terça-feira, 12 de março de 2013

Uma prosa com sabor de Meg

Walquíria Domingues


Walquíria Domingues  

Uma casa grande, aconchegante. Uma mesa cheia de pãezinhos de mel, embrulhados com todo cuidado, em uma bandeja de prata. “Fiz para um batizado e estou acabando de arrumar”, diz Meg Calil Zarur, mãe, cozinheira de mão cheia e apresentadora de rádio e televisão. Uma mulher que se mostra apaixonada pela culinária, pelos filhos, por si mesma e pela vida.

Meg apresenta o programa culinário “Sabor em Prosa”, da TV Campos de Minas, e recentemente o programa “Fim de Tarde”, da Rádio São João. Especialista em culinária e prosa me recebeu como uma amiga de muitos anos, com muita conversa, várias delícias feitas por ela, e seu enorme estojo de maquiagem. Rímel, espelhos e dicas de beleza intercalaram momentos da sua vida, contados com risos e emoção.

Do começo
A loirinha caçula de cinco filhos morava em frente à antiga Escola de Comércio. “A nossa rua tinha muita criança, todas da mesma idade. A gente brincava demais na rua, era muito bom”, relembra Meg, que perdeu o pai com apenas quatro anos de idade. “Minha referência é toda minha mãe”.

A infância e adolescência foi vivida em São João del-Rei, mas por um tempo, Meg foi passear na casa do irmão, em Cuiabá, e ficou por lá, durante dois anos e meio. “Eu fazia faculdade de Ciências Biológicas. Tranquei a faculdade e fui morar lá”, recorda. A mudança foi em parte uma fuga de um namoradinho que não a deixava em paz. Por lá Meg foi até miss. “Que vida boa eu tive lá. Mas minha mãe estava se sentindo muito sozinha aqui, então eu voltei”, diz.

Dos amores
A maior paixão de Meg entrou em sua vida em 1986. Depois de retornar para São João del-Rei, ela foi a uma festa na casa do amigo da família Dr. Marcos Campelo. “Ele me apresentou o Paulo, que estava namorando. No outro dia nós fomos num baile no Social, e realmente são coisas que tem que acontecer”, relembra. Paulo Aurélio Campos havia terminado, de um dia para o outro. Na mesma festa estava Aécio Neves, na época em que lançou sua primeira candidatura. “Eu queria o Aécio, mas foi o Paulo quem investiu”, brinca Meg. Em uma semana ela e Paulo começaram a namorar, e se casaram em 1990. 
 
Arquivo pessoal
A parte mais dolorosa de sua vida foi quando perdeu a mãe, em 2000, e quando ficou viúva, em 2002. Vítima de câncer, a mãe de Meg ficou doente por apenas sete meses e se foi. “Deus me mostrou que a gente não pode ser egoísta”, reflete. Paulo morreu de infarto, aos 47 anos, no dia em que levou a família para assistir um jogo de futebol em Belo Horizonte. “Meu filho nunca tinha ido ao Mineirão, e lá Paulo começou a se sentir mal. Ele teve 20 paradas cardíacas. Foi a época mais terrível da minha vida”, fala. Seus filhos tinham apenas 12 e nove anos. Eles perderam o pai tão jovens quanto Meg perdeu o seu. “A história se repetiu. E eu tentei ser sempre uma mãe super carinhosa com os meus filhos. O Rafael é minha cara, e a Lila é a cara do pai”, emociona-se. Para contar para os seus filhos da morte do pai, Meg contou aos filhos uma história de amor, sem final feliz.

Dos holofotes 
Em 2006 a vida de Meg mudou muito. “Chamaram-me pra fazer um teste lá na Televisão, para um programa de culinária. Eu sempre cozinhei e sempre gostei de cozinhar. Fazia salgadinho pra fora, essa coisa toda. O meu teste foi uma piada”, lembra. A alegria de viver da Meg conquistou a TV Campos de Minas logo neste primeiro teste, com suas brincadeiras e sua risada inconfundível. E lá permanece até hoje, apresentando o “Sabor em Prosa”.

