domingo, 27 de março de 2011

Depois do Carnaval, a religião, e vice-versa

Vinícius Borges Gomes
                                                                                                                                                     Divulgação
Ruas históricas enchem nas procissões

São João Del-Rei é conhecida pela efervescência religiosa marcada pela tradicional Semana Santa e demais festas dedicadas a santos, além de suas belíssimas igrejas de presença barroca. Mas não é somente da tradição católica que vive essa cidade, marcada também por festas populares, em especial, o carnaval. São, muitas vezes, nas mesmas avenidas que percorrem as procissões, que os blocos carnavalescos desfilam sua alegria e irreverência.
                                         
Pode até parecer contraditório, mas não é bem assim, afinal o Carnaval tem origem cristã. Ele nasceu no século XI devido à criação da Semana Santa antecedida pelo período de 40 dias penitenciais, a Quaresma. Para isso, surgiu a festa que seria dedicada a um deleite de prazeres, já que o período quaresmal era marcado pelo jejum. Ou seja, a ligação entre o Carnaval e a religião é estreita. A expressão que marcava o Carnaval era o “carnis valles”, que acabou gerando a palavra “carnaval”. No latim “carnis” significa carne e “valles” prazeres.

Olhando essa história, é interessante observar a realidade são-joanense. Talvez a ligação não exista mais, ou não de maneira tão forte. Mas o fato é que a religiosidade católica e a alegria carnavalesca usam os mesmos espaços e atraem públicos muito parecidos.  Mauro Garcia Lovatto é um exemplo importante disso. Apaixonado pelo Carnaval ele é ligado também à religião e toca violino nos eventos religiosos pela “Orquestra Ribeiro Bastos”.

Marcado por sua vivência barroca, Mauro explica que a cultura religiosa significa muito para a população e isso não impede que se viva o Carnaval de maneira bem tranqüila, pois, segundo ele, o homem transita nesses opostos. “Um colega meu estava desfilando numa escola de samba e assim que me viu perguntou se havia missa no outro dia”, contou Mauro, sorrindo, para mostrar o trânsito das pessoas entre a religião e a festa.

Mauro, que atribui sua ligação com a religião a sua formação familiar, já viveu o carnaval de maneira intensa. Por alguns momentos, ele encostou seu violino, instrumento das celebrações religiosas, para escrever enredos para escolas de samba de São João Del Rei. Ele já fez seu trabalho carnavalesco em escolas como a  “Qualquer nome serve”, Mocidade Independente do Bonfim”, “Metralhas”, “Bate Paus” e para a atual campeã “Girassol”.
                                                                                                                       Divulgação
Carnaval: irreverência em  meio a paisagens históricas
“Certa vez, ao assistir o bloco das domésticas, em que homens se vestem de mulher, vi três coroinhas no meio”, conta Mauro relembrando histórias cômicas que mostram sinais da ligação entre a festa e a religião. Jornalista, Mauro é assessor de comunicação da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) e prefere trabalhar em sua terra natal para ficar perto das raízes, que envolvem uma religião bonita e um carnaval único.


Ele também fala do gosto pela música que nunca o impediu de transitar pela rica e diversa cultura são-joanense: “A música te dá uma certa confiança. Você fica até mais corajoso para a vida. A cortina se abre e você tem que se impor”. É valorizando seu trabalho na orquestra que ele conta o quanto a música o fez ficar mais criativo e sensível.

Teólogo analisa relação do carnaval com a Quaresma

O teólogo Sandson Rotterdan, graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), falou sobre São João Del-Rei e as peculiaridades que são observadas. “A meu ver, acho que o vínculo se perdeu. O Carnaval é uma festa desvinculada da Quaresma até mesmo pelas igrejas cristãs. É muito comum grupos religiosos fazerem retiros nesse tempo. Penso que aí ocorre um desvirtuamento do Carnaval. Em contrapartida, o dia das cinzas é somente mais um feriado, e o Carnaval se estende até o primeiro domingo da Quaresma, que é outro desvirtuamento”.
                                                                                                                       Divulgação
Para o teólogo Sandson a relação entre carnaval e religião está desvirtuada
Se o Carnaval nasceu como antecipação da quarta-feira de cinzas, o que seria então a própria quarta-feira de cinzas? Sandson explica que é “um grande retiro quaresmal, onde o cristão, desde a antiguidade, faz seu itinerário espiritual rumo à celebração da páscoa”. Numa cidade como São João Del-Rei, esse momento é vivido de maneira intensa nas vias-sacras, missas, orações e procissões no período da semana santa.

