quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A hélice de dois gumes


Walquíria Domingues
Divulgação/ Beatriz Lefèvre
Elvira, o Liquidificador e as tragédias humanas
“Gosto de meter as hélicesnas palavras e nas idéias”, diz o protagonista de “Reflexões de umLiquidificador”. A frase, que soa poética, vem do próprio liquidificador, noúltimo longa-metragem de André Klotzel. O renomado cineasta brasileiro, de “AMarvada Carne” (1986) e “Memórias Póstumas” (2001), esteve no último dia 30visitando os alunos de Comunicação Social da Universidade Federal de São Joãodel-Rei (UFSJ) para exibição do filme e umbate-papo após a seção do longa. Convidado pelo coordenador do curso deComunicação Social, Jairo Faria Mendes, o produtor e diretor de “Reflexões de um Liquidificador”compartilhou várias idéias a respeito do filme e do mercado cinematográfico.
André N. P. Azevedo
André Klotzel, produtor e diretor
O último longa de AndréKlotzel, carregado de humor ácido e de bons atores, retrata bem o trabalho deuma das revelações do cinema independente brasileiro dos anos 80. “Eu querosempre fazer um filme que eu gostaria de assistir”, diz Klotzel. Isso explica oporquê do diretor e produtor não ter sido desta vez também o roteirista, comoocorria em seus trabalhos anteriores. Mesmo acreditando que é muito difícil terempatia com o roteiro, o de “Reflexões de um Liquidificador”, de José Antôniode Souza, encantou Klotzel logo de início. “Gostei do tom de fantasia misturadocom o tom de realidade”, diz.

O filme, que custou doismilhões de reais, teve a história embasada na vida de uma dona de casa, Elvira (Ana Maria Torre), e de seu liquidificador (Selton Mello), que ganha vida apósa troca de hélices e começa a reclamar a certa altura da capacidade que tem deentender a tragédia das pessoas. Segundo Klotzel, “são poucos elementos, poucoslugares, elementos muito típicos”. Um bom exemplo é a casa, usada como principallugar do longa, que foi escolhida a dedo, por ter o perfil dos personagens Elvira e Onofre (Germano Haiut), e de seu estilo de vida, pacato, velho,atrasado.

O aparelho doméstico,porém, foi o que deu mais trabalho. O antigo modelo Walita teve sua cúpulaaumentada e foram usados três liquidificadores, com três motores diferentes.“Um deles vibrava, outro era um motor normal e o outro era um motor elétricoque não fazia barulho, mas que ajudava no diálogo que devia ocorrer para a Ana Maria Torre saber o momento de atuar”, diz André Klotzel. O protagonista dahistória surreal ligava e desligava sozinho, a distância, eram alteradas suasvelocidades e “como tínhamos que fazer um tape atrás do outro, tínhamos 30 copos deacrílico iguais”, conta o cineasta.

As cenas, transitando sempre do horror para o cômico foram trabalhadas com muito cuidado. O que Klotzel queria desde o início era que os momentos trágicos não se tornassem patológicos, um típico filme de terror. Por isso, como no momento em que Elvira tritura o corpo de Onofre no liquidificador, a música foi “claramente leve”,como explicou o cineasta. O filme tentou, de certa forma, trabalhar com osentimento das pessoas, não banalizar o trágico e ter uma leve ponta de humor.Afinal, como diz o liquidificador, “o sentimento humano é uma hélice de doisgumes”.

O evento
André N. P. Azevedo

Um assunto muito abordadona conversa entre Andre Klotzel e os alunos foi sobre o mercadocinematográfico, suas limitações e dificuldades. Para o cineasta, se nãoexistir lei de incentivo à cultura no Brasil, não existe cinema. “E não é só noBrasil, mas também na Europa e na América Latina como um todo”, lamentaKlotzel, que conta como o cinema americano toma conta do mercado mundial, numaparcela de 80%. Ele deu um exemplo claro de como o cinema independente está comdificuldades de expansão no país. “O Tropa de Elite teve 12 milhões deespectadores. O meu filme teve 30 mil espectadores. A disparidade é imensa”,diz. Mas há o lado positivo, já que paralelamente aos longas, está a expansão domercado audiovisual, que é imensa, segundo Klotzel.

Os cursos de cinema sãohabilitações em Comunicação e a comunicação deve ser vista de forma integrada,de acordo com Jairo Faria Mendes, que julgou a presença de Klotzel muitoimportante para o curso que coordena. “Além disso, com as novas tecnologiastodas as pessoas podem produzir filme. Por isso, os alunos de comunicação têmque estar acompanhando a produção cinematográfica e precisam conhecer bem oprocesso de realização audiovisual”, diz.

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