domingo, 21 de novembro de 2010

Salve o divino! Fé e tradição popular em São João del-Rei

Antônio Ferreira, Fernando Oliveira e Nathanael Andrade
Nathanael Andrade   
  O Imperador do Divino e sua Corte. Festa do Divino de 2009
Todos os anos, nos 50 dias que separam o domingo de Páscoa do de Pentecostes, a cidade dos sinos e da música sacra se transforma. É tempo das festas do Divino, do vermelho escarlate, do ritmo forte dos tambores, dos versos e cantos populares de devoção, das folias.
 Nathanael Andrade   
Grupo de Congado de S. Gonçalo do Amarante

A festa do Divino começou em São João del-Rei com a inauguração da pequena igreja do Sr Bom Jesus de Matosinhos, em 1774. Estas comemorações correram animadas até o ano de 1923. Além dos eventos religiosos, barraquinhas de comidas típicas e de jogos diversos, ocupavam a praça ampla do “pitoresco arrabalde”. Asbandas de música e as orquestras se revezavam no coreto especialmente construído para festa. Eram comuns as cavalhadas, as corridas de touros (touradas), os circos de divertimentos diversos.
   
Em 1924, no entanto, uma determinação de D. Helvécio Gomes de  Oliveira, bispo da diocese de Mariana, pôs fim aos festejos. O motivo “oficialmente” alegado: muito jogo, muita diversão e pouca religião. Para os são-joanenses, a verdadeira razão foi tirar a concorrência com a festa do Santuário de Congonhas, esvaziada pelos festejos em São João del-Rei.
  Nathanael Andrade   
 Ulisses Passareli carrega a bandeira

O tempo passou e a festa, que outrora fora um acontecimento regional se reduziu a uma novena com pequena participação popular. Todavia, as lembranças da festa e a vontade de restaurá-la nos moldes antigos permaneciam vivas no ideário de jovens e velhos entusiastas. Uma comissão foi formada com este propósito nos fins dos anos 90. Em 1998, acontece o tão esperado resgate da festa do Divino, seguindo uma programação parecida com as festas do passado.
  
Ulisses Passarelli fez parte desta comissão e foi eleito o primeiro Imperador do Divino. Ulisses explica a organização da festa: “O Imperador cumpre a função de principal festeiro. É o encarregado de promover e organizar a festa”. Mas não faz isto sozinho, é claro. Mais de uma centena de pessoas e profissionais diversosestão envolvidos na preparação e na execução da festa.
  
A festa do Divino é uma celebração de muitos simbolismos, de muitos significados. Para Passarelli, a maior significação, é a religiosa: “A essência da festa, seu principal objetivo é a adoração e o louvor ao Espírito Santo”. No entanto, segundo o pesquisador, o resgate da festa do Divino vem favorecendo o resgate de outras tradições que a cidade vinha esquecendo como, por exemplo, o florescer de grupos de foliões que a modernidade fez desaparecer.
      Nathanael Andrade       

João Bosco Silva, natural de Emboabas, é morador do bairro de Matosinhos e participa ativamente da festa, desde a sua restauração. “É muito bom ver a praça tomada de gente. A festa tem um colorido bonito, muitas folias vêm de lugares distantes. Agente fica orgulhoso disso.”
  
Luis Marcelo dos Santos, carroceiro, não perde a cavalgada e nem a procissão de Santo Antônio, Imperador Perpétuo da festa. Em sua charrete, carrega familiares e amigos. “Eu gosto de participar. É importante”. – diz ele. “O Espírito Santo dá forças pra gente vencer as dificuldades da vida”.
  
O resgate da festa cumpriu seu papel: Além da devoção, restaurou tradições e elevou a estima de toda uma comunidade. Salve o Divino! Salve! 
 
 
 
 


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