça-feira, 31 de maio de 2011

O pianista de Nietzsche

André N. P. Azevedo
                                                                                                                                       
      André N. P. Azevedo
"Sem música, a vida seria um erro”
Friedrich Nietzsche

Duas cenas, duas mãos. Poderia ser resumida assim a conversa com o músico e compositor são-joanense Abgar Tirado, 72 anos, que me recebeu na sala de estar de sua casa. 

Suas mãos tremiam enquanto respondia as primeiras perguntas. Nervosismo estranho para alguém que tocou suas primeiras notas no piano com apenas cinco anos. “Eu voltava do jardim de infância e tocava no piano a melodia das músicas que as professoras ensinavam para as crianças. Comecei a tocar de ouvido mesmo”, conta.

As primeiras composições surgiram aos nove anos. “Quando o dia clarear/ouço os pássaros a cantar/ louvam eles Senhor...”, canta Abgar, quase em um tímido sussurro, a sua primeira música. Timidez surpreendente para quem começou a se apresentar com seis anos, nas escolas e nas rádios. 

O que surpreende mais ainda é descobrir que Abgar compõe grande parte de suas músicas em latim, como a canção Panis Angelicus, que foi apresentada no Vaticano.   

Abgar Tirado
Pergunto para Abgar se ele possui alguma canção gravada para que eu pudesse conhecer. “Até tenho algumas, mas prefiro que você conheça de outra forma minhas músicas”, diz Abgar, se dirigindo para outro cômodo da casa. “Não repara na bagunça, é que esse aqui é o meu cantinho”, diz ainda constrangido sobre uma praticamente inexistente desordem em suas coisas.

O que se vê são dois pianos, um amontoado de pastas que mais tarde fui descobrir serem suas composições, uma coleção de placas de homenagens que recebeu e na parede fotos em que aparece acompanhado de outros pianistas, como Egveny Kissin, célebre pianista russo. “Esses são os mais impressionantes pianistas que tive a honra de conhecer”, conta.
 
Sentado ao piano, Abgar comove pela clareza, pureza e sentimento que toca as 88 teclas de seu instrumento. Suas mãos já não tremem. Sua voz, antes sussurrada, agora espalha-se pela sala.

Executando diferentes canções, Abgar faz questão de me explicar um por um os diferentes estilos musicais que perpassa e se emociona ao se lembrar dos vários anos em que foi diretor do Conservatório Estadual de Música "Padre José Maria Xavier". “O Conservatório me deu a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas com quem toquei e aprendi muito”, diz.

Para finalizar, Abgar executa uma peça da obra Der Musikalische Nachlass de Friedrich Nietzsche, influente filósofo alemão. “Acho que nem os professores de filosofia sabem que Nietzsche era músico, compondo cerca de 74 músicas até os seus 21 anos”, explica Abgar, que pode ter sido um dos poucos músicos do mundo a discorrer e solar peças do filósofo alemão.


     

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Grupo promove atividades para resgatar cultura negra


Thamiris Franco                                                                                                        Arquivo Pessoal

Raízes da Terra realiza apresentações em prol da conscientização 


Desde 1994, existe em São João del-Rei o Grupo de Inculturação Afro-descendentes Raízes da Terra, cujo o objetivo é valorizar a cultura negra, levantar a auto-estima dos participantes e resgatar a tradição do povo negro são-joanense. Para alcançar tais objetivos, os participantes do grupo promovem palestras, eventos de conscientização cultural, além de reuniões semanais. Atualmente, não possui uma sede própria e funciona na casa da presidenta Vicentina Neves Teixeira, no bairro São Geraldo.

Vicentina Neves explica que o Raízes da Terra surgiu a partir do Grupo Moscabe, o único que tinha em São João del-Rei de inculturação. Eles faziam reuniões para promover a consciência negra no bairro do Tejuco. Vicentina se interessou pelo trabalh, então eles a convidaram para participar e fundar um núcleo no bairro São Geraldo. Ela contou também com o apoio da Associação de Congado Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário, que ajudou a fortalecer o grupo e até hoje existe essa parceria, sendo assim já está há 17 anos ativo.

O grupo já chegou a chamar Consciência Negra, mas após participar de uma palestra, Vicentina percebeu que consciência não tem cor e que na verdade existem pessoas de cor, conscientizadas. Então foi feita uma assembléia entre os participantes do grupo e da associação, que juntos decidiram o atual nome. Vicentina explica: Afro-descendentes, porque eles fazem parte da terceira geração de negros que vieram para o Brasil e Raízes da Terra, pois eles estão procurando suas raízes em São João del-Rei. “Queremos fazer nossa história aqui, embora vamos a outras cidades da região que nos convidam para promover eventos e palestras, mas temos que ter nosso alicerce. Nossa raiz é aqui, pois muitas das vezes as pessoas estudam a história afro do Brasil, da América, mas não sabem a do seu bairro, da sua cidade”, diz Vicentina.