O teólogo crê que o vínculo dos eventos não é tão forte, pois existe um desvirtuamento, o que faz com que eles, carnaval e quaresma, se tornem até mesmo paradoxais. Mas será que na realidade são-joanense não existe certa relação desses dois como forma de peculiaridade própria? Sandson diz que “o indivíduo religioso não está necessariamente vinculado a uma instituição religiosa e as suas normas. Com isso, é perfeitamente possível comer carne na quarta feira de cinzas, estender o Carnaval até domingo e fazer penitencia quaresmal. Não importa tanto para o sujeito a norma religiosa, mas o como ele vive sua religiosidade”.
                                                                                                  
Com isso percebemos através de uma diferente visão que o carnaval pode ser sim um lado diferente da religião. Sandson vai mais longe e diz que vê o carnaval como uma festa folclórica e popular que se tornou uma marca do Brasil, uma festa “que teve início na religião, mas se desvinculou dela”.
          
Sem dúvidas, saber se carnaval e religião, que tem uma relação histórica próxima, continuam relacionados é uma polêmica. São João Del-Rei ajuda a problematizar a questão com esses dois lados convivendo de maneira tão próxima e viva. Mas o fato é que um lugar como esse, cheio de ricas tradições, mostra o quanto é valioso a presença de pessoas que fazem de sua cidade um ícone cultural. Se carnaval e a quaresma são paradoxais, ou se são irmãos, é uma dúvida. A grande certeza é que o povo são-joanense sabe festejar, seja desfilando pelas ruas históricas com suas folias carnavalescas sujando o chão de confete ou caminhando em oração derramando vela derretida nesse mesmo caminho, por onde transitam legítimas tradições que fazem de São João Del-Rei um lugar único desse vasto Brasil.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Artesanato moveleiro leva turistas ao menor município do país


Mariana Fernandes
Pâmella Chicarino
                                                                                                                                          Pâmella Chicarino 
Artesão utiliza verniz para proteger o seu trabalho feito em madeira de demolição
 
Fortes golpes em movimentos precisos produzem incríveis peças de decoração que encantam consumidores nacionais e internacionais na pequenina Santa Cruz, em Minas Gerais. Com aproximadamente três quilômetros de extensão a menor cidade do país parece não ter limites quando o assunto é criatividade. O artesanato local gera empregos e renda para a população, que desde 2003 é reconhecida pelo empreendimento em móveis de demolição e peças em ferro forjado. 

Apesar do difícil acesso pela ausência de sinalização e publicidade turística por parte dos responsáveis públicos, Santa Cruz de Minas tornou-se um pólo moveleiro reconhecido graças ao circuito turístico regional. Localizada entre as cidades históricas de São João del-Rei e Tiradentes, Santa Cruz está inclusa no projeto Estrada Real e, por este motivo, em 2003 suas estradas foram calçadas. A partir de então, segundo os artesãos, o turista passou a transitar pela cidade e, desta forma seus trabalhos puderam ser vistos por um público maior e diversificado.

Na avenida principal, Ministro Gabriel Passos, é surpreendente as centenas de lojas ali concentradas, característica que torna impossível ao mais muquirana dos seres manter-se alheio ao desejo de possuir um desses objetos. Armários, mesas, aparadores, bancos, cadeiras e vários outros móveis além de artigos decorativos são produzidos a partir de madeiras de demolição nobres, como a peroba rosa. Extraídas de janelas, assoalhos, tetos e portas de antigas moradias, cascos e portos de navios e silos agrícolas, oriundas do sul ao norte do Brasil, especialmente do Estado do Paraná, essas madeiras, ecologicamente corretas, são transformadas em artigos exclusivos e requintados.
                                                                                                                                         Mariana Fernandes
Wagner Rodrigues investe no mercado estrangeiro

A produção moveleira também abrange as cidades de Dores de Campos, Tiradentes, Passos, Lagoa Dourada e São João Del Rei, mas é em Santa Cruz que a atividade tornou-se a principal responsável pela economia do município.  O artesanato gera empregos diretos e indiretos, são mais de 300 fábricas na região, aproximadamente 120 lojas na cidade, sendo que cada uma promove oportunidades de trabalho para no mínimo cinco pessoas, entre artesãos, marceneiros e vendedores, sejam elas empresas familiares ou não.                                                                                                                                         
“O estrangeiro vem até nós pelo turismo” afirma Wagner Sebastião Rodrigues que viu no setor moveleiro de Santa Cruz uma grande oportunidade quando ainda trabalhava realizando consultoria para as pousadas locais. Há vinte anos no mercado, hoje sua empresa Arte e Ação Móveis, gera euros exportando para Bélgica, EUA e Israel. O empresário salienta a importância do turismo para a manutenção e expansão do mercado na cidade, pois mesmo se utilizando da publicidade sua maior ferramenta é o turista que vê, consome e divulga o pólo.

