segunda-feira, 21 de março de 2011

Quaglia, o mestre do gesto


André N. P. Azevedo
Cláudia Lino
Íris Marinelli
                                                                                                                                                Íris Marinelli
Quaglia é uma pessoa de várias facetas, que aprendeu com cada experiência vivida.




















“(...) E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica,/vê-la brotar como há pouco/em nova vida explodida (...)”
João Cabral de Melo Neto


Viver. Talvez seja isso que todos nós procuramos em cada coisa que ganhe nosso empenho. E é isso o que João Garboggini Quaglia conseguiu. Viveu, mais do que tudo. Hoje o pintor vive em São João del-Rei, interior de Minas Gerais. Sua casa é tranquila, afastada do agito da cidade, e, claro, conta com um ateliê de pintura que guarda um pouco de seu trabalho. Mas antes disso, o artista passou por muito mais.

Quaglia nasceu em Salvador, Bahia - é impossível deixar de dizer que seu sotaque continua vivo, mesmo depois de tanto tempo. Lá mesmo, iniciou os estudos artísticos, aprendeu litografia (técnica de gravurismo que utiliza, basicamente, uma pedra calcária e tintas gordurosas). Mas não demorou muito para que saísse da Bahia e se mudasse para o Rio de Janeiro, lugar em que sua história foi se tornando cada vez mais rica.
No Rio, estudou na Escola Nacional de Belas Artes, quando as universidades eram, segundo Quaglia, “do Brasil”. Hoje, a faculdade se tornou UFRJ, e, o prédio onde Quaglia se graduou é o Museu Nacional de Belas Artes. Escultura, xilogravura, pintura em tela, fotografia, litografia: Quaglia sabe expressar sua arte em várias formas. Mas sua trajetória não foi totalmente artística, visto que trabalhou como jornalista para a Folha de São Paulo (em sua filial no Rio), e ainda se tornou oficial da Aeronáutica. Sem contar o tempo em que trabalhou na fazenda de seu irmão. Quaglia é uma pessoa de várias facetas, que aprendeu com cada experiência vivida.
Além de ter tido várias atividades diferentes, inúmeros lugares receberam Quaglia e sua arte. Além do Rio de Janeiro e da Bahia, ele também morou no Rio Grande do Sul, sendo um dos fundadores da Universidade Federal de Santa Maria. Além disso, a vida o levou para cidades como Madrid e Paris. Isso permitiu que conhecesse pessoas que fizeram parte de sua vida. O poeta João Cabral de Melo Neto, por exemplo, teve um livro ilustrado pelo pintor: Corrida de Touros, que descreve as touradas da Espanha, país onde se conheceram. Se hoje Quaglia vive em São João del-Rei é por causa de sua família.
Assim como sua vida, sua pintura também passou por diversas fases. Para o artista, sua fase inicial é a preferida, pois o desenho era feito de forma mais “solta”. Depois, foi buscando seu próprio estilo, algo precioso em sua carreira; que o possibilitou a passar sua mensagem por meio da arte com cada vez mais força. Além disso, uma definição o acompanha pela vida: “a pintura é o ato de documentar o gesto sobre um suporte. Não é bonito? O pintor tem que dominar o gesto para ser bom”.
Segundo o próprio Quaglia, tudo pelo que passou já estava preparado. “Você é predestinado às coisas. Você pode desejar o que quiser”, ensina. Em certo momento, ele lembra a última vez que viu João Cabral de Melo Neto – em sua última entrevista ainda vivo. “O jornalista perguntou pra ele se ele tinha medo da morte. Como pode uma coisa dessas?”, conta indignado pela pergunta feita. Afinal, morrer é algo para o qual estamos predestinados. Mas qual o motivo de temer isso se podemos passar ainda por muitas coisas na vida? Ainda mais diante de uma jornada como a de Quaglia.
Em certo ponto da entrevista, ele nos aconselha a gravar todas as entrevistas que fizermos, pois não podemos perder os detalhes. Sem ele mesmo ter notado, a entrevista estava sim, sendo gravada.

3 comentários:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...