quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O homem da máquina


Carol Argamim Gouvêa
Íris Marinelli
André N. P. Azevedo     
O maquinista Alexandre Augusto Goddi Campos tem orgulho em atender os turistas

Dez horas da manhã. Havia fumaça e vapor por todos os lados quando encontramos o homem de uniforme pela primeira vez. Enquanto ele se dirigia para a máquina, entrávamos em um dos vagões admirando o cenário de filme antigo: sofás de couro e paredes de madeira conservados por mais de um século. Tudo remetia ao passado. E, então, a Maria Fumaça soou pela primeira vez o apito, dando início ao seu trajeto até Tiradentes.


A viagem demorou 40 minutos. Durante o caminho, crianças acenavam e moradores de São João del-Rei admiravam a locomotiva. Depois, a paisa­gem foi tomada por fazendas, serras e rios, que completavam o cenário da viagem. Foi apenas em Tiradentes que encontramos o homem de uniforme outra vez. Alexandre Augusto Goddi Campos, o maquinista. Figura interessante de se conhecer, com alma de Maria Fumaça.

Alto, magro e sorridente. Logo à primeira vista Alexandre parece uma pessoa feliz, orgulhosa. Ele fez questão de ser entrevistado no vagão da loco­motiva, onde se sentou confortavelmente, como se estivesse em casa. Sem parar de falar um segundo e sempre gesticulando muito, o maquinista de 39 anos contou sua história de amor à Maria Fumaça.

Formado em 1998 em Engenharia Mecânica pela UFSJ, entrou como voluntário na estação em 2002, após passar toda a infância admirando o trem que passava em frente a sua casa. Apaixonado pelo que faz, recusaria qualquer proposta de emprego melhor se esta significasse o fim de seu trabalho na ferrovia. E mais do que isso, Alexandre é quase um român­tico. “Tenho paixão pela locomotiva. Amor mesmo, como se fosse minha. Eu a trato igual mulher, trato bem.”

O condutor conta algumas curiosidades sobre a Maria Fumaça, explica seu funcionamento, lembra de histórias. Segundo ele, várias celebridades já viajaram naqueles vagões e alguns filmes e novelas já tiveram o trem como pano de fundo – o próprio Alexandre participou destes ao vestir figurinos de época.
 Carol Argamim Gouvêa    
Alexandre: paixão pela locomotiva

A verdade é que Alexandre é quase uma celebridade nas estações de São João del-Rei e Tiraden­tes. É sempre muito procurado pelos turistas, que querem ouvir curiosidades, tirar fotos e conhecer a caldeira, o que o faz ter contato com pessoas de vários lugares do Brasil e do mundo. Alguns turistas acabam se tornando até mesmo amigos do maquinista, voltando de tempos em tempos e mandando cartões e fotos. Além disso, Alexandre já foi entrevistado por alguns programas de TV e, principal­mente, pelos participantes das oficinas da Mostra de Cinema de Tiradentes. Isso o deixa muito orgulhoso – ele faz questão de lembrar amigos e entrevistas.

Mas nem tudo é fácil na vida de maquinista. Só de se aproximar da máquina, pode se sentir o calor forte que vem da caldeira, quase insuportável.

Alexandre tem que aguentar todos os dias esse calor, durante toda a viagem e, para isso, utiliza equipamentos de segurança – como botas de aço (de quase 2 kg cada uma!), óculos e abafador de ruído. Também possui algumas obrigações extras, como cursos anuais de simulador de trem e de caldeiras em Belo Horizonte. Para completar, finais de sema­na e feriado são os principais dias de trabalho para Alexandre. “Tem que gostar muito desse trabalho, pois é muito difícil”, afirma.

Mas ele ama tanto esse ofício. Muito entusiasma­do, ele conta como é gratificante trabalhar em lo­comotivas que possuem mais de um século, ressal­tando como é importante manter a tradição, já que a Maria Fumaça mudou a sua função, passando de comercial para turística. Ele afirma que antigamente a linha do trem era bem maior, com estações em Pra­dos, Antônio Carlos e Barroso -agora, a locomo­tiva só vai até Tirandentes, por isso a necessidade de manter essa linha e as características originais dos vagões.

Fizemos a Alexandre uma última pergunta, algo que havia nos intrigado durante a viagem, sobre o porquê de o trem apitar tanto. “Porque isso faz parte da tradição e porque é obrigatório apitar nos cruza­mentos para alertar os carros. Os turistas e o povo de São João também acham bonito”, responde. Alexandre conta que ainda tem um apito preferido, pois das duas locomotivas em atividade, um possui dois tons diferentes de sonoridade. “Quando escutam o trem se aproximar, as pessoas acenam. Não viram minha mãe dando tchau da janela de casa?”, disse ele, sorrindo.

Após conversar animado por mais de meia hora, ele termina a entrevista. Mas, antes de se despedir, faz questão de mostrar o funcionamento da caldeira e tirar fotos – ele adora fotos, por acaso. Por fim, ele se despede e entra na máquina. A locomotiva ganha vida. E então, mais uma vez a Maria Fumaça soa o apito. Ou seria Alexandre?

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