quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Magia e mistério em forma de livro


Ana Luiza Fernandes

Inspirado pela magia e mistério que rondam a cidade de São João del-Rei, o jornalista Lincoln Souza, são-joanense, escreveu o livro Contam que... , composto pelas lendas que circulam na boca do povo dessa histórica cidade mineira. Sendo a quinta edição datada do ano de 1956, esse livro de bolso contém 12 das mais conhecidas lendas da cidade. Segundo o autor, seu objetivo era fazer um registro que assegurasse vida menos efêmera a esses contos, evitando que eles que caíssem no esquecimento.

Para garantir a permanência de tais lendas, constituintes do imaginário de um povo e riqueza espiritual e cultural da população, Lincoln deu a maior importância aos "causos" e foi recolhendo, porta a porta, histórias contadas pela "gente de tempo antigo" de sua cidade.


Com uma linguagem simples, dotada de características tipicamente mineiras, o jornalista narra as histórias com descrições que acentuam o caráter de suspense das lendas. Permeadas por santos, deuses, demônios e defuntos, as histórias, em sua maioria, carregam o espírito profundamente religioso do povo são-joanense. Esse caráter torna as lendas ainda mais reais, pois, os cenários que envolvem esses contos ainda estão de pé em São João del-Rei, como as igrejas e cemitérios centenários da cidade.

A herança escravista da época da mineração também deixou sua contribuição para as lendas. A mais marcante delas está em "O segredo", em que uma senhora de escravos muito perversa faz crueldades a uma bela escravinha por ciúmes do marido. Até hoje se fala desse segredo na cidade como uma verdade, uma fato ocorrido nos tempos do minério. Com tom visivelmente moralista, os contos como "A bisbilhoteira", "O defunto que o diabo levou" e "O irmão Moreira", narram fatos de cidadãos pecaminosos, que falavam da vida alheia, viviam em boemia e em pecado e que foram castigados, por Deus ou pelo diabo. Cada um teve o seu fim, uns salvos pela devoção, outros carregados para o inferno.

A prosa ágil e saborosa conta com as ilustrações do pintor e desenhista Armando Pacheco, que ganhou o prêmio de viagem do Salão Nacional de Belas Artes pelos desenhos dessa obra. Desenhos esses que contribuem para construção do ambiente imaginário das lendas, e confere beleza e veracidade àqueles que conhecem a cidade-cenário desses contos.

Nas primeiras edições do livro, surgiram críticas que duvidavam da originalidade de tais lendas, principalmente de "A Mula sem Cabeça", que está presente no folclore de várias cidades brasileiras e até de outros países. Lincoln Pacheco defende-se dizendo que essa publicação não teve nenhuma intenção literária, e sim a intenção de registro e divulgação da cultura popular de sua cidade natal. O jornalista afirmou, no prólogo da quinta edição de Contam que... que nenhuma lenda conta com a originalidade absoluta, elas se modificam e se transformam, levadas de canto a canto, sendo desconhecidas suas origens.

No entanto, isso não retira o brilho que essas lendas ganharam em São João del-Rei, cenário propício para histórias misteriosas como as aqui narradas. A 5º edição da obra arrancou do público e crítica muitos elogios pela legitimidade folclórica dessa tradição popular: "O fato de o livro alcançar, dentro de pouco tempo, a quinta edição, diz bem de sua aceitação pelo público leitor. São realmente reminiscências vivas da velha cidade montanhesa, que Lincoln de Souza apresenta, com um estilo brilhante e colorido", afirmou o jornal Última Hora de 15 de setembro de 1956. O Jornal do Brasil também deu seu parecer positivo: "A relativa proximidade entre os fatos e o mito empresta à história um fascínio particular".

E é tamanha a importância dessas historietas narradas pelos mais tradicionais são-joanenses que essas histórias não foram escritas somente por Lincoln Souza em meados do século passado. Elas continuam sendo narradas a turistas e transeuntes de São João del-Rei e escritas por aqueles que acreditam na validade dessa cultura municipal. Munir Hallah é um deles, que atualmente acredita nesse patrimônio da cidade, e vive, nas proximidades do Largo do Rosário, vendendo seus escritos sobre as lendas, para que elas continuem vivas no imaginário da cidade e de todos que por ali passeiam. Assim como eles, há o grupo de teatro Lendas São-Joanenses que encena essas histórias na fria noite da cidade, com passeio pelos cenários narrados.

Contam que... abriu portas para que essa cultura popular se enraizasse e ganhasse reconhecimento tanto na própria cidade quanto no país. A contribuição de Lincoln de Souza em registrar é reconhecida pela população que fala com orgulho dessa obra

2 comentários:

  1. olá Ana Luiza,

    Faço parte do Grupo cultural Lendas Sao Joanenses. Obrigada por citar o nosso nome no seu artigo. As lendas são um patrimônio imaterial que deve ser preservado e divulgado. Inclusive estaremos recebendo no dia 16 de dezembro um troféu do IPHAN por termos nos destacado no quesito SALVAGUARDA DE BENS IMATERIAIS.

    Gostaria de sugerir que vocês escrevessem sobre o nosso passeio. Posso enviar material.

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