quinta-feira, 28 de abril de 2011

Comandante Zezinho Fidel


Mariana Fernandes
                                                                                                                                       Mariana Fernandes
Comandante Zezinho imita Fidel Castro até no hábito de fumar charutos

Em 1959 o Movimento 26 de Julho, liderado pelo comunista Fidel Castro, derrubou o ditador Fulgencio Batista, do Governo Cubano. Inicialmente armada, a Revolução Cubana ganhou, posteriormente, a atenção da mídia internacional e a simpatia de adeptos pela ideologia anticapitalista e antiamericana. Hoje, após mais de 50 anos, ainda encontramos parte dessa história em diferentes locais e situações. Seja em propagandas utilizadas pela própria indústria capitalista, que estampa, em marcas e roupas, as figuras dos líderes comunistas, ou na defesa de um sonho idealista, que pessoas de todo o mundo representam sua admiração por esses ícones revolucionários. E foi na pequena cidade mineira, Resende Costa, que encontrei um desses militantes, Zezinho, um sósia do Fidel Castro.

Uniforme e quepe militar verdes, charuto aceso e barba a La Fidel, foi assim que encontrei José Ramos, o Zezinho, para a entrevista de um documentário que realizei na pacata cidade de artesãos. O comandante me convidou para uma conversa em sua casa e, como dois bons mineiros a nossa prosa terminou na cozinha. Fiquei surpresa quando me deparei com vasilhames espalhados por todos os lados da cozinha e, em um deles, um criadouro de minhocas. Vendo o meu espanto, logo Zezinho tratou de me apresentar aquele projeto.

Zezinho explicou, com as mãos cheias de terra, que é minhocultor e que vende o húmus da minhoca como fertilizante. Explanou que tem muita preocupação com a contaminação dos solos e da água pelo uso excessivo de agrotóxicos. “A minha preocupação é com a alimentação e a água do planeta, por isso o projeto do húmus. O futuro do planeta é a água e, Fidel também já pensou sobre isso. Perguntaram se ele queria ser presidente do Brasil e ele disse que não, só do Ceará, porque ele sabe do lençol freático que tem lá. E outra coisa, em Cuba se a pessoa estudou ela vai exercer aquela profissão, mas na hora de folga ela não vai ficar dormindo em casa não, vai pra roça plantar milho mesmo”, diz o comandante dando uma bela gargalhada.

Estava envolvida com aquela idéia de minhocultura e admirando o mecanismo manual que Zezinho inventou para lacrar o saco plástico, evitando assim de comprar uma máquina elétrica que custa cerca de 300 reais, quando o comandante me leva a outro cômodo. Ao lado de sua casa, uma garagem enorme, cheia de plástico e papelão. “Acordo de madrugada para recolher, com minha carrocinha, o lixo de Resende Costa. Já me chamaram de catador de lixo, mas eu não ligo. Se cada um fizer sua parte o problema vai solucionar”, diz ele, com os olhos lacrimejando. Zezinho conta que já retirou mais de uma tonelada de lixo da cidade e que vende para uma usina de reciclagem em Juiz de Fora. 
                                                                                Mariana Fernandes
Zezinho Fidel: preocupação com o meio ambiente
Mas esse homem cheio de ideologias ambientalista, política e social, se transforma durante o carnaval. Vestido de palhaço, Zezinho comenta emocionado: “Visto de palhaço há 50 anos e organizo o bloco das criancinhas”. E ele ainda encontra tempo para escrever, fico novamente surpresa. Zezinho mostrou seu caderno, onde está escrevendo, desde 1998, a história de Resende Costa. Escreve, também, piadas e narrativas de jogos de futebol. Como um radialista, Zezinho narrou um jogo que aconteceu na cidade e, esta parte comédia da entrevista foi diretamente para o meu documentário.


Inverti a ordem das perguntas e questiono a ele, por último, sobre o início dessa história de ser sósia do Fidel há mais de 20 anos. “Sou partidarista do Fidel porque o meu pai, que foi vereador de Resende Costa, era um homem já de idéias revolucionárias e deu trabalho na câmara. E aprendi com ele, também, a ser palhaço. E depois eu comecei a ler livros sobre Fidel”, diz Zezinho tragando seu charuto. O comandante levanta-se para mostrar, com muito orgulho, a motocicleta que comprou. “Vou aprender a dirigir, tirar carteira e, em janeiro de 2012 vou conhecer Cuba, sozinho. Só não sei se volto”, comenta Zezinho e, fica em silêncio por um longo tempo. Esta foi a última cena da entrevista: uma moto moderna guardada na sala de uma casa humilde, à espera do próximo capítulo de um sonho que não envelhece. E é esta a revolução mais importante que o comandante Zezinho Fidel deixou na minha lembrança.

Um comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...