João Bosco dos Santos é uma empresa familiar, o proprietário de mesmo nome partiu das miudezas, talhando santos e oratórios há 28 anos e, hoje investe toda sua criatividade em móveis rústicos que são revendidos em renomadas lojas de São Paulo. Na sua fábrica emprega seus dois filhos e esposa e, mais quatro jovens que ele mesmo ensinou o ofício, orgulhoso de sua obra ele justifica “eu tenho prazer de fazer”.

Dona Maria de Lurdes, proprietária da loja Shekinah, trabalha com o artesanato de ferro forjado e, há 8 anos mudou-se com toda a família para Santa Cruz justamente pelo fato da região atrair seu público alvo. Seus lustres, abajures e molduras de espelho que são vendidos de Manaus à Canoas, no Rio Grande do Sul, são produzidos a partir de ferros reaproveitados e manuseados em uma forja de carvão, que esquenta a peça para ser moldada artesanalmente. Experiente no mercado, mesmo ciente de seus fiéis clientes, é enfática ao afirmar “o que mantêm as portas abertas são os lojistas” para a manutenção dos gastos principalmente fora da alta temporada.


Apesar do grande potencial existente e da relevância econômica que a atividade tem para Santa Cruz e região, constatamos que os poderes públicos e as associações existentes pouco realizam em prol da classe. Todo o sucesso empresarial é resultado de um esforço individual e ímpar de cada artesão. Faltam projetos e incentivos para fortalecer e garantir a continuidade da atividade no município. Mas, ainda assim, conhecer a produção de móveis rústicos e ferro em Santa Cruz de Minas nos faz conceber que na reutilização de velhos recursos e o olhar delicado do trabalhador simples é possível elaborar peças do mais alto bom gosto.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Fazenda do Pombal: berço da Inconfidência e refúgio ecológico


Emanuelle Ribeiro
Fernando Chaves                                                                                                             Divulgação
Ruínas da casa onde nasceu Joaquim José da Silva Chavier, o Tiradentes 

A Fazenda do Pombal, localizada no município de Ritápolis, carrega um título importante: berço do mártir da Inconfidência Mineira Joaquim José da Silva Chavier, o Tiradentes. Além disso, no sítio histórico se encontram as ruínas de um Engenho de cana de açúcar que funcionou há aproximadamente duzentos e cinqüenta anos atrás. O local oferece também o resgate histórico do lendário Rio das Mortes, que margeia a unidade.

O sítio histórico é considerado uma reserva ecológica e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA)  cuja missão é proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento socioambiental sustentável. No local funciona a Flona (Floresta Nacional) de Ritápolis/MG, Unidade pertencente ao ICMBio.

De acordo com o analista administrativo do Instituto, Aloizio Filardi, a Administração do órgão se dá com recursos próprios da União, através de planejamentos orçamentários aprovados anualmente.

Com a maior parte de sua área coberta por vegetação natural, a Flona de Ritápolis é um refúgio da vida animal e tem na proteção da flora, da fauna e dos mananciais hídricos um de seus principais objetivos. Diversas espécies de mamíferos (algumas ameaçadas de extinção) vivem na mata nativa, tais como tatus, raposas, tamanduás, capivaras, lontras e lobos-guarás. “Maritacas, jacus e tucanos, entre outras aves, são vistos com freqüência”, afirma Aloisio. A Flona encontra-se aberta ao público gratuitamente no mesmo horário do seu funcionamento administrativo: de 7h ás 11h e de 12h0 às 16h, somente em dias úteis.

Filardi explica: “Aos turistas, estudiosos e amantes da história local e/ou da natureza, oferecemos a apresentação da Fazenda com relato sucinto da vida do Tiradentes. Os visitantes podem permanecer nas dependências para fotos, piquinic, contemplação, contato com a natureza e compra de mudas de árvores, mel e própolis”.

