segunda-feira, 20 de junho de 2011

Costurando histórias


Cláudia Simões
Cláudia Simões
Enny Ramos: alegria e talento na mesma medida 
Costurar é muito mais, que unir pontos de agulha, sobretudo em Minas, onde o ofício preservado de geração em geração, agregou valores do bordado, da pintura e de toda forma de artesanato para se tornar único. É essa diversidade mineira na forma de ver e sentir o mundo, traduzindo-o convicções próprias que alimenta o que é uma das mais prósperas linguagens de Minas: a moda.     

Fruto da observação, da sensibilidade e da criatividade aliadas à técnica, a moda é hoje uma das mais fortes expressões artísticas de Minas. O seguimento que movimenta a economia, gera milhares de empregos e ganha as páginas das revistas especializadas, nasceu das mãos que fiam e tecem, tingem e bordam, costuram. Mãos que trabalham e transformam a matéria simples em obra de arte que encanta os sentidos.

Costureiras, com muito orgulho

Comprar o tecido, os aviamentos, dar asas à imaginação: quem, sobretudo do sexo feminino, nunca viveu essa aventura? A arte de costurar – dádiva dos escolhidos – fascina, encanta e se destaca através dos tempos, na riqueza do ofício, na arquitetura dos moldes, na mágica do resultado.
                                                         
Dediquei minha vida à costura e quero continuar, até quando Deus me permitir. Minha maior alegria é ver a satisfação da cliente ao provar a roupa feita por mim” diz a veterana Enny Ramos, 62, 40 dos quais costurando profissionalmente. Órfã aos sete anos, Enny conta que aos 10 já costurava à mão as próprias roupas, acreditando ter herdado o dom da mãe costureira. Vinda da Colônia do Giarolla, foi morar na cidade com D. Irene Ferreira de Almeida que a matriculou nas aulas de corte e costura para se aperfeiçoar.  Sobre o que mais gosta de costurar, não tem dúvidas: Gosto de fazer roupa bonita”, diz.

Artista das mais versáteis e talentosas, Enny mantém cativa uma clientela fiel que não abre mão de seu trabalho. “Sou cliente da Enny onde quer que ela esteja”, enfatiza Aline Rusnam, referindo-se às mudanças de endereço do atelier. “Além da excelência do trabalho, o melhor de Enny é o entusiasmo, o alto astral, o brilho nos olhos, além da paciência.

Mãe do maestro Marcelo Ramos, doutorando em regência nos Estados Unidos, Enny conta que uma de suas maiores alegrias foi fazer a casaca com que o filho caçula regeu em BH seu primeiro concerto como titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais (OSMG). “Foi como se a casaca me desse a confiança e a força que eu tanto precisava naquele momento”, avalia Marcelo, em visita a SJDR no mês de maio, onde lançou o CD comemorativo pelos 80 anos da Sociedade de Concertos Sinfônicos.

Para honrar os compromissos assumidos, muitos natais e aniversários da família ficaram sem a dona da casa, sem tempo sequer para assar um peru ou cantar parabéns para os filhos, relembrou Enny. Ela  também fez questão de falar de alegria, como tantos carnavais vitoriosos com fantasias de sua autoria na Escola de Samba São Geraldo; as roupas de santo para as procissões da cidade; os figurinos para teatro e ballet, trajes de misses, de formandas, de noivas e damas de honra. “Do atelier da Enny, a roupa já sai abençoada”, entusiasma-se Bosco Canaveze, carnavalesco e amigo de longa data.

Nilda Maria Tavares Gomes, mineira de Prados é dessas profissionais que o tempo não ofuscou o brilho, ao contrário, tratou de lapidar. Aos 73 anos, 60 dos quais dedicados à costura, é puro vigor e entusiasmo quando o assunto é roupa, tecido, moda e suas histórias. E continua costurando. “Para mim nunca faltou trabalho”, informa ao ser questionada sobre a automatização das confecções.   
                                                                                     Cláudia Simões
Nilda Maria: domínio artístico e tecnológico
Neta de alfaiate, avó e mãe costureiras, trouxe do berço o refinamento para o ofício. Estilista autodidata de raro talento, apurou o dom e ao longo de décadas cumpriu uma trajetória marcada pela minúcia e persistência, tão necessárias a arte de criar e costurar.

“Aos 13 anos já costurava em Prados e aos 15 fui para São Paulo. Lá aprendi o “Corte Orione” e fui trabalhar na Confecção Nassim Basil, no centro. Até hoje não parei mais”, acrescenta com orgulho de olhar para trás. “Pego um tecido, retalhos, rendas – adoro renda - e já vejo a roupa pronta, conta, enquanto exibe sacos e sacos de retalhos e histórias.

Foi com essa criatividade que transborda que chegou a Belo Horizonte e ganhou a confiança da alta sociedade da capital. “Foi D. Zizi Caldas, filha do juiz de Prados e casada com o médico Alexandre Caldas, que me apresentou às melhores famílias de Belo Horizonte. Costurei na casa de todos, até do governador Milton Campos”, recorda. Chamada para trabalhar em grandes confecções e ateliês, nunca aceitou.

“Preferia minha liberdade. Cada dia na casa de um. Tomava banho, almoçava, me tornava uma pessoa da família” relembra. Essa profissional da costura que fazia roupas sob medida para as famílias abastadas não existe mais, mas era comum nos anos 60, 70 e até 80.  “Algumas dessas profissionais até moravam com a família, recorda a são-joanense descendente de libaneses Zoé Mansur, que viveu os anos dourados em plena juventude.

“Nossa família tinha a Olívia, que morava conosco e fazia todas as roupas da casa, até roupas de cama. Minha mãe comprava tecidos em peça, escolhíamos os modelos através de figurinos franceses comprados no Rio de Janeiro e a Olívia executava tudo à perfeição. Parece que se passaram 100 anos”, comenta.

Como Olívia e Nilda, São João del-Rei era pródiga em artistas anônimas, guerreiras na batalha diária de produzir o maior número de peças possíveis. Sozinhas, faziam com louvor todas as etapas do trabalho, da criação ao acabamento, passando pela embalagem e controle de qualidade. Arrimo de família, como se dizia na época, as histórias de vida se pareciam, se entrelaçavam.

A costura garantia o sustento da família, sem tempo para o descanso. A sala e o quarto transformados em local de trabalho e o entre sai da freguesia, sempre bem-vinda. Busco da memória e vejo muitas: Áurea, Almerita, Hilda, Cidinha, Haidèe, Geny, Helena, Maria, Malvina, Mercês e tantas outras. Este texto é dedicado a estas artistas – as costureiras – e sua arte sem fronteiras – a costura. Para honra e glória dos mineiros.

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