segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Resende Costa: a arte de fazer arte

Emanuele Ribeiro
Fernando Chaves

Emanuele Ribeiro    
    O comerciante Édson Ribeiro fala com orgulho do seu sucesso na área artesanal


Com cerca de 10 mil habitantes, Resende Costa é conhecida pela sua produção têxtil artesanal. Essa atividade é responsável pelo impulso turístico vivido pela cidade nas últimas duas décadas e é tida como a principal fonte de renda do município. É comum o visitante ouvir que, por ali, “toda casa tem um tear”. Resguardado o exagero, esse dito revela que a produção têxtil de Resende Costa ainda sustenta características artesanais e acontece, em grande medida, de maneira descentralizada.



O processo de produção do artesanato de Resende Costa é repassado há décadas através das gerações, o que garante que a tradição não seja esquecida. Em meados do século XX, a atividade ganhou mais força e, consequentemente, mão-de-obra e produção aumentaram.

De acordo com relatos de artesãos e comerciantes que atuaram nesta época, o processo de produção artesanal não era valorizado como hoje. Explicam, por exemplo, que a matéria prima (o retalho, sobra de tecido industrial) era abandonada pelas fábricas nas grandes cidades e que artesãos e viajantes aproveitavam aqueles resíduos na produção de colchas e tapetes. Atualmente, essa matéria prima é vendida pelas fábricas aos artesãos e, muitas vezes, até falta. Isto devido à modernização das fábricas têxteis, que depois da mecanização e da informatização de seus processos produtivos passaram a ser mais econômicas e a “produzir” menos retalho. Por outro lado, o trabalho manual e a produção artesanal agregaram, hoje, valor ecológico e multiplicou-se a demanda pelos seus produtos.

Maria Libânia de Resende é uma das artesãs mais tradicionais de Resende Costa. Dona Mariquinha, assim conhecida pela comunidade, vive na zona rural e transmitiu seus conhecimentos aos cinco filhos e nove netos. Sua família aparece como uma das mais antigas detentoras de conhecimentos sobre o tear.

Cícero Resende Chaves é empresário do ramo artesanal há 12 anos e presidente da associação empresarial e turística de Resende Costa (ASSETURC). Ele nos conta que a cidade possui hoje cerca de 80 estabelecimentos comerciais diretamente ligados ao artesanato, sendo a maioria associada à ASSETURC. 

Ele avalia que os principais desafios do turismo e do artesanato de Resende Costa estão ligados à estrutura para receber o turista e ao preparo dos profissionais do comércio, para que atendam da melhor forma os visitantes da cidade. Cícero relata que há duas décadas a vocação do artesanato de Resende Costa era a venda para lojistas, no atacado. Naquela época, o percentual de vendas realizado para o turista (varejo) era da ordem de 2%. Hoje, o movimento turístico se intensificou bastante e é responsável por cerca de 20% das vendas do artesanato local.  “O turismo desenvolveu-se muito rapidamente na cidade. Em duas décadas, surgiram cerca de 60 lojas de artesanato, o que é muito bom, pois a cidade ganhou o aspecto de um “shopping”, onde o consumidor encontra uma enorme variedade de produtos. 


O problema é que, com o crescimento repentino, o mercado criou novas exigências e a cidade foi pega despreparada em alguns aspectos. O turista, que tem um perfil diferente do atacadista, fica em Resende Costa por mais tempo, exige uma melhor recepção e quer conhecer outros atrativos da cidade. Apesar de haver avanços no que diz respeito à estrutura de recepção da cidade, como o aumento do número de restaurantes, bares e hotéis, assim como o melhoramento da qualidade dos serviços prestados pelos estabelecimentos que já existiam, é preciso avançar ainda mais nesse sentido”, relata o presidente da Associação.

Cícero fala, também, de suas perspectivas para o futuro comercial e turístico de Resende Costa. Ele aponta o valor ecológico, a cada dia mais agregado ao produto artesanal, como impulso à economia da cidade. Destaca ainda, o avanço que o país vive na área da construção civil, fator favorável ao setor de decoração. “Quem constrói, decora”, afirma o empresário, confiante no avanço do comércio de cama, mesa, banho e decoração.    

O comerciante Édson Ribeiro atua há cerca de 20 anos na área artesanal. Ele conta que, no início, trabalhava apenas com a produção e o fornecimento dos seus produtos às lojas. Após algum tempo desenvolvendo trabalhos no tear, abriu seu próprio comércio, no início apenas com três funcionários. Hoje, passados 16 anos, Édson revela que envolvendo atendentes, tecedores, fornecedores e outros mais, há mais de cem pessoas trabalhando com ele.

O Artesanato de Resende Costa é sem duvidas protagonista do desenvolvimento econômico de uma região, promovendo o turismo, a renda, a geração de empregos, o reaproveitamento de materiais e, muitas vezes, a inclusão e a mobilidade social. E a cidade se prepara cada vez mais para receber melhor seus visitantes e continuar crescendo, mas sem perder seu vínculo com o passado, com o trabalho manual e com os modos mineiros que garantem a autenticidade de sua cultura e de seus produtos. 

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