sábado, 12 de novembro de 2011

Humor e Imprensa ontem e hoje

André N. P. Azevedo
Reinaldo Figueiredo, Ricky Goodwin e Ziraldo falam sobre o humor na imprensa.

Walquíria Domingues

As teses de Ziraldo encheram de risos e reflexões o auditório do Conservatório Estadual de Música Pe. José Maria Xavier, no dia 11 de novembro, e foram compartilhadas no palco juntamente com Reinaldo Figueiredo, um dos fundadores do tablóide O Planeta Diário e integrante do grupo Casseta & Planeta, e Ricky Goodwin, jornalista há 43 anos e especialista em Humor, que integrou a equipe do Pasquim por 13 anos. A conversa, que tratou de falar do humor na imprensa entre 1964 e 2011, fez parte do Festival de Literatura de São João del-Rei, FELIT, que aconteceu entre os dias 9 e 13 de novembro, no centro histórico da cidade.

A plenária se iniciou com os convidados relembrando a época da ditadura militar, em que os cartunistas se tornaram chargistas, cenário do nascimento do jornal O Pasquim, semanário brasileiro, conhecido pela forte oposição ao regime militar, que durou 22 anos. A charge, instrumento humorístico altamente crítico-político, ganhou espaço na imprensa durante o regime. “Sempre que a tirania se estabelece, as pessoas começam a atacar a tirania com o humor. Daí surge o Pasquim, em plena ditadura”, conta o escritor Ziraldo.

Ditadura militar x Ditadura econômica
Certo de que aqui no Brasil os cartunistas, desenhistas e chargistas eram autodidatas, e que passaram bem longe das escolas de belas artes, Ziraldo conta que sua escola e a de seus colegas era assinar as revistas brasileiras, como O Cruzeiro, e até mesmo O Pasquim. Com relação ao periódico, que podia ser fechado a qualquer momento pela censura do regime, apareceram muitos jovens interessados em ingressar no mundo do “bom humor”. Foi assim que Ziraldo e a equipe do Pasquim (Jaguar, Millôr Fernandes, Fortuna, Henfil, Ivan Lessa, Paulo Francis, dentro outros grandes nomes), conheceram Reinaldo Figueiredo. “Nós levamos um ano pra ouvir a voz dele”, brinca Ziraldo, que apesar de revelar a timidez de Reinaldo, o considera um dos responsáveis por reinventar o humor na televisão, com o Casseta & Planeta.

Com relação ao humor e à TV, surgiram muitas críticas. “A TV não cria tendência, ela que domina tudo”, arrisca Ziraldo, que ataca com mais precisão a Rede Globo: “A TV Globo não cria inteligência. Como dizia Millôr: escreva seu texto para o leitor mais inteligente. Mas a TV diz: faça seu texto para o telespectador mais burro”, critica o escritor. Ainda enfurecido pelo humor ruim na televisão brasileira, Ziraldo arranca risos do público ao falar dos atuais programas humorísticos: “O Zorra Total consegue ser pior que a Praça É Nossa, e tenho vontade de mandar matar os Caras de Pau”, brinca.

O escritor e desenhista reclama que o humor da ditadura era um humor inteligente, e que o público prezava pela criatividade da criação, mas que hoje não é mais assim. Ainda sobre o Pasquim, Ziraldo se orgulha em dizer, depois da plenária, que o periódico mudou a linguagem do jornalismo e do humor brasileiro, e foi um alento para as pessoas da época. “Em vez de a gente ficar em casa se queixando, a gente foi à luta, a gente foi protestar, discordar, a gente foi correr risco”, diz. O que falta hoje para o país é isso, e a “tese” de Ziraldo foi aprovada pelos convidados Reinaldo e Ricky Goodwin.

Humor Bom x Humor Ruim
O jornalista e especialista em humor Ricky Goodwin indaga se o humor hoje está decadente ou diferente, e se não vem sendo censurado pela ditadura econômica e pelos grandes donos da mídia. Mas Reinaldo Figueiredo acredita que, apesar de sempre haverem impasses com relação ao humor, com a democracia e a liberdade, aumentaram a probabilidade de surgir muitas coisas ruins. Um dos fundadores do O Planeta Diário, Reinaldo prefere acreditar que “o que falta é a educação do público, pra saber dizer o que é humor bom e o que é humor ruim”, diz.

Ele relembra algumas capas históricas do jornal mensal humorístico, que fez surgir o Casseta Popular, depois transformado em Casseta & Planeta. “Presidente está indo longe demais: depois da China, Sarney vai à merda”, e “Brasil aliviado: Tancredo já está cagando e andando”, levantaram risos do público da plenária, que tiveram a oportunidade de ouvir a história das manchetes, que só podiam existir, é claro, depois da abertura do regime militar. “No Planeta Diário nós fizemos um ‘teste-drive’ da democracia, com manchetes meio absurdas”, recorda Figueiredo.
 

Capa de O Pasquim, de 1971
Com a bela frase de que “fora do livro não há salvação”, Ziraldo faz várias críticas ao uso indevido da internet, estas apoiadas por Figueiredo. “Na internet tem uma quantidade absurda de coisas ruins. Mas você não pode coibir os caras de fazer piada ruim, você pode só comentar, criticar. Isso está dentro do jogo da democracia”, explica Reinaldo. É preciso saber ir até onde o bom conteúdo está. “Mas quantos por cento dos usuários vão atrás dessas informações?”, lamenta Ziraldo. Infelizmente, o conhecimento, hoje ao alcance de todos, não é procurado pela maioria das pessoas, inclusive pelas que tem acesso à internet. Dentro do humor, a busca pelo melhor também deve acontecer. “A piada de mau gosto vai existir sempre, e quanto mais tivermos liberdade, mais vão existir coisas em quantidade, e quantidade e qualidade não é a mesma coisa”, avalia Reinaldo.

Com relação a esses tipos de manchete, Ziraldo também se lembra de uma capa do Pasquim que causou alvoroço na época. “Todo paulista (que não gosta de mulher) é bicha” foi uma manchete que fez esgotar em poucas horas toda a tiragem daquela edição do jornal. Ziraldo conta que ao ler que todo paulista é bicha, em letras garrafais, o leitor se indignava tanto que não via a minúscula informação entre a frase, que a fazia ter sentido. Foi esse tipo de humor que enfrentou o regime e fez surgir grandes nomes da arte, da charge e do jornalismo brasileiros. “A gente parecia ser muito corajoso”, brinca Ziraldo.

Conhecimento, humor e educação
Preocupados com o rumo que a população brasileira está tomando com relação à educação, a conteúdo e à procura de conhecimento e informação, os convidados levantaram uma rica discussão. “Enquanto você não transformar o Brasil num país de leitores, não há esperança de mudar”, inicia Ziraldo, que continua dando conselhos “Se não passar pelo livro, não chega à internet inteiro. Se as crianças gostassem de ler, elas aprenderiam o resto com o pé nas costas”, diz.

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