domingo, 21 de novembro de 2010

Cinema muito além do digital

Ana Luiza Fernandes
Luis Gustavo Santos
Luis Gustavo      
São João del-Rei tem encontro marcado com o cinema entre os dias 18 e 28 de novembro. A exposição “Tela em movimento: uma história cinematográfica”, presente no centro cultural da UFSJ, pretende levar ao público um pouco da história e do fascínio provocado pela sétima arte.
A exposição promove uma viagem à gênese do cinema, ilustrando através da presença de uma série de equipamentos cinematográficos momentos marcantes do cinema nacional e mundial. Cinema que vai muito além do digital.


A história do acervo 
Luis Gustavo      
O cineasta Carlos Scalla   
O dono do acervo, Carlos Scalla, apresentou com grande orgulho algumas das peças que ele trouxe de seu museu em Muriaé. “Eu reúno essas peças há 42 anos, nunca vendi, tudo isso pela paixão insólita que carrego pelo cinema desde menino.”
Na abertura da exposição, Carlos contou um pouco de sua história como cineasta e as dificuldades que ele passou para conseguir produzir seus primeiros filmes. “Eu produzi meu primeiro filme aos 14 anos, um bang bang custeado por amigos que faziam parte da película. Juntamos dinheiro e compramos o material. Mas em Muriaé não havia quem pudesse me ajudar, só havia retratistas, nenhum cineasta.”
Segundo ele, a intenção de manter o Museu Carlos Scalla é para que outras pessoas que se interessem por fazer cinema não encontrem as dificuldades que ele encontrou àquela época. Hoje o museu conta com uma biblioteca com inúmeras obras que narram a história do cinema, servindo de referência sobre o assunto.

Equipamentos raros com boas histórias
Luis Gustavo    
   Conjunto Cinematográfico Pathé Baby
Raridades como o Cinematógrapho Pathé Fréres, de 35 mm, fabricado na França em 1898, são uma das principais atrações da exposição. Este, em especial, conta com uma história peculiar.
O cinematógrafo foi encontrado por Carlos Scalla enterrado em sua cidade. Ele ficou fascinado pela máquina, mesmo não funcionando e faltando algumas peças. Com muita dedicação, durante dois anos, Scalla restaurou a Pathé Fréres com argamassa e latão. Hoje o equipamento funciona perfeitamente e, inclusive, foi utilizado em filmes do cineasta - a importância dessa peça está na sua criação. A Pathé Fréres foi a primeira invenção dos irmãos Lumière considerada híbrida, que unia imagem e som. A história dessa raridade é exibida na exposição. 

Cartazes, notícias e fotos sobre o cineasta Humberto Mauro também marcam presença no Centro Cultural. Diretor do curta metragem “Valadião – O Cratera”, rodado em Cataguases em 1925, Humberto foi amigo de Carlos Scalla e utilizou o Conjunto Cinematográfico Pathé Baby 9,5 mm para fazer a filmagem. O cinematógrafo, datado de 1922, hoje pertence a Scalla e é exibido como uma das relíquias dessa exposição.

O curador convida
O produtor e curador da exposição, Adriano Medeiros, professor do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto, foi quem incentivou a vinda da exposição para São João. “Para os amantes do cinema, estamos preparando um universo poético e de grande imersão, no qual equipamentos deixam de ser apenas máquinas e passam a nos oferecer revelações, anseios e verdadeiras histórias de vida e de dedicação a essa arte tão cobiçada. Vale a pena conferir”, disse Medeiros. Segundo o professor, as peças expostas no Solar da Baronesa devem seguir para Ouro Preto e Mariana.

Depoimentos
Luis Gustavo     
O artista plástico Wangui, o cineasta e o pró-reitor Murilo Leal   
Segundo Estela Martins, professora aposentada, visitar a exposição é voltar ao passado. “Ver tudo isso me faz lembrar a época em que o cinema se difundiu no Brasil e toda pequena cidade tinha, ao menos, uma sala de exibições. Recordo perfeitamente das máquinas precárias e da comoção do público com os filmes. Hoje, com tanta tecnologia, a graça se perdeu e o filme se banalizou. Imagino que até mesmo para o cineasta, que antes via tudo se materializar com seu esforço, as filmagens digitais não são tão emocionantes quanto rodar sua própria película".
A são-joanense de 67 anos diz que poder assistir às explicações do cineasta na abertura da exposição foi enriquecedor. “Ver o senhor Carlos Scalla rodando um cinematógrafo original, explicando seu mecanismo, foi fantástico. Irei até o Museu em Muriaé para ver ainda mais”. 
    Luis Gustavo

Sobre as novas tecnologias, Scalla foi enfático: “Me rendi ao digital por ser muito caro filmar em película. Já usei essa tecnologia, mas, é claro, que eu prefiro os velhos e bons cinematógrafos, que associam as funções de máquina de filmar, de revelação de película e de projeção”.

“Tela em Movimento” inicialmente seria exposta no Campus Tancredo Neves (CTAN) da UFSJ por ser o campus que abriga o curso de Comunicação da Universidade. Mas pela localização afastada e ausência de espaço especifico para a exposição, ela está em curta temporada no Solar da Baronesa e deve atrair a atenção de todos os apaixonados por cinema de São João del-Rei e região.


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