Já para alunos, professores, grupos de estudo, colégios, pesquisadores e Universidades, está sendo adotado o sistema de agendamento por telefone tendo em vista que neste caso, o número de visitantes é maior. A Flona trabalha com a capacidade máxima de cinqüenta visitantes por dia. Para esses grupos é oferecido um programa contendo a apresentação da Fazenda em aspecto histórico-cultural; seção de vídeo e debate de algum tema ambiental; caminhada até o Viveiro de Mudas com aula prática sobre plantio de mudas e Horta Medicinal; trilha monitorada (duração de 2h) com noções sobre a vegetação local, tipos de árvores, solo e recursos naturais; e recreação.
                                                                                                                                           André Luís Vieira
Pombal possui diversas espécies de plantas
Conforme as informações de Filardi, a Flona já chegou a receber três mil pessoas por ano, mas atualmente a visitação gira em torno de 1.500 visitantes. “O perfil de visitantes da Flona são predominantemente, alunos e professores desde a Educação Infantil até Universidade”, esclarece o analista administrativo.

O Viveiro Florestal tem um estoque de cerca de 100 mil mudas, com quase 400 diferentes espécies entre nativas, ornamentais e medicinais - em sua maioria nativas da região. Plantas ornamentais também são produzidas, sejam para arborização urbana em cidades, sejam cedidas em parcerias ou doadas quando possível para entidades filantrópicas. “As mudas são vendidas a preços convenientes, visando essencialmente a recuperação de áreas degradadas e evidenciando a exploração de produtos não-madeireiros como uma atividade sustentável que pode ser mantida nesta Unidade de Conservação”, informa Aloisio.

Flávio Almeida, produtor rural de Ritápolis, conta que já utilizou por várias vezes, em sua propriedade, mudas nativas produzidas no pombal. "Tive problemas com mudas de outra procedência, no passado. As mudas eram frágeis e o percentual de perda era grande. Quando descobri a o viveiro da fazenda pombal resolvi boa parte dos meus problemas. As mudas de lá tem um bom preço e também qualidade", relata Flávio.

A administração da Flona tem se esforçado no sentido de concretizar o que está preconizado no Plano de Manejo da Unidade. Está também em andamento a criação de um Memorial em homenagem a Tiradentes, iniciativa que envolve diversas instituições da região e o próprio ICMBio. Com isso a Unidade deverá ser contemplada com um Centro de Visitantes que proporcionará maior desenvolvimento da Educação Ambiental e o conhecimento histórico do local.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Quaglia, o mestre do gesto


André N. P. Azevedo
Cláudia Lino
Íris Marinelli
                                                                                                                                                Íris Marinelli
Quaglia é uma pessoa de várias facetas, que aprendeu com cada experiência vivida.




















“(...) E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica,/vê-la brotar como há pouco/em nova vida explodida (...)”
João Cabral de Melo Neto


Viver. Talvez seja isso que todos nós procuramos em cada coisa que ganhe nosso empenho. E é isso o que João Garboggini Quaglia conseguiu. Viveu, mais do que tudo. Hoje o pintor vive em São João del-Rei, interior de Minas Gerais. Sua casa é tranquila, afastada do agito da cidade, e, claro, conta com um ateliê de pintura que guarda um pouco de seu trabalho. Mas antes disso, o artista passou por muito mais.

Quaglia nasceu em Salvador, Bahia - é impossível deixar de dizer que seu sotaque continua vivo, mesmo depois de tanto tempo. Lá mesmo, iniciou os estudos artísticos, aprendeu litografia (técnica de gravurismo que utiliza, basicamente, uma pedra calcária e tintas gordurosas). Mas não demorou muito para que saísse da Bahia e se mudasse para o Rio de Janeiro, lugar em que sua história foi se tornando cada vez mais rica.
No Rio, estudou na Escola Nacional de Belas Artes, quando as universidades eram, segundo Quaglia, “do Brasil”. Hoje, a faculdade se tornou UFRJ, e, o prédio onde Quaglia se graduou é o Museu Nacional de Belas Artes. Escultura, xilogravura, pintura em tela, fotografia, litografia: Quaglia sabe expressar sua arte em várias formas. Mas sua trajetória não foi totalmente artística, visto que trabalhou como jornalista para a Folha de São Paulo (em sua filial no Rio), e ainda se tornou oficial da Aeronáutica. Sem contar o tempo em que trabalhou na fazenda de seu irmão. Quaglia é uma pessoa de várias facetas, que aprendeu com cada experiência vivida.
Além de ter tido várias atividades diferentes, inúmeros lugares receberam Quaglia e sua arte. Além do Rio de Janeiro e da Bahia, ele também morou no Rio Grande do Sul, sendo um dos fundadores da Universidade Federal de Santa Maria. Além disso, a vida o levou para cidades como Madrid e Paris. Isso permitiu que conhecesse pessoas que fizeram parte de sua vida. O poeta João Cabral de Melo Neto, por exemplo, teve um livro ilustrado pelo pintor: Corrida de Touros, que descreve as touradas da Espanha, país onde se conheceram. Se hoje Quaglia vive em São João del-Rei é por causa de sua família.
Assim como sua vida, sua pintura também passou por diversas fases. Para o artista, sua fase inicial é a preferida, pois o desenho era feito de forma mais “solta”. Depois, foi buscando seu próprio estilo, algo precioso em sua carreira; que o possibilitou a passar sua mensagem por meio da arte com cada vez mais força. Além disso, uma definição o acompanha pela vida: “a pintura é o ato de documentar o gesto sobre um suporte. Não é bonito? O pintor tem que dominar o gesto para ser bom”.
Segundo o próprio Quaglia, tudo pelo que passou já estava preparado. “Você é predestinado às coisas. Você pode desejar o que quiser”, ensina. Em certo momento, ele lembra a última vez que viu João Cabral de Melo Neto – em sua última entrevista ainda vivo. “O jornalista perguntou pra ele se ele tinha medo da morte. Como pode uma coisa dessas?”, conta indignado pela pergunta feita. Afinal, morrer é algo para o qual estamos predestinados. Mas qual o motivo de temer isso se podemos passar ainda por muitas coisas na vida? Ainda mais diante de uma jornada como a de Quaglia.
Em certo ponto da entrevista, ele nos aconselha a gravar todas as entrevistas que fizermos, pois não podemos perder os detalhes. Sem ele mesmo ter notado, a entrevista estava sim, sendo gravada.

