quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A solidão e as panelas


André N. P. Azevedo                                                                                                                                                                                                                                                                             André N. P. Azevedo
D. Anita da Silva Valim
O que é a solidão? D. Anita da Silva Valim vive sozinha desde que se tornou viúva há oito anos. Em sua casa, que fica no centro histórico de São João del-Rei, as paredes feitas de adobe estão caindo e a única fonte de luz vem da janela que dá para a rua. Imagens de santos completam a simples decoração do lugar que possui panelas em todos os cantos. Não importe onde os olhos apontem, as panelas estão lá e são sua única companhia, junto com um gatinho vira latas.

D. Anita é paneleira. A arte de consertar panelas foi aprendida com seu falecido marido João da Conceição Valim. “Meu marido era funileiro, paneleiro e eletricista, era muito requisitado, por isso eu ajudava no conserto das panelas, depois que ele morreu eu continuei com a profissão”, conta D. Anita, enquanto bate, com uma força impressionante para uma senhora de 86 anos, as panelas com um martelo, para desamassá-las. 

A rotina de D. Anita começa às 7 horas, quando ela sai para fazer compras. “Faço compras todos os dias porque sempre preciso comprar alguma peça para as panelas, então aproveito para comprar verduras e a ração do meu gato”, explica D. Anita, que apesar de ter dois filhos e ser madrasta de outros sete, convive apenas com seu gatinho de estimação. O fato de viver sozinha não a incomoda. Muito pelo contrário. “Gosto de viver assim, em paz, sabe?”, confessa.
                                                                                                                                   
Paz. É incomum alguém nos dias atuais afirmar que vive em paz, mas não fica difícil entender D. Anita, que trabalha há 20 anos no mesmo lugar, fazendo sempre a mesma coisa. Com uma profissão quase extinta, além de ser basicamente classificada como um trabalho para homens, já que desamassar, martelar e parafusar é um serviço muitas vezes pesado, mas nas mãos de D. Anita, ganha graça e beleza. Vê-la trabalhar enquanto cantarola músicas antigas realmente transmite a tão desejada paz.                                                                                                                                                                                                                                                                      André N. P. Azevedo
D. Anita vive da arte de consertar panelas há 20 anos

D. Anita faz seu trabalho com dedicação. “Eu também sou cozinheira, por isso conserto as panelas como se fosse para mim. Toda cozinheira tem a sua panela predileta e normalmente são essas que as pessoas trazem para consertar, por isso não gosto de atrasar a entrega”, explica.

A paneleira de São João del-Rei vive do conserto das panelas e ganha o suficiente para levar a vida, e com a simplicidade do seu dia-a-dia responde, afinal, o que é a solidão. Para D. Anita, solidão pode ser felicidade. “Gosto muito do que faço, por isso nunca pensei em fazer outra coisa. Sou feliz assim.”

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