terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quati, o Mestre do Carnaval

Carolina Gouvêa
Kátia Lombardi  
  Mestre Quati e seus bonecos
    


Os olhos de Mestre Quati são pequenos e profundos. Não nos encaram, não se sentem confortáveis em olhar diretamente em nossos olhos. Ou, talvez, simplesmente se preocupem com coisas muito mais importantes: as cenas invisíveis que passam diante de seu rosto, as lembranças que parecem tomar vida em sua frente. Quati encara apenas o horizonte e nele se deixa perder enquanto fala. Parece viver outro momento.

Kátia Lombardi   
Talvez Quati veja em sua frente apenas lembranças, as mesmas que conta com voz mansa e entre risadas. Talvez o que ele veja são planos e idéias, preparações. De qualquer forma, com certeza tudo que enxerga é a alegria e a vivacidade da maior paixão de sua vida: o carnaval. 

Aos 76 anos, o senhor de boina e rosto feliz e humilde é o guardião do carnaval são-joanense. Ainda lembra as antigas tradições, os “Zé Pereiras”, os antigos blocos e folias de antigamente – e mais ainda, dedicou boa parte de sua vida à honra de ajudar a construir o carnaval em São João del-Rei. Segundo ele próprio, é o único carnavalesco antigo vivo da cidade.
Ele lembra, entre sorrisos e pequenas pausas, como era feliz e bonita a época da serpentina, das batalhas de confete e do lança-perfume. Se diverte ao lembrar que todos usavam fantasias de Carnaval e que todos freqüentavam bailes e matinês em todos os dias da festa. Conta que sempre fez parte de blocos e desfilou em inúmeras escolas de samba, que desde criança fazia sua parte como folião. E então ele canta suas marchinhas prediletas com voz afinada e cheia de saudade.
E apesar da idade avançada e da dificuldade em andar, Seu Quati ainda continua participando do carnaval e possui até mesmo um bloco próprio, o Recordar é Viver. Como sugere o nome, o bloco tenta resgatar as tradições carnavalescas perdidas trazendo marchinhas antigas, fantasias e o mais interessante: bonecos gigantes, cabeções, bois e alegorias confeccionados pelo próprio Mestre.

Quati confecciona os bonecos e alegorias em sua casa, em um galpão onde guarda todos os adereços de seu bloco. Munido de espuma e cola de sapateiro. “Antes era grude e jornal, mas era só dá uma chuva que estragava tudo”, relembra.

   Kátia Lombardi
E com a ajuda de dois rapazes, o folião cria as alegorias da forma que aprendeu com Oswaldo Tintureiro, o responsável pelos bonecos de antigamente. Não sabe a data exata que começou a fazer os bonecos – ele parece um pouco confuso com datas agora, se perdendo em meio às contas e aos anos – mas afirma que há muito tempo se dedica a esse ofício. Com um sorriso de menino e olhos novamente sonhadores, afirma: “Agora eu quero fazer é aqueles bonecões de Olinda, daqueles grandes e bonitos”.

Além de ter desfilado em várias escolas da cidade, muitas delas já extintas, e de ter a folia como ofício, Seu Quati já foi pedreiro, sineiro, músico e jogador de futebol. Graças a essa última profissão, recebeu o apelido de Quati, em uma referência à agilidade que possuía em campo. Agora, é aposentado e trabalha em um pequeno brechó na frente de sua casa.

A verba para construir os bonecos e as alegorias e para manter o bloco vem da prefeitura. Segundo Quati, o dinheiro que mandam é muito pouco e é facilmente gasto com as despesas do carnaval. “Essa juventude de hoje só pensa em dinheiro. Para carregar uma cabeça (de boneco) eles cobram 20 reais. Antigamente todo mundo brigava pra levar uma cabeça, e de graça. E ainda tem que pagar banda, músicos. Tudo hoje é muito caro e os empresários também não ajudam mais como antes”, reclama.

Apesar de ainda manter o carnaval, Quati é acima de tudo saudoso. Parece querer voltar no tempo, querer o “carnaval de verdade” de volta. Segundo ele, a folia em São João del-Rei era a terceira mais famosa do Brasil, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro e de Olinda, mas acabou perdendo com os anos todas as suas características e singularidades, fazendo com que o carnaval quase acabasse. Entretanto, ele afirma que agora tudo “está melhorando, voltando a ficar bom, por que hoje tem muito material bom para ajudar a fazer as alegorias”.

Kátia Lombardi   

Como se não bastasse relembrar o carnaval de épocas antigas e contar sobre como anda seu bloco nos dias de hoje, ele ainda mostra fotos, reportagens e jornais onde apareceu como ator principal. Parece se orgulhar em ser reconhecido como uma espécie de lenda viva, uma personalidade importante em sua São João del-Rei. “Quando chega perto do carnaval, vem gente aí me entrevistar, vem muito o pessoal da Secretaria da Cultura”, conta.

Por fim, Mestre Quati, ou Benedito Reis de Almeida, reafirma seu amor pelo carnaval. “Eu não bebo, não fumo, minha paixão é essa mesmo”, justifica. E, sorrindo, sorriso de menino e olhar perdido de saudade, repete uma espécie de juramento: “Só deixo o Carnaval no dia em que eu não conseguir andar. E aí eu não sirvo é pra mais nada”. 

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