domingo, 20 de março de 2011

Zulei, um elogio à natureza

Thayná faria
Rafaella Dotta
             Ana Gabriela
Zulei Bassi é uma senhora são-joanense que prefere ser tratada por “você”
“Eu não sei quase nada, mas desconfio de muita coisa.” Palavras de Guimarães Rosa que pudemos ouvir de Zulei Bassi como uma das mais belas citações que existem. Essas e outras frases estão nos “bordados literários” da artista plástica.

Zulei é uma senhora são-joanense que prefere ser tratada por “você”.  Morou por 12 anos no Espírito Santo, de 1976 a 1988. Lá, ela diz: “aprendi a gostar da natureza. Vivi num lugar muito plano, bonito, cheio de verde e cercado por lagoas, muitas lagoas. Todo o dia ia à rua para ver a lua aparecer enorme como em uma dessas novelas, sabe... Refletia nas lagoas, era lindo”.

Nesse período em que viveu no Estado, também dividiu morada com Frei Betto e foi a Cuba duas vezes. Lá conheceu Fidel Castro, que aparece sorridente em uma fotografia mostrada pela artesã onde ela e o ex-ditador cubano apertam as mãos.

Na cozinha vemos pendurado na parede uma escultura da Santa Ceia, com metade dos profetas homens e a outra, mulheres. Ela explica que fez de propósito, pois acredita ser pouco provável que naquela época tivessem apenas homens à mesa, “seria muito machismo!”. 

Vemos mais artesanato. Na verdade, por toda parte. Porta retratos, potes com sementes, folhas e cascas de árvores na mesa e outra surpresa: duas imagens de Che Guevara aparecem coladas no vidro de um armário.

Sobre sua relação com a política Zulei diz que é petista, embora atualmente não milite da mesma forma que antes. “Toda arte é espiritual, religiosa e política”. Ela continua engajada, contribuindo como pode, inclusive através de seu trabalho.

O seu ateliê se estende pela sala, cozinha, varanda e até em sua bicicleta. Quis imitar uma senhora de Brasília, que era artesã e distribuía as suas obras pela casa. E talvez seja esse o motivo de Zulei falar com tanto carinho de seus trabalhos: “Não gosto de colocá-los à venda em lojas ou por intermediadores. Eles são meus filhos   Mas nem sempre soube de sua inclinação à arte. Diz que estranhou quando começou a ser chamada de artista plástica. “Porque eu fazia colagens e não sabia que era arte.” Hoje, recebe encomendas de pessoas de vários Estados, a maioria por telefone.

Seu material de trabalho vem da Grécia, da Índia, da Nova Zelândia, do Egito, de qualquer lugar que tenha um amigo de Zulei. Depois que conhecemos suas obras, tendemos a olhar a natureza também como uma fonte de incríveis ornamentos.

Os materiais mais usados são sementes, folhas, pedaços de árvores, cipós, casca de frutas, areia... Enfim, tudo o que é natural e pode ser utilizado. Sem servir-se de nenhuma substância química, Zulei estuda cada elemento e cria métodos de conservação próprios. A maioria dos materiais que usa vem das proximidades de São João del-Rei, e é ela mesma que vai buscar.
           