Considerada a Ana Maria Braga da televisão local, Meg teve o prazer de conhecer sua colega de trabalho da Rede Globo. “No dia em que eu vi a Ana Maria Braga, eu dei um grito. Eu a entrevistei lá em Tiradentes. Quando ela me viu, ela falou, nossa, que menina grande!”, conta Meg. Fã da apresentadora, ela brinca, em meio a risadas, que é a Ana Maria “Brega” de São João.

Das prosas 
A essência do seu programa é uma boa conversa, daquelas que só se têm na cozinha das casas de interior. As pessoas da cidade recebem beijos da apresentadora, e adoram ver seus conhecidos na televisão. “Fiquei sabendo que tem duas senhoras doentes, que toda quarta-feira não tomam seus remédios pra dormir porque elas vão dormir felizes depois de assistirem o programa”, conta. “Olha a responsabilidade, eu fiquei emocionada. Fiquei feliz porque vi que eu estava fazendo bem para o próximo. Daí eu gravo o programa pensando nesse tipo de coisa”, diz. 

Arquivo Jota Dangelo
Como para todo mineiro tudo acontece em volta da mesa, até em velório tem que ter café e pão de queijo. Essa é a cultura de Minas. Na nossa mesa sempre cabe mais um. E este é o ambiente que o programa apresentado pela Meg proporciona. Boa prosa na beira do fogão. Agora ela também bate um papo com os ouvintes da Rádio São João, no programa “Fim de Tarde”, em que em cada dia um tema diferente é abordado, e uma pessoa da área é convidada para uma conversa sobre o assunto.

Dos carnavais 
“No carnaval eu fervia”, brinca Meg. Foliã assídua do desfile da Escola de Samba Qualquer Nome Serve, de Jota Dangelo, já foi até porta bandeira. “Aqui era o melhor carnaval do interior do Brasil. Já me diverti demais”, diz. Todos faziam suas próprias fantasias, que por sinal deviam ser impecáveis, senão Dangelo não deixava participar no desfile. As plumas eram muito caras, e já com vergonha de pedir mais dinheiro à sua mãe para comprar mais, Meg pedia seu cunhado, que pagava o material das fantasias em troca de uma boa massagem nos pés. “Eu gosto daquela época, mas hoje também é ótimo. Eu só não desfilo hoje porque tenho que cobrir o carnaval para a televisão”, afirma. Suas coberturas do carnaval são-joanense são tão animadas quanto os desfiles, blocos e foliões. É uma felicidade de alguém que já viveu muitas coisas, e que nos serve como exemplo. Já houve até quem se fantasiou de Meg Zarur no carnaval. Homenagem mais que merecida.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Folia de outros carnavais

Foto Jairo Vieira
Considerado tradição, a cada ano Carnaval de Antigamente fica mais cheio de foliões
Walquíria Domingues 

Carros antigos fazem a vez dos alegóricos, decorados de serpentinas e corações. Eles chamam a atenção dos foliões que começam a passar pelo Largo do Rosário, em São João del-Rei (MG), no domingo de Carnaval, 10. Como uma viagem ao passado, começa o Carnaval de Antigamente, bloco organizado pela Atitude Cultural. O tema deste ano foi uma declaração de amor pela cidade: 300 anos, eu amo São João del-Rei.

Em sua sétima edição, o evento já virou tradição na histórica cidade. “O que nos motiva continuar a cada ano é a participação da comunidade e a beleza do evento como um todo”, afirma a coordenadora do projeto Alzira Agostini Haddad. O domingo de Carnaval é então reservado para famílias. “As pessoas gostam muito deste tipo de carnaval, gostoso para as famílias, as crianças, que se divertem e convidam a cada ano mais pessoas”, explica.


Foto Jairo Vieira

Palhaços, batalha de confetes, bonecos gigantes, tapete de rua feito com confetes e marchinhas antigas trouxeram para os foliões o autêntico carnaval mineiro, com muitas peculiaridades de São João. “O bloco é uma proposta muito boa, porque ele resgata essas imagens, esses sons do carnaval antigo através de exposição de imagens, oficinas de máscaras, bandinhas de marchinhas, mascarados, e cada ano tem um tema diferente desenvolvido, nas suas alegorias e enfeites, que é muito bonito”, diz Ulisses Passarelli, Superintendente de Cultura da Secretaria de Cultura e Turismo de São João del-Rei.