A associação e o grupo procuram se aperfeiçoar por meio de participação em congressos, seminários, reuniões com profissionais que possuem um conhecimento amplo sobre o assunto e também por meio de pesquisas sobre as tradições negras de São João del-Rei; pois só assim terão condições de fazer um bom trabalho de conscientização principalmente com as crianças, informa Vicentina.

De acordo com a tesoureira Efigênia Vicentina Neves, mais conhecida como Genica, o trabalho com as crianças é o mais importante. “Ninguém nasce racista, a sociedade, o convívio que tornam as pessoas racistas, por isso procuramos fazer um trabalho de sociabilização e desde cedo conscientizar as crianças de aceitar as diferenças sociais”.

Nivaldo Neves, presidente da Associação de Congado e participante do grupo desde a fundação conta que o trabalho com as crianças é de reeducação. “Antigamente, nós tínhamos uma sede própria, pois recebíamos o apoio de padres e de irmãs do Instituto Auxiliadora, então promovíamos curso de pintura, escultura e costura e assim reeducávamos as crianças e levantávamos sua auto-estima. Porém, com a transferência dos padres e das irmãs, ficamos sem uma sede própria, então nossas atividades são limitadas, mesmo assim procuramos levar o trabalho de conscientização para as crianças, principalmente por meio de palestras nas escolas”, diz.

Vicentina informa que o Raízes da Terra também conta com um grupo de percussão e de dança, que toca ritmos afro-descendentes, por meio de instrumentos como o atabaque, alfaia, bongo, afoxé, dentre outros. As músicas são carregadas de significados culturais e religiosos. O figurino é típico, por exemplo: saias rodadas, flor no cabelo ou o uso do turbante e os meninos utilizam camisa colorida e calça branca. O grupo faz as apresentações em eventos culturais da cidade.

Nivaldo conta que o motivo pelo qual passou a fazer parte do grupo é o fato de poucas pessoas trabalharem com a cultura negra. “Eu ao ter consciência de que a cultura negra estava esquecida, morrendo, resolvi fazer um trabalho para resgatar as tradições e levantar a auto-estima do povo afro-descendente, principalmente das crianças, pois hoje em dia nas escolas os professores não estão reiterados a falar sofre a cultura negra, então muitas vezes as crianças sofrem preconceitos. Elas são menosprezadas por outros que vê o movimento negro como de macumba, ficam triste, aborrecidas, dispersas. Então tenho que fazer esse trabalho de que o negro é bonito, tem valor e é importante para nossa sociedade como qualquer outro povo”, afirma.

Todo ano, no dia 13 de maio, dia da Abolição da Escravatura e no dia da Consciência Negra, 20 de novembro, o grupo realiza atividades em prol dessa conscientização, por meio de apresentações de dança, comidas típicas, palestras e apresentações teatrais, informa Nivaldo.

Hoje o Raízes da Terra conta com cerca de 30 membros de diferentes gerações. Qualquer pessoa que esteja disposta a colaborar e a ajudar, além de participar frequentemente das reuniões pode entrar para o grupo. Para Vicentina, a maior dificuldade encontrada é a falta de verbas e de ajuda do poder público. Ela diz que no futuro pretende construir um Museu do Escravo que contará a história da escravidão em São João del-Rei e região, através de pesquisas realizadas, documentos e fotografias.  

Um conto de fadas Real: Os casamentos em São João del-Rei

Walquíria Domingues                                                                                                  Fotos: Beni Jr.
O casamento de Rosi foi de parar o trânsito. O buquê foi jogado dentro do ônibus

Ouro. Rococós. Altar. Véu e Grinalda. Ritual tradicional. Os casamentos nas igrejas barrocas de São João del-Rei são suntuosos, frequentes e cheios de normas, devoções e glamour, que atraem mais de 40 casórios anuais por templo, segundo as secretarias das igrejas.  

O aconselhado é começar os preparativos há, pelo menos, um ano antes já que o mais importante e requisitado é escolher o local da cerimônia religiosa e da festa, para que se inicie a pesquisa da decoração, a lista de convidados, músicos, buffet e serviços de filmagem e fotografia. A escolha da igreja, por sinal, é praticamente certa quando os noivos já passaram pelos Largos de São João del-Rei.