Convite à Felit

Na próxima edição do Festival de Literatura de São João del-Rei, Zulei Bassi foi convidada a expor seu trabalho. Irá mostrar, mais especificamente, seus bordados literários, que são panos bordados com poesia e frases de autores como Guimarães Rosa, Mia Couto, Vinicius de Moraes e Chiquinha Gonzaga. A exposição ficará aberta ao público durante toda a programação da Felit, no galpão da Rotunda.


O festival desse ano tem como homenageada a escritora Ana Maria Machado, mas Zulei Bassi está mais ansiosa pelo seu encontro com Bartolomeu Campos. O autor tem um livro com a contracapa formada por imagens de sementes e a artesã fez um cartão especial, com a colagem de quase todas as espécies contida na ilustração. 

sábado, 19 de março de 2011

Geraldo Barroso, a vida esculpida na arte

Wanderson Antonio                                                                                    Fotos: Wanderson Antonio
O domínio da madeira é um dos pontos fortes do ateliê de Geraldo Barroso
Geraldo, que é barrosense até no nome, faz artesanato e vive de arte há 35 anos. Com uma vasta obra, que vai de pequeninas até enormes esculturas em madeira, o artesão se tornou um ícone da atividade na pequena cidade do Campo das Vertentes.

À margem da BR-265, no trevo de Barroso, fica seu ateliê e sua oficina, onde o artesão passa a maior parte de seu dia e ainda conta com a vantagem de morar em cima do local de trabalho. A localização do ateliê facilita a difusão do trabalho, uma vez que a rodovia localiza-se na Trilha dos Inconfidentes, sendo via de passagem para cidades históricas como São João del-Rei e Tiradentes, muito procuradas por turistas do Brasil inteiro e também de outras nações.
                                                                                      

Apesar de não ser conhecido e valorizado dentro de sua própria cidade como merece, Geraldo declara que sua obra é bastante conhecida pelo Brasil inteiro e até em outros países. Algumas de suas esculturas foram enviadas para Portugal. A maioria de seu artesanato é vendida para empresas. Segundo o artesão “Os turistas mesmo compram pouca coisa. A maior parte do dinheiro que ganho é com encomendas, muitas vezes bem grandes, feitas por empresas”, afirma, mostrando uma remessa de várias esculturas. Por outro lado, o artesão reconhece a importância dos turistas que visitam seu ateliê. “Os turistas ajudam a tornar minha arte mais conhecida e recomendam para outras pessoas”, declara.


Carrancas para espantar os maus espíritos 
Mineiro de fala simples, Geraldo produz esculturas com uma simplicidade sofisticada, com peças mais ou menos rústicas. Por ser de família tradicional católica e devoto de Nossa Senhora Aparecida, muito de seu trabalho tem inspiração na religiosidade. São várias as esculturas de santos e anjos espalhadas pelo ateliê, além de diversos oratórios. A madeira, matéria-prima com a qual o artesão trabalha, é proveniente de árvores mortas, cedidas por fazendeiros, ou comprada de madeireiras.

Segundo o artesão, o ofício foi sendo aprimorado com o tempo. A aprendizagem acontecia por meio da prática e era transmitida do mesmo modo para outras pessoas. “Já tive, inclusive, dezenas de aprendizes, que me ajudavam e, ao mesmo tempo, assimilavam minha técnica. Muitos deles trabalham hoje também como artesãos”. Geraldo Barroso é apenas um dos muitos personagens que fazem de nossa região um local que respira e transpira arte.

Bate-Paus mantém tradição por gerações


André N. P. Azevedo
Thamiris Franco

                                                                                                                                                                                André N. P. Azevedo
Bruno de apenas 13 anos orgulha-se de seguir o exemplo de seu bisavô Zé Pereira
O carnaval em São João del-Rei teve seu auge entre os anos 60 e 80. Mas os primeiros ranchos, isto é, agremiações carnavalescas anteriores aos blocos, surgiram por volta de 1930, com inspiração no Rio de Janeiro. O primeiro que se tem notícia, é o Rancho X, seguido por Qualquer Nome Serve, Prazer das Morenas, Custa Mas Vai e Boi Gordo.

Em 1933, nascia ainda como bloco, o Grupo Recreativo Escola de Samba Bate-Paus, representada pelas cores verde e rosa. Situada desde a sua fundação no bairro Senhor dos Montes, a Escola recebeu essa denominação pelo fato de seu fundador Sr. João Henrique, juntamente com seus companheiros, introduzirem um tipo de dança com coreografia cadenciada e uso de paus, semelhante a algum tipo de dança africana, como o congado, o que torna a agremiação genuinamente são-joanense.