Memórias de outros carnavais

O que mais chama atenção dos foliões, principalmente dos velhos moradores da cidade, são as exposições de fotografias do antigo carnaval de São João del-Rei. Todos os anos o acervo é cedido por alguém que vivenciou os anos de ouro do carnaval são-joanense. As fotos, expostas no meio do bloco, causam nostalgia nos que já não pulam a festa como antes. A exposição “Memórias do Carnaval de São João del-Rei” deste ano contou com fotos da família de Cenyra Rocha e do fotógrafo João Ramalho Neto, e pode ser acessada no site www.saojoaodelreitransparente.com.br.

Homenagens
Cenyra Rocha também foi homenageada na sétima edição do evento. Primeira mulher a tirar um brevê em Minas Gerais, e primeira mulher a dirigir um carro em São João del-Rei, Cenyra também sempre foi ativa e atuante na vida social da cidade. Faleceu em 2006, e com um acervo impecável de sua vida, forneceu imagens ricas para a exposição de fotos do carnaval. A placa de homenagem, entregue à sua família, também foi dada ao João Ramalho, ao Bloco os Caveiras, o mais singular, e o Grêmio Recreativo Bate Paus, pelos seus 80 anos, a escola de samba mais antiga da cidade.
 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Viajando no tempo

Walquíria Domingues
Vagão na estação de São João del-Rei leva turistas a uma viagem ao passado
Walquíria Domingues

“Eu comecei a trabalhar com fotografia em 1989, 1990. Comecei a fotografar com uma câmera soviética reflex”, relembra Luciano Marcos de Oliveira, fotógrafo há mais de 20 anos. Apaixonado por câmeras fotográficas antigas, sua coleção conta com mais de 40 máquinas. Algumas funcionam até hoje, inclusive uma ou outra ainda está em uso. Soviéticas, francesas, americanas, italianas. O conhecimento mundial da arte de fotografar fica reunido num pequeno e velho vagão de cartas, na Estação Ferroviária de São João del-Rei, local onde Luciano trabalha produzindo fotos de época para turistas.

Aprendizado
Com um curso de fotografia por correspondência, o seu aprendizado foi basicamente na prática. “Eu sou muito curioso, estudo muito fotografia, sou autodidata. Tenho livros, coleções sobre fotografia”, explica Luciano. Em 1992, quando ainda estudava na antiga Funrei (hoje Universidade Federal de São João del-Rei), ao pedirem os alunos para indicar livros para comprar para a biblioteca, Luciano indicou o “Tratado de Fotografia”, de Michael Langford, e eles compraram. “Agora que a universidade tem disciplinas de fotografia, com o curso de fotografia, eles devem ter bem mais livros sobre o tema, muito bom”, diz.

“As primeiras fotos que eu fiz e vendi foi dentro da fábrica em que eu trabalhava como metalúrgico”, recorda Luciano. Depois disso, ele foi trabalhar em laboratório, revelando fotografias em preto e branco, em Tiradentes (MG). “Lá em Tiradentes tem o ‘Traços de Época’, hoje do Cláudio Mesquista. Eu revelava fotos para os antigos donos, e depois fiz o laboratório do Cláudio, que me chamou pra ser sócio da ‘Máquina do Tempo’”, conta. Eles aproveitaram o antigo cenário da ferrovia, e deu muito certo.

Há oito anos, desde 2004, a Máquina do Tempo existe. “A ideia inicial era ter uma sala com porta pra rua, mas a ferrovia não tinha uma sala disponível, e então sugeriu o vagão”, explica Luciano. Eles pagaram a reforma do vagão, e mensalmente pagam o aluguel. Ele afirma que existem certas vantagens e desvantagens. “No verão é muito quente e o espaço é pequeno. Mas se for olhar pela originalidade do negócio, ficou até mais interessante. É uma pena que não conseguimos atender o público externo”, diz.

