quinta-feira, 19 de maio de 2011

Grupo promove atividades para resgatar cultura negra


Thamiris Franco                                                                                                        Arquivo Pessoal

Raízes da Terra realiza apresentações em prol da conscientização 


Desde 1994, existe em São João del-Rei o Grupo de Inculturação Afro-descendentes Raízes da Terra, cujo o objetivo é valorizar a cultura negra, levantar a auto-estima dos participantes e resgatar a tradição do povo negro são-joanense. Para alcançar tais objetivos, os participantes do grupo promovem palestras, eventos de conscientização cultural, além de reuniões semanais. Atualmente, não possui uma sede própria e funciona na casa da presidenta Vicentina Neves Teixeira, no bairro São Geraldo.

Vicentina Neves explica que o Raízes da Terra surgiu a partir do Grupo Moscabe, o único que tinha em São João del-Rei de inculturação. Eles faziam reuniões para promover a consciência negra no bairro do Tejuco. Vicentina se interessou pelo trabalh, então eles a convidaram para participar e fundar um núcleo no bairro São Geraldo. Ela contou também com o apoio da Associação de Congado Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário, que ajudou a fortalecer o grupo e até hoje existe essa parceria, sendo assim já está há 17 anos ativo.

O grupo já chegou a chamar Consciência Negra, mas após participar de uma palestra, Vicentina percebeu que consciência não tem cor e que na verdade existem pessoas de cor, conscientizadas. Então foi feita uma assembléia entre os participantes do grupo e da associação, que juntos decidiram o atual nome. Vicentina explica: Afro-descendentes, porque eles fazem parte da terceira geração de negros que vieram para o Brasil e Raízes da Terra, pois eles estão procurando suas raízes em São João del-Rei. “Queremos fazer nossa história aqui, embora vamos a outras cidades da região que nos convidam para promover eventos e palestras, mas temos que ter nosso alicerce. Nossa raiz é aqui, pois muitas das vezes as pessoas estudam a história afro do Brasil, da América, mas não sabem a do seu bairro, da sua cidade”, diz Vicentina.

A associação e o grupo procuram se aperfeiçoar por meio de participação em congressos, seminários, reuniões com profissionais que possuem um conhecimento amplo sobre o assunto e também por meio de pesquisas sobre as tradições negras de São João del-Rei; pois só assim terão condições de fazer um bom trabalho de conscientização principalmente com as crianças, informa Vicentina.

De acordo com a tesoureira Efigênia Vicentina Neves, mais conhecida como Genica, o trabalho com as crianças é o mais importante. “Ninguém nasce racista, a sociedade, o convívio que tornam as pessoas racistas, por isso procuramos fazer um trabalho de sociabilização e desde cedo conscientizar as crianças de aceitar as diferenças sociais”.

Nivaldo Neves, presidente da Associação de Congado e participante do grupo desde a fundação conta que o trabalho com as crianças é de reeducação. “Antigamente, nós tínhamos uma sede própria, pois recebíamos o apoio de padres e de irmãs do Instituto Auxiliadora, então promovíamos curso de pintura, escultura e costura e assim reeducávamos as crianças e levantávamos sua auto-estima. Porém, com a transferência dos padres e das irmãs, ficamos sem uma sede própria, então nossas atividades são limitadas, mesmo assim procuramos levar o trabalho de conscientização para as crianças, principalmente por meio de palestras nas escolas”, diz.

Vicentina informa que o Raízes da Terra também conta com um grupo de percussão e de dança, que toca ritmos afro-descendentes, por meio de instrumentos como o atabaque, alfaia, bongo, afoxé, dentre outros. As músicas são carregadas de significados culturais e religiosos. O figurino é típico, por exemplo: saias rodadas, flor no cabelo ou o uso do turbante e os meninos utilizam camisa colorida e calça branca. O grupo faz as apresentações em eventos culturais da cidade.

Nivaldo conta que o motivo pelo qual passou a fazer parte do grupo é o fato de poucas pessoas trabalharem com a cultura negra. “Eu ao ter consciência de que a cultura negra estava esquecida, morrendo, resolvi fazer um trabalho para resgatar as tradições e levantar a auto-estima do povo afro-descendente, principalmente das crianças, pois hoje em dia nas escolas os professores não estão reiterados a falar sofre a cultura negra, então muitas vezes as crianças sofrem preconceitos. Elas são menosprezadas por outros que vê o movimento negro como de macumba, ficam triste, aborrecidas, dispersas. Então tenho que fazer esse trabalho de que o negro é bonito, tem valor e é importante para nossa sociedade como qualquer outro povo”, afirma.

Todo ano, no dia 13 de maio, dia da Abolição da Escravatura e no dia da Consciência Negra, 20 de novembro, o grupo realiza atividades em prol dessa conscientização, por meio de apresentações de dança, comidas típicas, palestras e apresentações teatrais, informa Nivaldo.

Hoje o Raízes da Terra conta com cerca de 30 membros de diferentes gerações. Qualquer pessoa que esteja disposta a colaborar e a ajudar, além de participar frequentemente das reuniões pode entrar para o grupo. Para Vicentina, a maior dificuldade encontrada é a falta de verbas e de ajuda do poder público. Ela diz que no futuro pretende construir um Museu do Escravo que contará a história da escravidão em São João del-Rei e região, através de pesquisas realizadas, documentos e fotografias.  

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