Dois anos depois da fundação da Bate-Paus, nascia Jacyr Agostinho Andrade, o Beleleu. Filho de Zé Pereira, um dos mais ilustres diretores da agremiação, Beleleu participa pela primeira vez de um desfile com 12 anos de idade e desde então nunca deixou de participar dos desfiles carnavalescos. Hoje, com 75 anos, possui a mesma animação dos tempos de criança. “Sempre gostei da folia e sinto orgulho de ser o mais antigo componente da Escola”, diz.
                                                                                                                                           
Segundo Beleleu, antigamente o carnaval era mais simples. “As pessoas ajudavam a escola sem cobrar nada por isso, hoje é tudo mais difícil”, desabafa. Atualmente, a Escola conta com aproximadamente 400 componentes, dentre eles, mestre-sala, porta-bandeira, batedores de paus, empurradores de alas, entre outros. De acordo com o vice-presidente da agremiação, Luis Carlos Rodrigues, 30 anos, a maior dificuldade encontrada é justamente a falta de verba para cobrir os gastos das fantasias e cargos da Escola. “Mesmo recebendo apoio da Prefeitura, temos que realizar eventos durante o ano para ajudar a cobrir os gastos”, explica Rodrigues.
                                                                                                                                             
Beleu: 63 anos de dedicação à Bate Paus
Nos seus 78 anos, a Bate-Paus deve sua existência à família de Zé Pereira, que além de seu filho Beleleu, sempre contou com apoio de netos e bisnetos. Bruno Andrade Souza, 13 anos, sente orgulho de participar dos preparativos da G.R.E.S Bate-Paus, a cerca de oito anos, dando assim, continuidade ao trabalho do seu bisavô, Zé Pereira. “Participo e contribuo o máximo que posso, pois acho que ajudo a popularizar o bairro onde moro”, diz.

Além de difundir a cultura local, Bate-Paus tem uma grande relação com o bairro Senhor dos Montes. Seus moradores ajudam nos afazeres da Escola e recebem por isso. Praticamente todos os cargos da agremiação são ocupados por eles, que ainda participam das eleições para a diretoria da Escola.

Bate-Paus é a agremiação que possui mais títulos do Carnaval, apesar de nenhum integrante da Escola saber exatamente quantas vitórias possuem. Desde sua fundação deixou de desfilar durante três anos apenas, sendo campeã no seu retorno aos desfiles.

Nesse último carnaval, o membro mais antigo da Bate-Paus,  Beleleu foi  homenageado por uma entidade da cidade, Atitude Cultural, o que confirma a preocupação da Escola em manter suas raízes, ajudando assim a cultivar a tradição do carnaval de são-joanense.

sábado, 5 de março de 2011

A música do passado que encanta o presente

Ingrid de Andrade
Natália Silva                                                                                                                    

A Orquestra Ribeiro Bastos originou-se de uma provável dissidência da Lira Sanjoanense em 1790. Organizada em 1846 pelo maestro Francisco das Chagas, foi dirigida durante 53 anos, de 1859 a 1912, por seu discípulo e sucessor, Martiniano Ribeiro Bastos (1834-1912), que deu seu nome à associação musical. 
                                                                                                                                                     Dilvugação
Stella Neves rege a Orquestra Ribeiro Bastos
A atual regente é a maestrina Maria Stella Neves Vale. Segundo ela, a Orquestra mantém a maioria de seus compromissos tradicionais com a Ordem Terceira de São Francisco de Assis e com as irmandades de Nosso Senhor dos Passos e do Santíssimo Sacramento, feitos há mais de um século. “A orquestra Ribeiro Bastos é a terceira corporação musical do mundo sem interrupção de atividades desde sua criação, a primeira é o Coral da Capela Cistina no Vaticano, que existe desde 1200”, afirma Stella Neves.

A orquestra possui importante coleção de manuscritos musicais, constituído principalmente de obras destinadas às celebrações religiosas de sua responsabilidade, como também inúmeras partituras de músicas de salão do final do século XIX e início do século XX, quando muitos de seus músicos tocavam para o cinema mudo. Em visita à orquestra a maestrina fez questão de mostrar toda a coleção, inclusive uma partitura escrita com tinta e pena, que data do século XIX.

Segundo Stella Neves, nos últimos 30 anos, a única capital a não ser visitada pela orquestra é Goiana. Ela afirma que apesar da escassez de recursos, a corporação procura meios de realizar muitas apresentações “a prefeitura da cidade em nada contribui, o que auxilia na manutenção da orquestra são doações e ajuda da irmandade”, revela a maestrina.

