quarta-feira, 6 de abril de 2011

Primeiro acervo de livros se despede de Santa Cruz


Anna Júlia Silveira
Walquíria Domingues
                                                                                                                                                    André N. P. Azevedo
Livros esquecidos montam o cenário da biblioteca J.S. Laudares Gulpilhares

Contam alguns historiadores que a Antiga Biblioteca de Alexandria foi uma das maiores do mundo, porém só até a Idade Média, quando foi praticamente devastada por um incêndio. Durante sua visita em Alexandria, Júlio Cesar, o grande líder político e militar romano, acidentalmente queimou a biblioteca, quando incendiou seus próprios navios a fim de frustrar a tentativa de Achillas de limitar a sua capacidade de comunicação por via marítima.

Os dois fatos não têm ligação alguma, mas, por ironia do destino, outro Júlio Cesar tem uma relação bem estreita com a vida de uma biblioteca. No menor município do Brasil, Santa Cruz de Minas, se não um grande líder político, nosso Júlio César é um nobre idealizador e ator social, que somente com 12 anos de idade fundou, em 2005, a J.S. Laudares Gulpilhares, única biblioteca de sua cidade.

O amor pela História Clássica e pelos livros, e a falta de recursos para leitura em Santa Cruz de Minas, fez com que o pequeno Júlio Cesar, hoje com 17 anos e estagiário do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), fundasse uma biblioteca. Com apenas 10 metros quadrados e inicialmente com 300 livros, o acervo era principalmente de livros de receitas e obras repetidas, e Júlio Cesar as vendia ou trocava em sebos de São João del-Rei, cidade vizinha. A biblioteca também contou muito com doações. Foram tantas que chegaram a ser de 50 obras por dia, depois da inauguração “com direito à cerimônia e fita vermelha para ser cortada”, relembra Maristela, mãe de Júlio César. O acervo foi crescendo, e atingiu 15 mil exemplares, variados em literatura, religiosos, dicionários de várias línguas, inclusive Latim, enciclopédias, livros didáticos, quadrinhos e até mesmo algumas fitas VHS e fitas com gravações de Tancredo Neves em 1985.

Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e outros imortais da literatura brasileira se espremiam com outros autores nas prateleiras do pequeno espaço do quintal da Casa dos Laudares Gulpilhares. Com ajuda da mídia são-joanense, de amigos e vizinhos, o menino e sua família conseguiram fazer um “puxadinho”, e ganharam mais alguns metros e algumas estantes. Uma das doações foi feita pela escola Fundação Bradesco, de São João del-Rei, que após uma grande reforma em sua biblioteca, cedeu algumas estantes antigas de metal para a J.S. Laudares Gulpilhares.

Mais duas estantes foram construídas com o dinheiro das fichas de cadastro da biblioteca, que custavam R$1,00. Esta sempre foi a única taxa cobrada. O dinheiro também era útil para a troca de lâmpadas e concerto das estantes e prateleiras, ou até mesmo para a compra de novos exemplares para o acervo. Nelson Laudares Gulpilhares, pai de Júlio Cesar, conta que eles também compravam lápis, papeis, réguas e borrachas, e deixavam à disposição das crianças. “Elas vinham estudar e fazer pesquisa, mas não tinham nenhum material, então nós deixávamos os papeis e lápis para que elas pudessem usar a biblioteca e estudar”, diz.

As crianças, em sua maioria, eram vizinhas do bairro, e tudo acontecia de maneira informal: as pessoas chegavam e tocavam a campainha e quem estivesse em casa atendia e as recebia. A biblioteca chegou a atender cerca de cinco usuários por dia. Alguns eram leitores assíduos, como o aposentado Ornei Olavo de Souza, hoje residente do Estado do Espírito Santo, que toda semana lia cinco grossos volumes, e o senhor Alvimar, que leu quase todos os livros espíritas do acervo, que são muitos, mas que “anda meio sumido”, lamenta Julio Cesar.

Apesar da triste e relevante decadência, Julio ainda recorda da primeira pessoa a alugar um livro. A usuária número um foi sua vizinha, Iris Cristiane de Castro, que sempre quando pode ainda aluga alguma obra. “Eu lia demais, 3 a 4 livros por semana, mas como comecei a trabalhar, não tenho tempo como antes. A criação da biblioteca foi ótima, pois eu passei a ter onde buscar outros livros. Eu pedi muitas doações, e até mesmo doei meus próprios livros para ajudar”, relembra a leitora.

A belíssima iniciativa de trazer para uma comunidade humilde a nobreza da leitura e do sede pelo conhecimento, fez com que crianças que nunca tinham lido um livro se apaixonassem pela leitura no pequeno cômodo abarrotado de livros. “Vários meninos e meninas que nunca tinham lido um livro, chegaram a se tornar assíduos freqüentadores da Biblioteca Comunitária” conta Maristela. Mas, infelizmente, na situação em que se encontra hoje, a biblioteca comunitária está perto do seu fim. Além da pouquíssima procura pelos livros, que hoje não chega nem a dez alugueis por mês, falta tempo para a família Gulpilhares se dedicar a biblioteca. Alguns livros já foram doados, principalmente para a Escola Municipal Luzia Ferreira, de Santa Cruz de Minas.

O acervo atual se encontra abandonado, muito empoeirado. Alguns livros têm traças, outros estão fora das prateleiras e em pilhas no chão e as fichas de cadastro e alugueis estão espalhadas, em cima de uma velha Remington. Juntas, hoje, as obras não somam mais que 6 mil exemplares. A família procura alguma maneira de imortalizar a ação social, e vê como melhor alternativa doar os livros para que eles ainda sejam utilizados pela população santa-cruzense. A vizinha Íris lamenta que “se a Laudares Gulpilhares realmente fechar será uma grande perda para Santa Cruz.” Ela também pede ajuda à prefeitura, que “poderia ajudar com alguma verba ou ceder algum local onde os livros fossem mantidos sob cuidados e continuassem à disposição da população de Santa Cruz”.

O prefeito da cidade, José Antônio dos Santos, conhecido como Zezé, explicou que já chegou a visitar a biblioteca quando ainda não era prefeito, e que fez doações de algumas obras e coleções, mas que não é possível para a prefeitura colaborar com um prédio, verba ou funcionários para a biblioteca. “A prefeitura não pode fazer nada por eles, tendo em vista que lá é particular”, explica sucintamente. Apesar disso, a família Gulpilhares conta que, em época de campanha eleitoral, “vinham muitos candidatos ao cargo de vereador fazer propostas para ajudar a biblioteca”, conta Júlio César, mas eles, porém, nunca foram beneficiados.
                                                                                                                                      André N. P. Azevedo
Biblioteca J. S Laudares Gulpilhares chega ao fim 
Embora seja dito pela prefeitura que não se pode ajudar a ação dos Laudares Gulpilhares, o prefeito Zezé avisou que atenderá de alguma forma o pedido da vizinha e freqüentadora da Gulpilhares, Íris. Será inaugurada a Biblioteca Pública Municipal de Santa Cruz de Minas. ”Está para ser inaugurada na Rua Juvenal Chaves, 202. Já temos cerca de dois mil livros que vieram embalados da Biblioteca Nacional”. Ele abre as portas da biblioteca pública para o acervo Gulpilhares, que foi importantíssimo para a educação e implantação da leitura na vida da comunidade santa-cruzense. “O que nós podemos verificar é a possibilidade deles doarem este acervo para a nova biblioteca pública municipal, que poderá ser usada por todos”, diz.

Um comentário:

  1. existe alguma verba para as prefeituras ajudar a população?

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