Os templos

O Centro Histórico possui cinco igrejas barrocas e centenárias, cenário surreal para o matrimônio. As mais procuradas são a de São Francisco de Assis e de N. Sra. do Carmo, principalmente por comportarem mais convidados, além da riqueza de detalhes e ornamentos. Na primeira, por exemplo, de acordo Adriana Viegas, secretária do templo, há casamentos todos os finais de semana, exceto na Quaresma e Semana Santa. “Marcar com muita antecedência é essencial”, afirma.

Somente neste ano, a igreja de São Francisco de Assis marcou 54 casamentos e, para 2012, já aguardam 32 casais de noivos. A igreja de N. Sra. do Carmo, um pouco menos requisitada, casou 47 noivos em 2010,  realiza 37 casamentos em 2011 e aguarda 13 matrimônios já confirmados para 2012.

Mas, não é somente pela riqueza e beleza barroca dos templos que os casamentos quase chegam ou ultrapassam a marca dos 50. De acordo com Débora Vicentini de Souza, secretária da Igreja do Carmo, “muitas pessoas casam por devoção à N. Sra. do Carmo”. E o mesmo acontece nas outras igrejas. Adriana Viegas, apesar de afirmar que muitas noivas querem a suntuosidade, conta que “teve uma noiva que se casou com apenas 10 convidados e a igreja de São Francisco fechada. Ela é devota do santo e, para ela, somente isso bastava”, relembra.

E também não é somente em relação à devoção aos santos e matronas e à suntuosidade arquitetônica que os noivos se casam em São João. Beni Jr, fotógrafo são-joanense, contou que, em primeiro lugar, as noivas escolhem a cidade e suas igrejas porque chegaram aqui e se apaixonaram ou porque têm um vínculo com parentes que aqui residem. “Aproveitam, também, este ar romântico que a cidade dá para a imagem. São João dá harmonia à foto, dá a composição necessária para a imagem”, diz.


Normas

Outro fator indiscutível, os padrinhos, em alguns casos chegava a ter até 20 casais. Mas em São João, pelo menos, o número de testemunhas está cada vez mais próximo ao número de padrinhos do casamento real de Kate e Príncipe William, da Inglaterra: um para cada um dos noivos. Aqui, as Veneráveis Ordens Terceiras de Nossa Senhora do Monte Carmelo e São Francisco de Assis, responsáveis pelos templos mais requisitados para casamentos, em seus contratos com os noivos, exigem que haja somente cinco casais de testemunhas para cada noivo.

Por serem muitos casamentos por ano, as igrejas elaboraram, juntas, algumas normas para a realização das cerimônias religiosas. Já observadas em várias Dioceses, “não se trata de um compêndio de proibições e, sim, regras que deverão ser observadas devido aos abusos que se vem observando em tais cerimônias”. Para a Igreja, os abusos acabam contribuindo para a dispersão do real sentido do sacramento do matrimônio e, como diz Adriana Viegas, “a igreja virou teatro para muitos”. Para ela, não deve haver exageros.
Casamentos em SJDR: suntuosidade e glamour
 Além da taxa da igreja para realização do casamento, “ao decidirem se casar em nossos templos, os senhores noivos contraem conosco um contrato que, não observado, implicará em multa de um salário mínimo retidos com o cheque “caução”. Para Adriana Viegas, o cheque foi a maneira de não haver quebra de cláusulas de contrato. “Fico feliz em devolver os cheques, mas, infelizmente, quando se mexe no dinheiro, é a única maneira de as pessoas seguirem normas”, lamenta.

Tatiane Sunara de Moura, noiva que se casou na Igreja de N. Sra. do Carmo, no dia 29 de abril, mesma data em que se casaram o Príncipe William e Lady Catherine, infelizmente não pôde ter tantas regalias como o casamento real. “Enfrentamos algumas dificuldades, porque queríamos algumas coisas e não pudemos realizar. Aqui só pode cantar músicas sacras e barrocas, não pudemos escolher uma música especial que tínhamos escolhido, senão teríamos que pagar a multa de quebra de contrato. A maior dificuldade pra mim foi essa”, lamenta a noiva.


O noivo de Tatiane, Rafael Silva Santiago, contou que os dois já tinham se casado há três meses no civil. “Como a nossa tradição é casar na igreja, como manda a religião, nós seguimos. Minha noiva é devota de N. Sra do Carmo, e estamos felizes em nos casar aqui”, diz. Já para ele, as normas que a igreja apresenta não foram problema. “A igreja já é bonita, acho que não precisa enfeitar mais com flores”, diz Rafael.
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