A formação de jovens músicos sempre foi uma preocupação da Orquestra Ribeiro Bastos, que hoje conta com uma escola gratuita para a formação de novos músicos. “O objetivo é reunir integrantes preocupados, sobretudo, em preservar a prática musical herdada a despeito de sua capacidade técnico-artística. A música e as orquestras bicentenárias de São João Del-rei são fatores culturalmente importantes. A vocação turística da cidade é a religião, mas, consequentemente, as músicas religiosas”, afirma Stella Neves. 

Existem rumores sobre uma possível rivalidade entre as orquestras bicentenárias de São João del-Rei, é dito que essa história começou há muitos anos. “Essa disputa já acabou. Hoje essa rivalidade é só folclórica”, revela a maestrina entre risadas.

Localização: Rua Santo Antônio, 54 - Centro. 

Banda privilegia o ensino da música

“A corporação musical Theodoro de Faria forma e aperfeiçoa músicos, oriundos de todas as camadas sociais”, afirma o maestro Teófilo Helvécio.

A Banda de Música Theodoro de Faria surgiu em 1902 a partir de uma ruptura entre músicos da Orquestra Ribeiro Bastos, quando parte deles acompanhou o mestre Augusto Teodoro de Faria e fundou uma nova corporação musical. O mestre Teodoro de Faria esteve à frente da corporação até 1917, quando o maestro Teófilo Inácio Rodrigues assumiu sua direção, dando-lhe o nome e a estrutura jurídica atuais. 

De acordo com o maestro da banda, Teófilo Helvécio Rodrigues, o arquivo musical da Theodoro de Faria é proveniente da Orquestra Ribeiro Bastos e reúne importantes manuscritos dos séculos XVIII e XIX. Segundo ele, após mais de um século de existência a banda de música continua responsável pela parte musical de algumas das procissões realizadas pelas irmandades, confrarias e ordens terceiras de São João del-Rei, e participa também das festas populares da cidade.

Teófilo Helvécio afirma que a banda é mantida com contribuições de Irmandades da cidade. “Apesar de a cidade ter sido a Capital Brasileira da Cultura em 2007, não há incentivo da Prefeitura Municipal ou do Governo Federal para as corporações musicais da cidade”, completa.  Para ele, a banda preenche a lacuna cultural que o poder público não oferece para a população da região, na medida em que ativa dois aspectos ideológicos o cooperativismo e o ativismo, que não trazem retornos financeiros, mas a arte como expressão cultural. 

O maestro, que é formado no curso de Teoria Musical, Ritmo e Som, na Academia de Música Lorenzo Fernandez do Rio de Janeiro afirmou que a Banda de Música Theodoro de Faria tem como objetivos, a preservação, difusão, execução e ensino da Música em geral. “É uma Escola de Música gratuita onde forma e aperfeiçoa seus próprios músicos, oriundos de todas as camadas sociais, sem distinção de raça ou credo”, afirma. 

Localização: Rua Santo Antônio, 289 - Centro.

A Música Setecentista em São João Del-Rei

São João del-Rei é uma cidade de fortes tradições, além das solenidades religiosas e dos sinos, a cidade mantém viva a música sacra preservada por suas bicentenárias orquestras. Sua história é marcada pela existência de duas orquestras principais, a Orquestra Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos.
                                                                                        Divulgação
Orquestra Ribeiro Bastos nunca parou suas atividades

Estas sobrevivem até os nossos dias, mantendo-se em permanente atividade desde o século XVIII, ainda executando a música sacra promovida pelas irmandades locais. As corporações são a Orquestra Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos, ambas sucessoras de grupos musicais criados em meados do século XVIII.

Os dois grupos atuaram sempre de forma complementar, dividindo entre si as funções musicais das irmandades religiosas e do Senado da Câmara. Mas a convivência nem sempre foi pacífica, resultado de uma natural e saudável disputa.

Rua Santo Antônio

A tradição oral indica que se trata da rua mais antiga de São João del-Rei. O nome originou-se com a construção da Capela de Santo Antônio. Conserva o mesmo nome até hoje. Representa o caminho dos Bandeirantes e é conhecida também como a "Rua das Casas Tortas". 

A rua é famosa por sua sinuosidade, uma vez que nesta rua (na época uma trilha) chegavam as tropas de mulas na cidade. Na rua, além do casario barroco, bem conservado, existe a sede da Banda Municipal Theodoro de Farias e as bicentenárias: Orquestra Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense, fato que explica a musicalidade do povo desta cidade. 

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