domingo, 20 de março de 2011

Zulei, um elogio à natureza

Thayná faria
Rafaella Dotta
             Ana Gabriela
Zulei Bassi é uma senhora são-joanense que prefere ser tratada por “você”
“Eu não sei quase nada, mas desconfio de muita coisa.” Palavras de Guimarães Rosa que pudemos ouvir de Zulei Bassi como uma das mais belas citações que existem. Essas e outras frases estão nos “bordados literários” da artista plástica.

Zulei é uma senhora são-joanense que prefere ser tratada por “você”.  Morou por 12 anos no Espírito Santo, de 1976 a 1988. Lá, ela diz: “aprendi a gostar da natureza. Vivi num lugar muito plano, bonito, cheio de verde e cercado por lagoas, muitas lagoas. Todo o dia ia à rua para ver a lua aparecer enorme como em uma dessas novelas, sabe... Refletia nas lagoas, era lindo”.

Nesse período em que viveu no Estado, também dividiu morada com Frei Betto e foi a Cuba duas vezes. Lá conheceu Fidel Castro, que aparece sorridente em uma fotografia mostrada pela artesã onde ela e o ex-ditador cubano apertam as mãos.

Na cozinha vemos pendurado na parede uma escultura da Santa Ceia, com metade dos profetas homens e a outra, mulheres. Ela explica que fez de propósito, pois acredita ser pouco provável que naquela época tivessem apenas homens à mesa, “seria muito machismo!”. 

Vemos mais artesanato. Na verdade, por toda parte. Porta retratos, potes com sementes, folhas e cascas de árvores na mesa e outra surpresa: duas imagens de Che Guevara aparecem coladas no vidro de um armário.

Sobre sua relação com a política Zulei diz que é petista, embora atualmente não milite da mesma forma que antes. “Toda arte é espiritual, religiosa e política”. Ela continua engajada, contribuindo como pode, inclusive através de seu trabalho.

O seu ateliê se estende pela sala, cozinha, varanda e até em sua bicicleta. Quis imitar uma senhora de Brasília, que era artesã e distribuía as suas obras pela casa. E talvez seja esse o motivo de Zulei falar com tanto carinho de seus trabalhos: “Não gosto de colocá-los à venda em lojas ou por intermediadores. Eles são meus filhos   Mas nem sempre soube de sua inclinação à arte. Diz que estranhou quando começou a ser chamada de artista plástica. “Porque eu fazia colagens e não sabia que era arte.” Hoje, recebe encomendas de pessoas de vários Estados, a maioria por telefone.

Seu material de trabalho vem da Grécia, da Índia, da Nova Zelândia, do Egito, de qualquer lugar que tenha um amigo de Zulei. Depois que conhecemos suas obras, tendemos a olhar a natureza também como uma fonte de incríveis ornamentos.

Os materiais mais usados são sementes, folhas, pedaços de árvores, cipós, casca de frutas, areia... Enfim, tudo o que é natural e pode ser utilizado. Sem servir-se de nenhuma substância química, Zulei estuda cada elemento e cria métodos de conservação próprios. A maioria dos materiais que usa vem das proximidades de São João del-Rei, e é ela mesma que vai buscar.
           
Convite à Felit

Na próxima edição do Festival de Literatura de São João del-Rei, Zulei Bassi foi convidada a expor seu trabalho. Irá mostrar, mais especificamente, seus bordados literários, que são panos bordados com poesia e frases de autores como Guimarães Rosa, Mia Couto, Vinicius de Moraes e Chiquinha Gonzaga. A exposição ficará aberta ao público durante toda a programação da Felit, no galpão da Rotunda.


O festival desse ano tem como homenageada a escritora Ana Maria Machado, mas Zulei Bassi está mais ansiosa pelo seu encontro com Bartolomeu Campos. O autor tem um livro com a contracapa formada por imagens de sementes e a artesã fez um cartão especial, com a colagem de quase todas as espécies contida na ilustração. 

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