                                                     Walquíria Domingues
Luciano dá vida a câmeras antigas
Mirando o Passado
A sinalização é humilde, e indica um pequeno vagão inoperante de cartas, dentro da estação ferroviária. Fechado, ele é praticamente invisível aos olhos dos turistas que passam por ali, maravilhados com as máquinas, os vagões de luxo e o ambiente retrô. Mas, quando Luciano chega e abre as portas e janelinhas, quem percebe e chega perto é transportado para séculos atrás. Uma arara de roupas antigas, incluindo vestidos, ternos, anáguas e saias longas, divide o espaço com cabideiros de chapéus e boinas. No chão, alguns sapatos se apertam entre antigas malas de viagem. Um porta-jóias aberto derrama sobre a mesa alguns colares, anéis, brincos, luvas e outros adereços. E é na frente de um espelho comprido que as pessoas se transformam em verdadeiros personagens de época.

Denise Antero, 27, produtora, e sua mãe Adriana Antero, 47, pedagoga, de Fortaleza, vieram passear em Minas Gerais. Visitaram algumas cidades vizinhas e São João del-Rei, e depois de passearem na Maria Fumaça, resolveram tirar as fotos antigas da Máquina do Tempo. Denise conta que uma pessoa indicou as fotos enquanto estavam dentro do trem. “Resolvemos voltar aqui para fazer as fotos de época, ficamos muito interessadas”, conta. Com vestidos do século passado, sombrinhas e malas de viagem, mãe e filha viajaram no tempo e se divertiram fazendo encenações da época de suas gerações anteriores. “Amei a experiência”, fala Adriana.

Luciano explica que a ideia é interessante por que a atividade proporciona ao turista uma viagem no tempo. “É como você voltar ao passado, e sentir um pouco como era. É uma fantasia, uma diversão. A fotografia é uma grande diversão”, diz. Ele faz oito fotos, em quatro situações diferentes. “Quando está tranqüilo e a pessoa pede mais fotos, eu não me importo de fazer mais”, diz. O turista escolhe o que quer levar, a foto impressa ou o arquivo digital.

Paixão por câmeras
 
Luciano sempre gostou de objetos antigos, principalmente câmeras fotográficas. “Como eu já disse, a minha primeira câmera fotográfica reflex era uma câmera soviética, uma Zenit 11. Naquela época, final da década de 80, o Brasil não tinha muita abertura pra importação. Então era muito difícil comprar câmeras importadas, elas eram muito caras. A minha era mais barata, a gente podia comprar com mais facilidade”, explica.
 
Walquíria Domigues
Tudo para uma caracterização 
de época perfeita
Ele tem um conhecimento aprofundado em sistemas de fotografia tridimensional e estereoscopia. “É um assunto que no Brasil é carente de informação. Até a estereofotografia é desconhecida por muitos fotógrafos profissionais. E as pessoas se surpreendem quando sabem que no século XIX, já tinha fotografia tridimensional”, fala.

A sua coleção começou quando Luciano tinha um estúdio. As câmeras chegavam com facilidade. “As pessoas me ofereciam câmeras que eram de seus avôs, por exemplo. E quando eu gostava, eu comprava”. “Eu gosto de ter as câmeras pra uso. Muitas delas eu recebo em condições bem precárias, e eu acabo dando um jeito de colocá-las em uso”, diz. Câmeras com mais de 100 anos, e com mais de 60 anos inoperantes voltam a funcionar novamente.

Mirando o futuro
 Luciano está preparando um livro sobre estereoscopia, e também quer fazer uma exposição com as câmeras e com as fotografias que faz com elas. Talvez ele precise repensar seus planos, transportar a Máquina do Tempo para outro local. “Eu estou com ordem de despejo do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional]. Em 2007 a união repassou as ferrovias de valor histórico cultural, como a de São João del-Rei, para o Iphan. “Eles querem que retirem tudo quanto é forma de comércio daqui de dentro”, reclama Luciano. “Já recebi convites para ir para Petrópolis, São Lourenço e para Olinda. Mas eu não gostaria de me afastar de Minas”, lamenta.
 

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